Folheei-a na FNAC. A revista não periódica da Averno está de volta. O editorial - ou o que pretende ser o editorial é um excerto de um texto de Pedro Oom, de 1980, publicado num livro da &etc.. E o que mais me interessou foi ver inéditos da poeta Ana Paula Inácio. Ainda bem!
e ainda outro livro, notícia via mail:
o nosso reino, o romance de valter hugo mãe recentemente dado à estampa - e que está já a ser justamente saudado como uma das mais importantes revelações literárias do início do século e mais uma aposta ganha da colecção "Lusografias" da Temas e Debates - será lançado no Porto, na FNAC do Norte Shopping, na próxima quarta-feira, dia 8, pelas 17.00h. A apresentação estará a cargo de João Paulo Sousa.
mais um livro, notícia recebida via mail:
A Editora 101 Noites e a FNAC gostariam de contar com a sua presença no lançamento do livro Ópera do Falhado de JP Simões no próximo sábado, dia 11 de Dezembro, pelas 18h,
no fórum da FNAC/Chiado e domingo, dia 12 de Dezembro, pelas 18h, no fórum da FNAC/Almada.
Depois da apresentação da obra, o músico Sérgio Costa e JP Simões irão interpretar alguns temas da Ópera do Falhado.
Da autoria de JP Simões, a Ópera do Falhado é o quarto título da colecção Poiesis dedicada à divulgação de textos de autores contemporâneos. Levada a cena em vários palcos nacionais em 2003, esta tragicomédia satírica, na esteira de Brecht e Chico Buarque, ilustra a eterna luta entre o espírito e a matéria num Portugal bem contemporâneo.
Inspirada em The Beggar¹s Opera de John Gay, na Ópera do Malandro, de Chico Buarque e na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, a Ópera do Falhado relata o reencontro de dois antigos colegas do liceu que descobrem a incompatibilidade dos caminhos que seguiram nas suas vidas.
Um empresário ávido de poder e um escritor desanimado com as profundas contradições da condição humana protagonizam uma espécie de encontro entre Fausto e Werther, entre a ambição e o romantismo, travado à volta de um velho café que resiste a ser demolido, cheio de memórias e dos fantasmas de um velho país.
Título: Ópera do Falhado
Autor: JP Simões
Editora 101 Noites
PVP: 14 euros
recebido no mail e, com prazer, anunciado aqui:
Lançamento de As Não-Metamorfoses (contos) de Alexandre Andrade, editado pela errata, dia 10 de Dezembro às 18h30, na sede do Clube Português de Artes e Ideias em Lisboa, Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2º.
Apresentação de Alexandra Lucas Coelho e José Mario Silva.
Título: As Não-Metamorfoses
Autor: Alexandre Andrade
Editora: Errata
Preço: 11 euros
Páginas: 144

Encontram-se Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa no novo audiolivro da Assírio & Alvim, pela voz de Germana Tânger.
O lançamento é no dia 28 de de Outubro e a apresentação será feita por Teresa Rita Lopes.
O livro "Compreender Paula Rego - 25 perspectivas" acompanhou, hoje, o jornal Público, pelo valor de mais 10€. O livro é o número dois da Colecção de Arte Contemporânea Público Serralves.
Este livro, com ilustrações de quadros, estudos e gravuras da pintora Paula Rego, contém uma antologia de textos sobre a obra de Paula Rego, desde 1965 a 2004. São apreciações críticas, poéticas e pedagógicas sobre o universo de Paula Rego e as transformações que este sofreu durante o percurso da pintora.

como um só socorro pode ser ineficaz para ressuscitar uma vida e, no entanto, tão fácil me parece a capacidade de renascer, qual fénix, entre as mentes dos homens.
estou lendo Poesia, de Daniel Faria. foi uma prenda do ano novo.
Estava ao pé de outros livros do fotógrafo, sem irmãos gémeos, já um pouco triste mas com valor de aprox 14 euro. Talvez seja barato... numa busca pela net, o valor mais próximo que encontrei foi exactamente 14 dólares... o valor seguinte já era 19.95 dólares... estes valores não incluem portes.
É um livro pequeno, em capa dura, para uma exposição em 2002, na cidade de Roterdão.
Manuel Alvarez Bravo (1902 - 2002)
Do editor:
Alvarez Bravo turns 100 this year, the Kunsthal in Rotterdam celebrates this with an exhibition of selected Mexican photographs and a series he took of Rotterdam life in 1959 and 1960. The catalogue is a neat poetic complement to Alvarez Bravo’s trademark sensitivity. Quotes in large font, an interview and an introduction are placed next to the carefully positioned prints framed by a creamy white border.
ontem, com o jornal Correio da Manhã, saíu um volume de BD do Miguelanxo Prado. imperdível, para quem não tem os álbuns ou dinheiro para eles!
a série Tangências é formidável. as Crónicas são delirantes. gostei muito da história Traço a Giz.
o jornal saíu do quiosque para o contentor de lixo mais próximo. guardei a revista para uma visão do ano 2003 mais alargada... ainda não a folheei.
Na comemoração dos 25 anos da morte de Ruy Belo, ao encerrar a Coimbra 2003, a Assírio e Alvim apresenta o segundo audio-livro da sua colecção e segundo, também, sobre a poesia de Ruy Belo.
Este segundo audio-livro, A Margem da Alegria envolve não só Luís Miguel Cintra, mas também alguns dos seus colegas da Cornucópia.
Nós pobres, que não temos o primeiro, olhamos para a etiqueta e lemos 35 Euro...
Manuel Rosa (editor) anuncia que se segue:
- Germana Tanger dá voz a Pessoa, Sá-Carneiro e Negreiros
- com a EMI, a poesia de O'Neill
- mais tarde em 2004, Teixeira de Pascoaes
na volta do correio chegaram também duas revistas: Correntes d'Escritas 1 e 2, com dossiers sobre Sebastião Alba (Fev/2002) e Sophia de Mello Breyner Andresen (Fev/2003), respectivamente. edição da C.M. Póvoa do Varzim e do Casino da mesma cidade.

querem um livro? não sabem o que hão-de comprar? aqui está uma sugestão!
Gonçalo M. Tavares publicou o seu primeiro romance: Um Homem: Klaus Klump, o seu caderno 7, editado pela Caminho.
O meu interesse por este autor partiu de uma peça representada por Manuel Wiborg no espaço d'A Capital, Teatro Paulo Claro: o homem ou é tonto ou é mulher (Campo das Letras), escrita, segundo a lenda, em duas horas no CCB e em forma de verso. O meu interesse cimentou-se com uma conversa com ele na feira do livro de Lisboa em 2002 e com a leitura integral do texto da peça e ainda do livro O Senhor Valéry (Caminho).
A sua poesia, bem cotada entre alguns intelectuais(?) reconhecidos na praça, nunca me fascinou... talvez por não me ter aproximado o suficiente, por pegar nos livros nas livrarias e os seus poemas me serem distantes - penso mea culpa, se tivesse levado para casa talvez gostasse. nunca o fiz... talvez o faça.
No romance Um Homem: Klaus Klump, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos a guerra e com ela parte de uma filosofia interior que resolveu expôr: contraditória, para tal servem as poucas personagens do romance.
«A bandeira de um país é um helicóptero: é necessário gasolina para manter a bandeira no ar; a bandeira não é de pano mas de metal: abana menos ao vento, frente à natureza.»
Desta forma se inicia o romance de 36 capítulos não regulares, constituídos por partes não identificadas: (conjuntos de) parágrafos distanciados por uma linha branca. Assim, o romance avança em passagens de acção e de invenção dos pensamentos sobre os homens, sobre a guerra, sobre o estado.
Esta guerra, num país, existe porque esse país sofre uma ocupação, é estabelecida uma resistência, sofre-se, chega o fim da guerra, chega o amorfo e a desilusão... tudo se mantém, apesar das transformações.
