guardo o cheiro da chuva num frasco amarelo com tampa branca de rosca.
abro-o sempre que o calor chega demasiado cedo.
pelo que vejo, já nunca chega demasiado cedo. pelo que sinto, o calendário não tem importância para as condições climatéricas.
será difícil recuperar o cheiro da chuva, agora. a canícula é o tempo deste território em que habito.
só nos corpos poderei encontrar abrigo. mas são tantos os que têm sede.
sou um homem contente. rio e desfaço-me perante os contornos das pessoas. aborrecem-me os poleiros nas orelhas das mulheres. sorrio a sorrisos. digo bom dia ou boa tarde. enfio os olhos pelos decotes quando existem decotes. sou um homem contente. as gentes à minha volta são felizes. é o futebol que lhes traz a flama da juventude que não tiveram. o futebol salva-as da uniformidade dos dias. pesam-lhes os governos, mas só gritam ao futebol. não têm dinheiro, mas os dias mais felizes são quando o futebol ganha. fosse eu a foda dessas gentes e mandava-os passear ao largo. melhor, em mar alto. sou um homem contente com a vida. dá-me graça ver as gentes assim felizes. ou assim tristes de felicidade.
se não houver lugar no fim da estrada, deixar-me-ão passar mais tempo a olhar o vazio do que foi a estrada até lá?
tu nunca arriscaste um único momento da tua insegurança. tu nunca soubeste o que foi a morte tocar-te nas unhas dos pés e fugir.
se não puder chegar lá, não me arrastem por nenhum motivo. mais hão-de vir para me usar como chão.
a morte, a minha, aquela que não adivinho, a ser por meu gosto, seria num canto escuro. não tem que ser um canto em esquadria. não precisa ser na cidade. mas pode ser à sombra. onde eu encoste calmo para sempre. a morte, essa que virá no momento certo para ela, que me abrace gentil como aqueles que me não magoam.
talvez, sob um silvado. para que me não encontrem pessoas e a natureza possa reconstruir-me com os seus enleios fortes.
i'm afraid i don't care about it
no more
sad
entrou no quarto e pensou no odor intenso que o quarto transmitia. sentiu o cheiro na pele e sentou-se aos pés da cama. olhou em volta e ouviu os ruídos do trânsito da aldeia. passou uma Zundap. e uma porca a caminho da cobrição.
viu-se no espelho e pensou que deveria ser diferente. afastou o olhar para a cadeira onde tinha disposto a sua roupa de uma forma convencional. ou pelo menos da forma que tinha aprendido na infância.
entretanto, passou uma Famel e uma carroça puxada por um macho. ouvia os passos corridos de um rebanho que voltava para o curral.
despiu-se, espalhando a roupa pelo chão. atirou-se para a cama e apreciou o tecto. as teias e os aranhiços nos cantos. teria que em breve tratar da limpeza do quarto da aldeia.
enquanto não sei o que tenho respirado. vejo. o morto à espera do autocarro. entro no autocarro e sufoco. sento-me. o morto ao meu lado diz «bom dia! então?» expiro fainalmente o mau cheiro das entranhas. respondo-lhe «então, é mais um dia. amanhã lhe digo se foi bom». «amanhã? não. vou para o enterro».
os monstros encontraram-se à esquina. foram felizes.
a malta aqui somos sete ou oito. uma matilha gira. que não me inclui nem me exclui. quando chegam estranhos não participo na guerra. afasto-me.
abuso da pontuação. do meu aspecto indefectível.
isto é tudo tão mau. prefiro a janela. cá de cima vê-se. não lhes grito. não me gritam. gosto da minha matilha. tantas vezes incómoda.
são-me simpáticos na rua. transeuntes do meu tempo. como eu. partilham a chuva e o sol. mas a sua tristeza vejo-a e é diferente da que sinto.
são felizes.
entre zeros e acostumados vizinhos de primeira apanha, encontro um toro em chamas. dos zeros pouco sei e dos outros ignoro qualquer informação. o toro é do corpo do azinho que se suicidou ao fundo do pousio. e as chamas nasceram de um fósforo, alimentadas por carumas e acendalhas ecológicas.
faz frio.
quem vai ser o teu amigo
de costas para o mundo
contigo ao peito?
foram as mil e trezentas imagens do sonho que tiveste que se realizaram na tua ideia de mil e trezentos e um amigos?
um dos teus amigos virá para te abraçar e mil serão apenas teus fantasmas prisioneiros. os outros trezentos ficarão no anonimato. nunca saberás quem são e eles não te conhecem.
estivemos completamente sós. sempre à espera. ou sempre acompanhados por gente só. que nos permite apenas estarmos com a distância infinita da sua sobriedade.