«Ninguém ama um cobarde e isto só significa que enquanto se ama não se consegue ver no outro a cobardia.»
A lógica do homem em guerra é atravessada pela lógica da matemática, da química, da física e até da arquitectura. Uma das vocações do autor é expressa deterministicamente no romance, representado momentos mais obscuros para uma leitura descontraída, mas quase sem abstracção.
«Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O?»
O autor não se confunde em momento algum, a continuidade é feita por quem lê. O texto partido, esses parágrafos isolados, deixa-nos acreditar num futuro... criar, enfim, a nossa história. Contudo, a conclusão não fica por mãos alheias: Gonçalo M. Tavares escreve-a e representa-a muito bem: indelével.
«A democracia instala-se no país como uma borracha que se vai derretendo lentamente até preencher por completo a superfície de um compartimento. (...) Não é um sistema político de material primário. É o fogo que a faz: à democracia.»
Sebastião está de volta. Salgado mostra-nos a poliomelite! O livro agora editado pela Caminho, que ainda não vi fisicamente, serve de meio para alertar para a existência da campanha mundial para o fim da poliomelite em 2005.

a colecção sons da Assírio já tem o número um nas livrarias. um duplo cd com leituras de Luís Miguel Cintra. lê Ruy Belo. no livro que resguarda os cd podem ler-se os poemas ditos. como tanta coisa neste país o custo é proibitivo. edição limitada a 2000 exemplares.
chamar Festa do Livro a uma iniciativa de pequena participação pode ser redutor.. ou uma maneira de promover a festa dos viciados! A Festa do Livro baseia-se, sobretudo, em alfarrabistas e livrarias... vamos a ver os preços praticados.
Onde e quando
Parque das Nações
Pavilhão 3 - 20 a 24 de Novembro
das 18 às 24 h - 5ª, 6ª e 2ª
das 10 às 24 h - Sábado e Domingo
Mais info, incluindo participantes, aqui!
a cavalo de ferro surpreendeu-me, ainda mais! o lançamento da obra gráfica completa da Paula Rego é, para mim, um choque! um desalento, por não a poder adquirir, por ter medo que se esgote. por ter a certeza de que não esgotará já!
ontem, ouvi na rádio o seu autor, T. G. ROSENTHAL, a dizer maravilhas da produção do livro - que é a tradução da Thames & Hudson -, de como se não perde qualidade da arte de Paula Rego por não se usar a fotografia... Folheei o livro ontem numa das grandes lojas... que faz 10% de desconto sobre uma peça que tem o valor base de 98euro.
Vale mesmo a pena adquirir este livro caso gostem do trabalho de Paula Rego. A série Nursery Rhimes, publicada pela relógio de água, está incluída neste trabalho... geeeezzzzzzz pelo menos toquei-lhe!! vou esperar pela feira do livro!! ainda vai haver!!! :)
a poesia vai acabar é uma antologia de poesia realizada por personagens da esfera dos blogs. sem critério específico para além do gosto pessoal, talvez dos poemas de que se gosta mais e que se relêem a cada dia, este livro electrónico foi organizado pela Janela Indiscreta, na pessoa da Cristina Fernandes, a quem agradeço todo o trabalho e o convite para participar.
o livro está disponível para download (568Kb) e é legível em Acrobat Reader.
primam na imagem com o botão direito do rato, gravem e distribuam. boa leitura.

com o regresso do Mil Folhas... o regresso dos amores novos. prendas que me quero dar..
«Poemas de Ruy Belo
apresentação e selecção de Luís Miguel Cintra
Assírio & Alvim
Recolhido num estúdio, em Julho passado, Luís Miguel Cintra gravou 25 poemas de Ruy Belo. O mais breve - "Para a dedicação de um homem", do livro de estreia, "Aquele Grande Rio Eufrates" - tem 44 segundos. O mais longo - "Nem sequer não", de "Toda a Terra" - leva 23 minutos e 58 segundos a dizer, oferecendo em cada verso desafios como estes: "Fel vil para meu mal bole no bule / valha-me folha o tempo da navalha / que isola uma ilha graças a uma agulha / onde uma vida velha nova rebrilha / e uma solidez sagaz sai de quanto se diz / Ó jardim dessa vida para mim perdida / em que o sapato de ourelo foi uma vez vê-lo / e sentir logo nulo todo o esforço de i-lo / dissociar desse pé que era e não é / num mundo que destruiu um mundo que o viu / pisar como ele só a terra que pisou / abaixo de uns olhos alvos e vagos vagamente magos / efémero momento do olhar / rapariga em espiga imponderável".
Luís Miguel Cintra convive com os poemas de Ruy Belo desde há muito, tem-nos como parte da sua vida - era estudante de liceu quando o poeta aparecia, quase diariamente, em visita a seu pai, Luís Filipe Lindley Cintra. Ao longo dos anos, disse alguns destes poemas em público, muitas vezes. Gravou uma antologia para a colecção de áudio-livros da Presença/Casa Fernando Pessoa nos anos 90. Mas não é só por esse registo estar esgotado que se justificava voltar a estúdio, com Ruy Belo. Agora a escolha é inteiramente de Luís Miguel Cintra. Abrange alguns dos poemas mais citados ("O portugal futuro", "Vat 69", "Muriel", "Morte ao meio dia"), mas não se fica por aí. Arrisca a respiração dos mais extensos (se não contarmos com "A Margem da Alegria", um livro-poema).
Ao longo dos 135 minutos de registo, toda a ênfase vem apenas das palavras serem o que são, nesse momento, na frase. A voz plana - rasa, grave. Como se tivesse descido o mais perto de onde o poema nasce e a voz começa.
O volume - a inaugurar a Colecção Sons da Assírio & Alvim - é fácil de manusear: os dois CD vêm numa bolsa que se desdobra no verso da capa.
Nesta colecção segue-se "A Margem da Alegria", que Luís Miguel Cintra gravará com actores da Cornucópia no fim de Novembro. O recital de lançamento será incluído no fecho da programação de Coimbra Capital Nacional da Cultura, a 20 de Dezembro.
A.L.C. »
Sábado, 25 de Outubro de 2003
fonte: Público
"a poesia vai acabar". Brevemente, disponível aqui, aqui (organização), aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
É uma evidência: há muitos poemas (e também poetas) na blogosfera. Talvez por isso resolvemos fazer uma pequena antologia. Não tem objectivos pedagógicos nem pretende ser mais do que isto: alguns poemas de que gostamos, sem qualquer justificação.
Pedimos a alguns blogers "amigos" que nos mostrassem os seus poemas preferidos e eles responderam com entusiasmo. Demos-lhes forma de livro, virtualidade electrónica e assim surgiu este livro.
Na blogosfera gosta-se de poesia, o que é bom. Este livro reflete apenas isso: o gosto e a partilha.
autores na internet... um assunto recorrente, mas desta vez mais directo: autores publicados (esta é a parte biased) presentes na virtualidade de la red e página com actualidade.
a ordem é a da memória:
Possidónio Cachapa - prosa(ficção), teatro
José Tolentino Mendonça - poesia
Pedro Mexia - poesia
Sandra Costa - poesia
Luís Ene - prosa(ficção)
Jorge Reis-Sá - poesia, prosa(ficção)
Valter Hugo Mãe - poesia
Fernando Esteves Pinto - prosa(ficção), poesia
Carlos Alberto Machado - teatro, poesia
José Mario Silva - poesia
Joel Neto - prosa(ficção)
Francisco José Viegas - prosa(ficção), poesia
Fernando Dinis - poesia (também por aqui)
Jorge Candeias - prosa(ficção)
Luís Filipe Silva - prosa(ficção)
Manuel Jorge Marmelo - prosa(ficção)
Paulo Moreiras - prosa(ficção)
Luís Carmelo - prosa(ficção)
António Manuel Venda - prosa(ficção)
Ágata Ramos - prosa(ficção)
António Nova - prosa(ficção), poesia
Frederico Lemos Cabral - poesia
Henrique Manuel Bento Fialho - poesia
não visito tod@s, apenas alguns... os meus gostos prevalecem.
querem juntar alguém ao directório ou corrigir? deixem a indicação nos comentários.
a primeira vez que se edita um livro sobre blogs com autoria portuguesa. o lançamento é hoje, no mercado da ribeira, lisboa, pelas 19h.

a feira do livro manuseado começou há mais de duas semanas. pretendi desconhecer a sua existência por motivos económicos. tendo assinalado unicamente o seu dia de fecho, dia 15 próximo, para ajuntamento no lançamento do livro sobre blogs do Paulo Querido e Luís Ene.
um acaso levou-me ontem á tarde para o O'Gilins O'Giglins (corrijam-me, nunca soube escrever o nome). a amena conversa sobre a cultura, as mentalidades, a arrogância e o mundo concluiu-se com um salto à Ribeira.
dos depojos a que cedi - outros deixei-os lá para núpcias futuras -, procurei poesia e tropecei nalguma prosa. aqui vão títulos e alguns porquês:
* os invisíveis, de Ana Paula Inácio, €2.5
porque descobri a poesia dela e quis sentir-lhe o pulso na prosa, temo que a poesia actual dela esteja a levedar... já li o livro durante o serão e gostei muito. as imagens são intensas; o quotidiano é real e não se reconhece nos textos quem não vive e não respira.
* as vinhas de meu pai, de Ana Paula Inácio, €1.5 (3 exemplares)
porque comprei um exemplar na FNAC a semana passada pelo mesmo preço que me custaram estes três: ficam para oferta
* a cobrição das filhas, de valter hugo mãe, €2.5
* três minutos antes de a maré encher, de valter hugo mãe, €2.5
porque o ano passado folheei a cobrição... e lembro-me de me ter agradado. comprei os dois para poder assumir com clareza uma opinião sobre alguma obra do poeta/editor da Quasi.
* a função do geógrafo, de Rui Coias, €2.5
porque é o único livro do autor e porque apareceu com trabalhos inéditos na última edição da Relâmpago dos quais gostei.
* manhã imensa, de Ruy Cinatti, €4
porque a preguiça é inimiga do conhecimento e em memória reconhecia neste nome Timor. li-o no serão gostei como a manhã!!!!
* viagem ao coração dos pássaros, de Possidónio Cachapa, €5
* shalom, de Possidónio Cachapa, €5
porque vim a adiar a sua compra e agora o preço imediatizou a acção. quero descobrir shalom e determinar o ponto médio da prosa editada e não antológica do autor.
nada mais, deixei Verlaine e Hatherly, autores que pretendo descobrir. se tivesse encontrado livros da Gótica talvez tivesse trazido mais qualquer coisa, ou ainda da Quasi, Avalanche do Pedro Mexia... mas não estavam por lá.
adquiri a versão limitada de The antidote/Antídoto, CD/Livro, dos Moonspell e de José Luís Peixoto, respectivamente. Esta versão é dirigida a quem gosta da música dos Moonspell e não a quem gosta e conhece os traços de Peixoto. Limitada a 2000 exemplares numerados, a versão oferece o livro, com as dimensões conhecidas das caixas de CD, em capa dura e com duas bolsas, quais badanas, uma com o CD e outra com o respectivo booklet. Tudo protegido por uma simples caixa de papel.
Excelente design e art work, onde o pecadilho único é a imagem que apresenta Antídoto (o livro) e que é um simples tratamento da capa da edição comum do livro (à dir.), que é uma imagem de imperceptível gosto... vão vê-lo às livrarias.
O CD contém a tradução para inglês do livro, por Robert Zenith, em versão multimédia e ainda o video de uma das faixas do álbum dos Moonspell, Everything Invaded.
E para quem não gosta da banda portuguesa, vão ver a capa do livro e tragam-no com vocês, apesar da capa! Gostei muito do livro, a prosa poética de Peixoto está viva, é reconhecível e encontra-se renovada! O livro comporta dez contos cujo tema comum é o medo... os dez contos acompanham os dez temas do álbum dos Moonspell, sucedendo-se num clima de permanente esperança... de permanente erro.
Durante a minha leitura, assisti ao encadeamento das personagens numa história em procura do antídoto para o medo. Peixoto renova-se na sua prosa poética por ter deixado cair as suas repetições imensas, permitindo uma acção mais contudente e liberta de amarras. As personagens surgem de encontro umas às outras, seguem juntas para um destino comum.
Em Antídoto olhamos novamente para o Sul, para a vida que roubamos ao Sul... o Sul, esse mundo de afecto sem afectos de montes abandonados no coração das suas gentes, de pedras e terra a que regressamos pelas próprias mãos.
No que diz respeito à música, não direi muito, gosto dos Moonspell pela sua força e pelas linhas de Fernando Ribeiro, letrista e vocalista. Considero este álbum melhor que o anterior... mas o meu olhar pode ser enviesado.

Será neste número que se atinge a maturidade? Talvez, pela primeira vez senti que a rebelião e a irreverência da revista é também a consciência de ter um público raro, conhecedor e atento.
Ao sexto número, a Periférica tem a capacidade de não me irritar, mostra-me novidades e alerta-me para o estado da minha ignorância, mas não me irrita nem me incomoda com a sua altivez desmedida.
Com textos bem escritos e, salvo raras excepções, com belíssimas ilustrações, a Periférica assume-se em editorial como uma revista literária, e ainda bem!
Surpresas: traduções inéditas realizadas por Nina e Filipe Guerra de um escritor russo, claro, desconhecido: Daniil Harms. Entrevista por mail a Tereza Coelho, da revista Os Meus Livros, sem possibilidade de rebate. Ilustrações de Jordin Isip e fotografia de Misha Gordin. E, ainda, entrevista com os mentores da editora Cavalo de Ferro.
Este número é obrigatório! Para quem queira saber mais, pode ver o índice aqui, desfolhá-la virtualmente aqui, assiná-la aqui.
li-o a semana passada. Contos de amor, loucura e morte, de Horácio Quiroga, é-nos apresentado numa tradução de Ana Santos e ilustrações de Joana Villaverde, para esta edição da Cavalo de Ferro.
Os contos são muito bons e revelam bem um humor entranhado e carregado de ironia. Variando nos três temas do título, o livro joga com os vários sentidos humanos e com a felicidade e infelicidade de gente, tão estranha como comum ao mundo onde estamos. A edição é muito cuidada, da qual saliento a tradução por textos muito claros, na sua maioria, e pelos desenhos sujos e escuros.
Interessante foi encontrar três, exactamente três pecados neste livro... 
o primeiro, irrelevante ou não compreensível, é o nome dum buque ser alterado no conto;
o segundo, desmancha-prazeres, é a posição de um desenho face ao conto que está a representar, esse desenho retrata o fim do conto, e está colocado numa página onde se depreende de modo fácil o que significa, estragando a surpresa;
finalmente, o terceiro é, na minha opinião, um erro grave para uma tão excelente tradução: no livro utilizam-se nomes e palavras indígenas, que não constam do meu dicionário e que me deixaram à toa, sugestão: notas de tradução com a descrição das palavras.
Em quinze contos, estes erros são ultrapassáveis, com uma nova revisão e paginação, a beleza dos textos de Quiroga são imperdíveis.
«Depois, inerte ao lado daquela mulher que já tinha conhecido o amor antes que ele chegasse, subiu do mais recôndito da alma de Nébel o santo orgulho da sua adolescência, de nunca ter tocado, de não ter roubado nem sequer um beijo à criatura que o olhava com radiante candura.», (p.27).
parece-me, cada vez mais, que qualquer pessoa que se queira arrogar de poeta, deveria ser calada no momento imediatamente antes de abrir a boca. afinal, se este país é considerado um país de poetas, é porque qualquer um atira umas palavras em verso e diz que ali está poesia.
a ignorância da poesia que o é, que vive realmente, neste país, é tão vasta quanto a maioria que olha a poesia e a nega... existe ainda uma minoria que a encara como uma estrutura díficil de compreender. nas suas diferentes vertentes, a poesia, hoje, faz descontinuar essas metafísicas essenciais ao espírito, partindo para momentos light. não sou um crítico, nem tenho para mim a experiência suficiente e o conhecimento claro da poesia portuguesa, mas sobre o que olhei, vi!
tenciono escrever sobre poesia e poetas, em breve, para já deixo apenas algo que guardo há muito dentro de mim...
compreendo que José Luís Peixoto tenha sido, por agora, arredado do grupo da poesia da sua geração: com dois livros oficiais publicados, o segundo deitou por terra qualquer esperança na sua integração*. na sua vontade de produção, de não querer deixar-se ficar só pela prosa, publicou em conjunto com o seu último romance, um livro de poemas A Casa, a Escuridão.
os poemas neste livro** têm formas demasiado fáceis e chegadas à prosa, dando de bandeja ao leitor o que pretende mostrar. tão simples em discurso e passíveis de corromper o próprio romance associado: existem poemas que revelam curiosidades mais cedo que o romance - tal acontece quando se faz uma acompanhamento das leituras -, como o sexo real duma das personagens do romance ser desvendado antes de o romance o anunciar.
José Luís Peixoto deveria ter guardado para si esta poesia, são momentos inerentes à escrita do romance, aceito tal, mas o seu conjunto é pobre e pouco trabalhado.
miradas convergentes foi o título de uma exposição conjunta de Manuel Alvarez Bravo, Henri Cartier-Bresson e Walker Evans, que teve lugar duas vezes na Cidade do México! A primeira vez, durante duas semanas, em 1935, na galeria Julien Levy. A segunda vez, no Museo del Palacio de Bellas Artes, entre 13 de Novembro de 2002 e 2 de Março último.
A exposição constou de fotografias obtidas entre 1927 e 1935, por estes três fotografos.
Na FNAC surge agora o livro que acompanha a exposição deste século, entitulado Mexico/New York!
... aplaudam! o vazio dos espíritos não faz o verão menos apetecível, porque muito bons são os espíritos que por aqui cavalgam...
escrevia eu... li dois livros: A Senhora dos Açores e Ontem, ambos publicados pela Cavalo de Ferro. este fim de semana quis comprar o primeiro, para oferecer, numa das FNAC lisboetas, mas não o encontrei... comprei o segundo! Afinal, já tinha lido ambos e serviam para os meus propósitos: agradar e dar a conhecer boa leitura. ... a editora Cavalo de Ferro é para mim motivo de colecção. a beleza e o cuidado das suas edições fez-me ter essa vontade, coleccionar as edições da editora até ao possível! sendo tudo menos rico, espero que a editora seja moderada... para que a minha vontade não seja atirada à frase: queres, mas não podes. já me basta o assassinato cultural de Lisboa em particular e do país em geral.
Eu raramente leio livros porque me dizem para ir ler os livros, nunca gostei dessa obrigatoriedade... Assim, o que vos direi aqui ou aquilo que escrevi antes é-vos tão útil quanto a vossa vontade o fará. 
A Senhora dos Açores, de Romana Petri, está escrito em forma pessoal, um acompanhar dos dias da escritora durante a sua estadia veraneante nos Açores. Uma estadia que começa com um limite - não estrito - de um mês e se estende ao correr dos dias e da dolência gerada pelos encantos das pessoas. A senhora dos Açores fala-nos de emigrantes e dos seus descendentes, de velhos e de novos, de mortos e de almas que nos podem saudar na estrada.
«"As pessoas têm medo de esquecer; eu, pelo contrário, aconselho que se viva mais o presente, que sejamos até um pouco ignorantes, não acredita?"», p.57.
Ontem, de Agota Kristof, outra mulher, revela-nos um argumento para um filme que só passaria nas salas de cinema de culto de Paulo Branco. A deslocação de pessoas por causa da guerra, por causa da política, por causa da pobreza... sendo este último facto um sinal que vive perto de nós e se afasta na emigração. O índice de emigração para fora de Portugal cresceu... e a culpa não é da imigração estrangeira! Os amores de infância e o sonho permanente, assemelhando-se a uma loucura presente e necessária para o próximo fôlego de vida.
«Vou cada vez com mais frequência ao café. Vou lá quase todas as noites. Travo conhecimento com os meus compatriotas. Estamos sentados a uma longa mesa. Uma rapariga do nosso país serve-nos de beber.», p.38.
Em breve outros comentários sobre livros da editora.
FREEDOM é um livro de fotografia da editora PHAIDON, que relata por imagens e algum texto, a luta dos afro-americanos pelo direito à igualdade.
Extracto da apresentação do livro:
«The struggle for equal rights involves small acts of personal bravery and sweeping proclamations of legal and moral import it is the stuff of economics, war, tradition, despair, politics, hope, activism, vigilance and violence. It engages black and white, heroes and the unheralded, public acts of protest and private moments of introspection.»
Depois da leitura de contos durante os dias da Feira do Livro de Lisboa, os AU presenteiam-nos com novas aventuras no universo do teatro contemporâneo.
Livrinhos de Teatro é uma colecção com selo dos Artistas Unidos! Os dois primeiros volumes têm lançamento durante o Festival de Almada e oferecem textos de Spiro Scimone e Antonio Onetti.
O primeiro volume reúne três peças de Scimone: Nunzio/ Café/ A Festa. As duas primeiras já representadas pelos AU e a terceira a estrear no Citemor, a 25 de Julho, estando assegurada a sua representação em Lisboa, no Teatro Taborda, pelo ínfimo espaço temporal que são os dias entre 4 de Setembro e 12 de Outubro.
O segundo volume, que tem o apoio do Instituto Cervantes, revela-nos Antonio Onetti, escritor andaluz, e é uma antologia das suas peças, incluindo A Rua do Inferno, que vai estar em representação durante o Festival de Almada, sob o nome original La Calle Del Infierno pela companhia ¡Valiente Plan!, a 11 e 12 de Julho, no Teatro Municipal Maria Matos.
No prelo está já o terceiro volume desta colecção, previsto para Outubro, com a peça San Diego de David Greig. A edição é de pequeno formato com valor único de €7 cada.
Com alguma felicidade, digo eu, nega a minha carteira, tive os últimos três dias no Parque Eduardo VII, em Lisboa, e, ainda hoje, irei até lá. Dos últimos dias guardo o prazer renovado dos breves encontros com o Possidónio Cachapa, de uma troca simpática de palavras com o Pedro Mexia, do matar saudades do José Luís Peixoto, do encontro permanente com amigos e com os Artistas Unidos.
A falida carteira queixa-se. Mas o meu contentamento não se compra.
Ontem, foi o lançamento oficial do novo livro do Possidónio, uma antologia de contos, que inclui o já esgotado o nylon da minha aldeia, da extinta colecção o homem do saco. O livro foi apresentado pelo editor (?) da ... errrr... Oficina do Livro, como Agarra-te ao meu peito em chamas, título original que foi alterado para Segura-te ao meu peito em chamas - parece-me a mim que a violência das chamas requeria um "agarra-te", mais do que um "segura-te".
A apresentação formal esteve a cargo de José Mário Silva, que teve excelente perspicácia na informação sobre o livro e, sinceramente, algum infortúnio na escolha do conto para expôr à plateia presente.
Um livro a descobrir.
Olhos de Cão, Daniel J. Skråmestø
Cruzei-me com o Daniel duas vezes. Não conheço o Daniel. É um estranho com quem me cruzei e com o qual simpatizo. A segunda vez que me cruzei com o Daniel foi na apresentação pública do seu primeiro livro, Olhos de Cão, das Publicações D. Quixote, que aconteceu na livraria Bulhosa, em Entrecampos, Lisboa.
Li o livro. O livro demonstra a cidade. Demonstra a cidade que se impregna e cresce em nós. Uma cidade. A cidade de cada um. A cidade de personagens tingidas pela afirmação simples de serem humanos: homens.
Temporalmente localizados entre 1997 e 1998 e escritos posteriormente, os textos que se encontram no livro, fazem de Lisboa o centro de mobilidade das personagens. Uma Lisboa comum, mas desconhecida de muitos: o Chiado, o Bairro Alto, a rua de S. Bento... nesta Lisboa, vamos encontrar os nossos personagens (re)conhecendo-se por sinais, por sentimentos... e, por partilha dos mesmos lugares físicos. Mas existe lugar às raízes de infância, a terra da avó. Existe o lugar à morte das razões que nos ligam às raízes... e que nos renovam.
Daniel J. Skråmestø é um autor nascido na geração da movida individualista, os grupos não existem! O que existe é uma comunhão de ideias que se interseccionam, mas nunca são aceites no seu todo pelos indivíduos que as partilham. Os personagens principais deste conjunto de textos são homossexuais. Libertam-se e comprometem-se com o tempo, mas sofrem encarcerados pela incompreensão dos outros... a falta de empatia... a falta de conclusão dos seus desejos... a incomunicabilidade, como referiu Eduardo Prado Coelho e confirmada pelo autor, na sessão de apresentação do livro.
A escrita de Daniel J. Skråmestø é simples e aberta, isto é, não esconde o que se pretende dizer nem faz rococós. Passa pela música de Jeff Buckley, a filosofia de Kant e Hegel e a semiótica de Omar Calabrese, sem que seja essencial conhecer o trabalho destes homens para sentir e mergulhar na história... na estória.
Talvez seja fácil não gostar desta estória. Se não houver pontos de contacto com a realidade da acção, dos sentimentos, da dor, etc. é possível que nos passem ao lado a acção, os sentimentos, a dor, etc.. A escrita fragmentada deixa o leitor respirar e imaginar um enredo maior do que o que é lido... Para isso é necessário que o leitor esteja preparado, predisposto a tal.
A escrita fragmentada deste livro vem mostrar que a nova escrita portuguesa está bem... existe em mim uma exacerbada vontade de dizer: não gosto de clássicos... mas isso pouco importa. O que importa é saber que me entendo com esta escrita perdida de sentimento, romântica... incompreendida.
---- deixo agora uma breve entrevista feita por mim a Daniel J. Skråmestø ----
josé manuel - a localização temporal 1997 e 1998, a importância do desenvolvimento individual e a idade do escritor, podem determinar os lugares e as ambiências? - é claro, que, neste caso, tendemos a reduzir a pessoas que viveram na área da grande Lx, ou viveram Lx...
daniel j. skråmestø - Claro que sim. O livro foi escrito na Noruega, e houve uma grande dose de saudosismo em evocar os dois anos imediatamente anteriores à minha mudança. Por isso me refiro à minha faculdade, ao Chiado e outros bairros que faziam parte do meu cenário de todos os dias. E depois a música, os ambientes são na sua grande maioria evocações de coisas vividas e sentidas.Quando eu estava a escrever isto não estava a pensar num público, estava mais ocupado em passar para o papel experiências pessoais. É muito egocêntrico, verdade seja dita, mas é verdade.
jm - a fragmentação poderá ter fundamento na formação (escolar) base do escritor? ou, em adição, a leitura poética do tempo: reduzido, fragmentado - que vivemos
nos percursos estudantis... ainda, a separação, que tantos adjectivaram de crucial, entre a família e o mundo?
djs - Não me parece que a fragmentação tenha a ver com a minha formação escolar, antes pelo contrário. Levou-me muito tempo a conseguir quebrar a noção de que tinha de escrever capítulos cada vez que me dispunha a escrever um livro (que houve tentativas anteriores). Foi preciso desligar-me disso e pensar que estava simplesmente a escrever coisas que me apetecia escrever para conseguir fazer com que nascesse um corpo de texto que depois cresceu o suficiente para se lhe poder chamar livro.
O tamanho dos fragmentos tem unicamente a ver com a minha capacidade de concentração que obviamente não é muito duradoura.
jm - o romantismo da fragmentação, o espaço deixado vazio para a história que não está escrita, cria, ou não, um lugar ao leitor?
djs - Claro que sim e essa é uma das coisas que mais me fascina em qualquer história, o que não se diz, o que é apenas sugerido. Além de que um livro deve ser também do leitor. Eu estou à espera que o leitor tenha imaginação para encher os buracos que eu deixo na história. (mas que bela desculpa isto também é para a minha perguiça)
jm - escreves poemas? não te exijo que denuncies se escreves poesia ou não... mas gostaria de saber da tua relação entre a prosa e a poesia enquanto escritor.
djs - Já escrevi alguns, nada ultimamente, mas algumas passagens de olhos de cão foram vampirizar alguns poemas que eu tinha guardados. O próprio nome "olhos de cão" surgiu pela primeira vez num poema. O Eduardo Prado Coelho que me desculpe, mas aquele pedaço de texto que ele leu na apresentação era o meu pequeno pastiche do Eugénio de Andrade [nota: referência ao texto "Na mente mantenho um lugar...", pág. 62]. Mais um dos numerosos clichés que eu propositadamente usei no livro :-) Mas esse como era algo mais erudito, provavelmente passa despercebido.
jm - consideras que a tua leitura "de livros grossos com capítulos grandes" te incapacitou/inibiu/estrangulou a escrita romanceada, volumosa, descritiva? ou, tão simplesmente, o tempo da tua vida é o espelho da tua fragmentada escrita... isto é, e extrapolando, existe uma compartimentação real, exigente, exigida(?) na tua vivência?
djs - fico-me pela resposta simples: Sim, para ambas as hipoteses.
a sombra de Mart, de Stig Dagerman
Esta peça de teatro, a terceira, segundo consta, de Stig Dagerman foi encenada pelo Teatro do Bairro Alto em 1999 e editada pela Cotovia em Julho do mesmo ano, numa edição de 1000 exemplares.
"A sombra de Mart" é uma peça em três actos, cada um com dois quadros, que se desenvolve em torno de Gabriel, um anti-herói. Como sempre, o medo é um dos principais temas abordados por Stig Dagerman, que neste caso nos vem inserir num espaço de pós-guerra. Após a retirada dos alemães de uma cidade sueca, Madame Angélica é uma senhora que ama o seu filho acima de todos as outras pessoas, o seu filho morto Martim, e Gabriel, também seu filho, é permanentemente comparado a Martim, vivendo sobre o jugo da repressão verbal. Teresa é a amante que Madame Angélica não se permite ser.
Uma peça sobre a ascensão e queda do anti-herói, onde nos é revelada a importância da cobardia e da coragem, e de como a coragem pode ser a imagem hipócrita que esconde a pura vontade de matar. De como o feio e fraco será sempre o inverso do forte e belo, na vida e na morte.
Uma história feita de gente real, com a qual Stig Dagerman fez mexer algumas regras da dramaturgia. A peça tem um desenvolvimento claro e rápido ao longo dos primeiros cinco quadros, onde toda a relação entre personagens é facilmente acompanhada pelos planos visuais dados pelo autor, contudo, o último quadro é um monólogo de 28 minutos (segundo as notas finais desta edição), o que veio inflamar os críticos da altura de estreia da peça, que realçaram a impossibilidade de ultrapassar génios dramaturgos que não compunham monólogos superiores a seis minutos.
A leitura deste livro é fácil, leve e perturbante pela sua intensidade. Uma injecção de repúdio pelo mundo miserável, que vemos mais uma vez aproximar-se da guerra por vontade própria, por uma coragem falível num persuposto: a vontade de matar!
publica-se hoje, no último Cartaz do jornal Expresso (online), listas de gostamos e não gostamos. afirma-se sem justificações nem porquês que se gosta e que não se gosta, fazendo tão só valorativas interpretações que noutras publicações gostaram, e quase se afirma "nós, que somos bons, não quisemos nem saber". na música temos listas de ódio, nos livros temos «... e relativas decepções»
segue o artigo assinado por Francisco Belard.
O sentido do que acima se disse [relativo ao artigo anterior em que se escreve sobre os autores mais admirados] acentua-se quando perguntamos aos críticos habituais do Expresso quais os livros de que menos gostaram. Não gostaram decerto dos que não chegaram a ler... E a referida diversidade de inclinações levou a escassas convergências nas rejeições. A grande celebração mediática de que foi objecto o ficcionista e poeta José Luís Peixoto não bastou para convencer todos os críticos ouvidos a integrá-lo nas suas listas (nem, em alguns casos, a lerem-no).
A biografia de Tolkien ressentiu-se da alta expectativa que um dos críticos nela pusera. Do recente romance de José Saramago houve quem não o considerasse dos melhores do autor. Em geral, a ficção portuguesa do ano passado não parece ter impressionado muito os críticos que se esforçaram por acompanhá-la (e não foram todos). Injustiça? Talvez. Na política de autores, como na política «tout court», as eleições não são um critério de verdade, mas de legitimidade. Sem falar na forte concorrência que a ficção estrangeira exerceu sobre parte dos críticos, sem todavia impedir que também Tolstoi, Naipaul, Rushdie ou Vikran Seth tenham ficado na sombra...
após o artigo passa-se à lista:
NÃO GOSTÁMOS
A Casa, a Escuridão, de José Luís Peixoto
Tolkien - O Homem e o Mito, de Joseph Pearce
Pois bem, JLP publicou dois livros em 2002, para além de contos e crónicas espalhados por várias publicações. O livro mencionado na listinha é o livro de poesia associado ao romance Uma Casa na Escuridão. Arrependo-me de não ter realizado um artigo, aqui no Rain Song, sobre esse livro, de não ter dito antes a minha opinião sobre o livro. Hei-de fazê-lo em breve.
O que me aborrece com a notícia do Expresso é o minimalismo como trataram esta informação. Como levam rapidamente alguém que desconhece José Luís Peixoto a nem sequer se aproximar. Quando se fala na literatura portuguesa e se pensa em mercado, tendencialmente, diz-se e fazem-se correr rios de tinta sobre as poucas vendas, que os escritores não têm meios de sobrevivência próprios, etc.. Quando um escritor com a qualidade de JLP goza dum estatuto mediático comparável ao da inqualificável Pinto pink, os principais mediadores da informação fazem questão de pisar e repisar e fazer acreditar que nem vale a pena o esforço de ler um sequer texto...
JLP é preso por ter cão! Deixo aos senhores do Expresso o desejo de que o cão do JLP lhes defeque à frente!
li recentemente uma intervenção do Jorge Silva Melo, de 11 de Novembro de 2000, entitulada «"DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA" JÁ FIZERAM FILHOS»; um manifesto de 15 páginas onde se concentra o pensamento na realidade cultural de um país sem rumo, que se não desafia e não sabe.
escreve JSM «Nestes últimos cinco anos saímos da "direita mais bronca do mundo" [...] como os seus Santanas [...] não direi para a "esquerda mais inteligente do mundo" mas pelo menos para a Bárbara Guimarães». Soubesse JSM quão horríveis iriam ser os dias de 2002 e teria, provavelmente, escrito qualquer coisa como: «E há-de voltar o bronco e destruir por todos os meios a vida cultural que construí», como se estivesse escrevendo um livro do apocalipse.
não acredito que JSM escrevesse isto, mesmo que o pudesse adivinhar, apenas e só, porque a vida cultural dinamizada n'A Capital deixou vontades, ainda acordadas.
entretanto, ainda na missiva que referi, JSM reinvidica para a cultura e para os elementos vivos da mesma (todos os que dela participam, criadores ou fruidores) a existência da dúvida, a dúvida permite pensar e questionar "as coisas". (este é um tema que me é especialmente querido.) escreve ele: «O que é a cultura precisamente a não ser a dúvida?»
JSM coloca também a seguinte premissa em análise: «A cultura é uma nova fé. E começa a mover tantos interesses económicos como noutros tempos mais singelos a religião moveu.» e antes tinha escrito que «Não se discute a cultura como não se discute Deus.»
a estagnação cultural portuguesa não existe, digo eu, o que existe é uma limpeza de qualquer vestigío cultural que possa "poluir". não temos lugar a uma relatividade mental e corpórea própria, sendo mais extensamente propangandeada a cultura do nulo e do seguidismo.
em substituição plena do tríptico salazarista, JSM oferece-nos «Cultura, Europa, Lusofonia», num gesto de ironia e para não ser mais rude do que já é considerado.............
-- a edição deste manifesto é da responsbilidade da Abril em Maio --
(this won't be continued)
uma casa na escuridão, de José Luís Peixoto
No seu segundo romance, José Luís Peixoto, não nos deixa espaço para a esperança. Não existe esperança no mundo criado dentro deste livro. Uma Casa na Escuridão leva-nos numa viagem onde o amor, o medo, o horror e a morte são governantes do mundo. Em consciência assumo que vivi a fantasia do livro no momento imdeiatamente antes da escuridão: entre a eventualidade de lhe escapar e a certeza de lhe pertencer.
Não existe neste romance a dolência vivida em Nenhum Olhar, onde as paisagens se reflectiam perenes na imagem do romance; agora, a acção ocorre tanto no interior das personagens como na superfície das suas peles. A acção é marcada pelo horror. José Luís Peixoto não quis que sorrissemos ou que sonhassemos um possível sorriso, exige a cada palavra o medo: o medo que temos do mundo que se aproxima e abala o que consideramos ter como certo e garantido, exige-nos ainda a uma reflexão sobre o amor, o amor verdadeiro que temos ou ansiamos ter ou perdemos num instante absurdo.
Em Uma Casa na Escuridão existe um narrador: o escritor. O escritor descreve-nos pouco mais de um ano da sua existência, um ano passado no mundo mutante e que é pertença do mais forte, sendo o mais forte o vencedor natural. O escritor pode ser José Luís Peixoto vivendo, em parte, uma fantasia interpretativa das consequências geradas pela publicação de Nenhum Olhar. O escritor guia-nos por um trilho de conhecimento do amor, da sua impossibilidade e da dor que pode provocar.
José Luís Peixoto não nos concede tempo para respirar. Utiliza com maior frequência frases curtas e incisivas. A acção corre desesperada. No entanto, com destreza, revela-nos o percurso de distâncias físicas calmamente, quase em câmara lenta, quando antes nos fez ansiar por já estarmos no local no momento em que as personagens chegam.
A poesia de Uma Casa na Escuridão é atroz, de sofrimento continuado e exerce uma carga de tristeza imensa. Ainda assim, foram publicados poemas relacionados com este romance num corpo à parte, entitulado A Casa, a Escuridão.
A beleza da escrita de José Luís Peixoto desenvolve-se e cativa. A beleza deste livro merece uma transcrição cinematográfica, talvez Alejandro Amenábar leia e goste.
prometeu - rascunhos, de Jorge Silva Melo
rapaz das obras - Mas porque é que estão tão tristes... a mim disseram-me que era uma festa, falaram-me da liberdade, falaram-me do fogo, de roubar o fogo aos deuses... não estou a perceber...
Este livro é um poema feito teatro. Continuamente, um poema dividido em cenas e espectáculos em si mesmos suportados.
Os textos neste livro estão em tensão/diálogo com o leitor/espectador. Responde, o livro, mais cedo do que se pensaria, ao leitor, sabendo nós que o livro não reflecte nem improvisa um momento diferente daquele em que foi concebido - talvez esteja a fechar a escrita ao escritor... mas ao leitor cabe tão só a gigante reinterpretação dos momentos.
Jorge Silva Melo, dramaturgo, encenador, escritor, artista, está triste, para além de descontente e insatisfeito, está triste com o mundo dos deuses que não existem - mas mostram e demonstram poder, subjugando todos os mortais (ignorantes, saudavelmente felizes). Nos momentos cruciais, em que o melhor pareceu possível, o poder e ânsia por ele, fez sucumbir homens e mulheres às mãos dos deuses - mortos pelos homens e mulheres.
Jorge Silva Melo revela-nos a sua aspereza perante uma sociedade que vive de derrotas consecutivas sem se aperceber delas, permanecendo em ignorância e atravessando os tempos num contínuo de festejos de momentos significativos mas sem geração de frutos maduros, pelo contrário: atrofiados por degeneração de ideais e transformações convenientes das ideias.
Este livro deixa em aberto a esperança de um teatro que pensa em conjunto com a sociedade.
a água que bebemos
a água que é o nosso corpo
é merda que nos mata
dia a dia nos mata
o mundo existe agora, catálogo de colectiva de fotografia com textos de José Luís Peixoto
José Luís Peixoto é um escritor que gosta de ir deixando os seus textos ao alcance de todos, mas sem compromissos ou locais certos.
A 23 de Julho inaugurou-se uma colectiva de fotografia no bar/restaurante Agito, no Bairro Alto - Lisboa, composta por doze fotografias de viajantes portugueses perdido noutros sítios do planeta Terra. As fotografias são individualmente acompanhadas por textos originais escritos por José Luís Peixoto, existe ainda um décimo-terceiro texto que introduz a exposição ao visitante.
Textos e fotografias foram reunidos num catálogo muito simples e sem pretensões nenhumas, mas, que na impossibilidade de carregar as fotos para casa e os acetatos expostos com os textos, foi oferecido aos visitantes do Agito para lerem com mais atenção e mirar as repoduções das fotografias com menos detalhe mas com mais tempo.

Raparigas. Região de Katmandu, Nepal. Apanhar lenha depois da escola. Foto de Carlos Silva
Nenhum Olhar, de José Luís Peixoto
Este é o livro que lançou José Luís Peixoto em definitivo na literatura portuguesa e no mercado do livro. Ganhou o prémio José Saramago e já foi traduzido em várias línguas. Este é o livro que por uma ou outra razão descreve parte da história real de muitos e de um imaginário surreal de outros. O autor reúne os dois factores: a realidade de muitas vidas alentejanas e o surrealismo que se desprende das vidas que se viveram/vivem em determinados locais do Alentejo.
É importante, julgo, ter a certeza de que falamos do Alentejo. Neste livro conta-se a história de algumas vidas num lugar todo ele feito o mundo inteiro. Neste livro, muitos que o lêem reconhecem traços da sua vida e da sua aldeia de origem: existe um velho muito velho, que resiste a tudo e sobrevive a todos: existe a prostituta da terra, que necessariamente tem alguma deficiência que a impede de realizar o trabalho normal das gentes: existe o desgraçado, que por muito avisado que seja acaba sempre por ir ao local errado: existe a religião católica - invocada por uma figura que bem espelha o seu significado em terras do sol que arde -, que desequilibra as relações sociais: existem os cães e as ovelhas e o sol: muito sol: muito muito quente. José Luís Peixoto retrata-nos o Alentejo povoado da gente pobre, cuja única riqueza - a vida - é destruída por, talvez, alí terem nascido ou permanecido.
O autor escreve o livro numa belíssima prosa poética, com construções visuais excepcionais e repetições voluntárias como que nos obrigando a sentir a dor do tempo/sol infligida na pele.
foi realizada uma edição de autor de 25 exemplares do texto amor às vezes, ao qual se juntou o poema o mergulho. a edição começou a ser distribuída no passado sábado, dia em que se realizou uma sessão especial de leituras no habitual espaço do Teatro Estrela Hall.

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago
No outro dia, ao preparar-me para as leituras cruzei-me com um livro que ainda não tinha lido. Mirei-o: ainda não li isto!, disse para comigo. Agora, que já o li perco-me um pouco nos desenhos que acompanham o texto: 4 desenhos sem título de Pedro Cabrita Reis, onde se parece mostrar uma caravela. Sinto-me um pouco perdido nesta imagens, e talvez seja essa a intenção... o texto que li ajudou... mas o meu gosto imediato diz-me que eu não gosto dos desenhos.
O texto rola leve durante 28 páginas nesta edição da assírio & alvim de 1997, integrada nos Cadernos do Pavilhão de Portugal - Expo'98.
José Saramago, carinhoso e gentil, coloca-nos frente a uma personagem que pretende encontrar a ilha do título do livro no tempo em que todas as ilhas são já conhecidas. Num misto de viver onírico e real, transporta-nos pelo sentido do cumprir as decisões tomadas e pelo amor que se toma durante esse caminho de edificar o sonho. Da realidade mostra-nos as pessoas: o que elas são e sentem, do sonho mostra-nos as imagens: o que elas revelam e escondem.
Simples e sem rodeios, o autor deixa a ideia quase certa da ilha desconhecida que cada um de nós é, à procura ensimesmados.
O sr Valéry é um senhor muito bem comportado, pois está bem claro que sim!
O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares
Li o livro duas vezes, e vou lê-lo outra vez: quero ter a certeza de que o entendi. O Senhor Valéry não tem validade associada. O Senhor Valéry foi vendido na banca infanto-juvenil da Caminho, na feira do livro. O Senhor Valéry é para todos.
O livro compreende 25 histórias sobre um tal senhor Valéry, que gosta de desenhar o sentido das suas palavras. Essas histórias ensinam a lógica simples e demonstram o raciocínio absurdo que essa lógica pode causar. Com um texto muito bem estruturado e simples - excepto na parte de alguns confundirem a mulher com o chapéu -, Gonçalo M. Tavares surpreende pela irreverência que caracteriza os discursos do sr. Valéry ao longo das 25 passagens.
As histórias foram desenvolvidas com coerência parcial relativamente à personagem, algumas das histórias têm conteúdos antagónicos, o que não prejudica o objectivo criativo de educar: o livro apresenta-se em 25 passagens que, utilizando a mesmo personagem, abordam 25 situações diferentes da vida comum. Todas estas situações permitem uma reflexão adulta ou uma visão infantil do mundo, o que abre as portas a um público vasto e merecedor da escrita deste novo autor.
Seria uma pena se O Senhor Valéry tivesse apenas 4 leitores - ainda que fossem grandes leitores.
em 1969, Alberto R. Pidwell Tavares, funda, em Bruxelas, com amigos (artistas plásticos, escritores, fotógrafos, etc.) a associação internacional Montfaucon Research Center.
é dentro do processo criativo da associação que surge PROJETS 69 de Alberto Tavares. Al Berto, desenha projectos de instalações artísticas de pendor surrealista e pop. com a utilização de várias técnicas, os projectos são construídos com um humor característico e incisivo, e fazem-nos imaginar o potencial criativo de Al Berto, no desenho, pintura e imagem, se tivesse seguido por estas áreas com mais regularidade (o autor abandonou a pintura em 1971).
são estes PROJETS 69 que a assírio & alvim nos dá a conhecer no livro agora publicado PROJECTOS 69, com uma apresentação entusiasmante de Alexandre Melo, sobre The House que Al Berto nos abre com estes projectos, que são vida da sua vida.
este livro teve uma primeira edição fac-similada por Montfaucon Research Center e considero-o um fantástico objecto enquanto divulgador de arte e ideias de arte a construir. mas lê-se?, ouvi perguntar. sim, lê-se as descrições dos projectos, que demonstram a originalidade de Al Berto, sobejamente conhecida.
os originais dos desenhos foram oferecidos pelo autor à associação abraço, que conjuntamente com a actual editora do autor, faz acompanhar a edição do livro da exposição PROJECTOS 69.

O Mar Por Cima, de Possidónio Cachapa
não podemos sempre encontrar o melhor de tudo dentro dum só frasco de geleia de marmelo, porque o sorrir da criança gulosa com os lábios sujos não está lá dentro. assim, e com esta ideia penso conseguir admitir que O Mar Por Cima tem tudo, o bom e o mau da vida, mas permite não encerrar em si mesmo a satisfação que eu, leitor, guardarei sempre.
entre ilhéus açoreanos e continentais da capital, Possidónio Cachapa, faz correr histórias que são uma só, porque o ser humano tem um só destino, metamorfoseado em inúmeros corações diferentes. tal como em A Materna Doçura, o autor, anseia mostrar o amor que falta compreender, que se entende e existe, mas se extingue em comportamentos sociais enclausurados e claustrofóbicos.
todo o comum sentimento é descrito com o pormenor da dor sentida quando se recebe um murro no estômago. e essa descrição é tão real que o comum e o banal, afinal, são coisas que desconhecíamos por ganharem sentido no momento exacto da leitura e, por isso, não são comuns nem banais, como as camélias de cheiro doce caindo no chão com a brisa suave do mar. entre mulheres e homens, entre ter, imaginar que se pode ter e não ter nada a não ser a vida, Possidónio Cachapa, entrelaça factos e verdades que só a cada um de nós, leitores, diz respeito. a vida, que é de outros por acaso, é exposta com pormenores silenciosos ou silenciados pelo marulhar permanente das águas frescas do Atlântico.
neste livro a dor oferece-se e o júbilo de qualquer certeza, excepto a morte, é irreal. todas as histórias têm o mesmo fim, mas isso sempre se soube e sabe. mas enquanto a certeza não arriba, tanto o amor como a consciência de estarmos vivos vão crescendo e humilhando as personagens nas certezas sem justificação. o autor é meigo no seu escrever, surpreende o rematar de sentimentos elaborados em espiral cujo centro faz explodir nas têmporas verdades que se não cruzam sempre connosco diariamente, mas fazem furor em sinais do tempo de hoje, cinzento nas cidades ou azul e verde nas ilhas.
o autor tem a capacidade de explorar os problemas sociais de uma forma muito boa, quase usando a subjectividade para alcançar, como um polvo, o mundo inteiro que sabe, e não se esquece, da vida de todos os dias. esse mundo inteiro, que só por querer se enterra em esquecimentos e drogas legalizadas que lhe permitam o afastar do mundo, ao qual pensa não pertencer, todos os dias, depois do trabalho e dos sovacos nos transportes.
o livro, uma edição de Maio de 2002 da oficina do livro, quer sonhar connosco um destino único de esperança no amor.
A Criança em Ruínas, de José Luís Peixoto
o livro guarda uma nota de esperança que sugere que os versos de "A Criança em Ruínas" falem daqueles mistérios que só a poesia pode dizer. esta nota espelha uma verdade subjectiva e imprópria para consumo por uma massa inconstante nas suas opiniões e reacções. o livro é da quasi edições, já em terceira edição.
mas o que se entende deste livro de poesia, com versos soltos e menos soltos em visualmente informes poemas? deste livro, entendo eu, sinais de vida própria e comum ao sujo humano que se espoja no tempo do relógio e das correrias dos humanos nas ruas das cidades escuras. os versos roçam a realidade da morte, do amor da vida, da não vida.. do estar estando e do estar sem permanecer... ficando absorto pela paixão de quem ama um filho nascido do ventre de quem se mais quer.
os versos constroem poemas simples, sem um etéreo demasiado brilhante mas sempre com a descrição da realidade de quem se quer livrar de destinos traçados por felicidades sem sorrisos. e, talvez por isto, o autor interaja com Álvaro de Campos num poema construído sobre o destino anunciado em "a tabacaria", "a primavera chegou antes do tempo a esta sala" revela pormenores crús de quem admite ser. outros exemplos haverá a descobrir em poemas em que o sangue escorre pelo corpo, em que a luz ilumina o amor, em qua a solidão nos faz desejar estar menos sós ou, ainda, em que uma flôr deixa de o ser para que se diga um nome.
"A Criança em Ruínas" é um livro pequeno, lê-se devagar, lê-se muitas vezes e repete-se, a seguir, a vontade de reler.
A Materna Doçura, de Possidónio Cachapa
o nome deste escritor português é dificilmente esquecido depois de ouvido e a sua escrita lida, ou facilmente obliterado de qualquer memória de pendor light a la Pinto pink.
aprendi o nome dele num momento importante para mim. apreendi a sua escrita há menos de uma semana útil. como anteriormente escrevi, é autor de quatro livros (e outras coisas ao que parece...), sendo um deles teatro, três publicados na assírio & alvim e o quarto na oficina do livro.
só li um, o que o fez criar na crítica a vontade de ter Cachapa publicado em papel físico, intenso no cheiro que há-de ter e nas formas possíveis de criar, A Materna Doçura. só sobre este falo, só sobre o pouco que reconheço num aperto de mão e um sorriso poderei esclarecer.
Possidónio sorri com sinceridade um sorriso companheiro e de esperança num horizonte diferente. Cachapa aperta a mão como se fosse um quase conhecido de alguém que pressente uma vontade de chegar ali! e a verticalidade não existe, o que existe é um plano só onde se caminha em direcções múltiplas com lugares destinados e entre si alcansáveis com a vista.
A Materna Doçura é um romance. descreve, Cachapa, amores e desamores, vidas a construir-se e a descontruir-se, pois esse é o processo explícito de quase todas as vidas, excepto duas ou três que explodem na destruição do mundo tal como ele era julgado existir. o romance não fala de festas com classe nem de brincos de princesa pink. fala de brilhos nos olhos, como se fossem as vidas ansiadas e jamais atingíveis, fala de amores do tamanho da Lua. amores de filhos pelas mães (as de sangue e as de ser), dos amores das mães de sangue e das de ser pelos filhos, dos amores dos pais de ser e dos de sangue pelos filhos, e dos amores da carne entre mães e filhos, num cinema de arte pornográfica sem close ups.
a mim pouco me interessa o mundo cego que roda em volta. como disse o autor, numa entrevista televisionada, com a presença da Pinto pink, o seu "público alvo não é o mesmo do da Margarida."
criar ideias... misturar ideias... fazer ideias... acreditar nas ideias.
muitas vezes tenho algumas dúvidas quanto à escrita e ao revelar que a escrita existe e que vale a pena. não que eu queira esconder o que quer que seja, mas apenas por considerar que muitas pessoas não se interessam e acabam por bocejar durante uma revolução.
Jack Kerouac escreveu em 1944, Orpheus Emerged, quando pensava que o nome a figurar nos livros deveria ser John Kerouac, não tinha ainda 22 anos. O primeiro livro de Kerouac foi colocado à venda em 2000(1?) na forma de e-book e no passado mês de Março em papel.
A empresa LiveREADS disponibilizou a introdução e o primeiro capítulo em formato pdf. Caso queiram ler esta amostra primam aqui, se o quiserem ler todo: podem comprá-lo online ou na FNAC, em papel.
estou a lê-lo. farei uma breve análise posteriormente.
tenho, no silêncio, a certeza de que os homens bons sobrevivem às intempéries da mente dos homens e das mulheres e dos corpos deles em conjuntos dionisíacos. porque são bons os homens que por aí vivem e por aí morrem... e por aí se retiveram tempo suficiente para se esquecerem e serem esquecidos.
o projecto wordsong junta a samples e música de bateria electrónica e baixo e guitarra e teclas, a maravilhosa poemática de Al Berto. numa edição da 101 noites onde se inclui um livro e o disco compacto com 15 canções com a voz brilhante de Pedro d'Orey, que é mentor deste projecto com Alexandre Cortês e Nuno Grácio. à venda numa boa livraria! (a FNAC tem...)