ébrios. dentro e fora. num abraço de braços ou pernas. ligados por um ponto. em baixo. em cima. dentro e fora. ébrios da intensidade. sóbrios. sempre. no conhecimento do tempo e da extinção do compromisso moral.
imoral. em termos da verdade comum. amoral. toda a minha relação com essa realidade. estabelecendo laços frescos com a excitação forte. necessidade exigida à carne.
enquanto olho o céu. espero a chuva. vejo o azul. cinzento. o multicolorido de três ou quatro cores. e uma dor de cabeça quase permanente. não fossem os lábios frescos. veludo.
um olhar sobre a cor amarelo-manteiga da flor. uma flor. nunca a flor. a flor não está nem estará. escorrego pela sua cor adentro e esqueço-me.
de tudo o que existe, o que não existe parece ter melhor aspecto. mais atraente. lá por não existir, não significa que não seja real. note-se que o que não é palpável diverge da ficção. o que não existe é, aqui e agora, o que não é verdade se eu afirmar que existe.
mas parece-me atraente na mesma.
se não tiver sido hoje, poderá ter sido anos atrás. então existia. hoje, não. quanto ao amanhã, seria descabido estar a iniciar um processo de resoluções concretas quanto ao meu destino. este meu destino que inclui os minutos por onde ando - às vezes corro.
o passado é atraente. o presente é atraente. o futuro é uma incógnita. uma inequação, que revelará, os momentos certos da sua solução. nessa altura poderei defini-lo, ao futuro, como atraente. será passado ou presente, abrindo caminho a outro futuro.
já não chove. e quando chover vão chamar-lhe dilúvio. e virá o sr. padre anunciar os males do demo. e virá o sr. agricultor exigir a calamidade para o bolso. já não chove. salobre. intragável juventude que não conhece o deserto. estúpido. eu. ignorante da poesia. do deserto. e da porra poética. puta ólinda rainha dos reinos de aquém. no além é já depois. já não chove.
registo fino. linhas de cleópatra rodeiam os olhos. registo fino de traços sensuais. escondo a força do tempo sob a cor negra.
lady la la lady la la lady
lady butterfly
fly
let your dust colours be spread on me
la la la lady la la lady
lady fairy
comb your hair with my fingers
registo no teu corpo a segurança do conhecimento passado.
o corpo. escrevo o corpo e fico limitado ao universo possível da desconstrução anatómica. uma perna. a barriga. uma barriga da perna. uma coxa. mas se o corpo morre o todo morre. as partes morrem. se de manhã vir o teu olho branco e um sorriso nos lábios que hei-de pensar? quantas horas passaram após a última inspiração?
vejo a lua emagrecer. o espelho de luz ofusca-me os quase nenhuns pensamentos. minguam na mesma medida da lua. negros. cada vez mais.
da incerteza, da partilha do corpo... existe o bocado em que nos esquecemos da mortalidade. o bocado - termo grosseiro - é o peso físico da carne. como um conjunto de músculos que seguramos durante o sexo. envolvemo-nos no corpo de estranhos que ansiamos encontrar num momento. um momento perdido. no momento perdido da noite. um qualquer corpo que se afunda em nós como nós nele. a vida na morte. que resiste latente até se manifestar vitoriosa sobre o pensamento.
a águia levantou em direcção ao satélite, o terceiro artificial, colocado a rodar em volta das minhas orelhas. sinto um pouco a vertigem do desequilíbrio, mas aguento a pressão que me fazes com a língua sobre o temporal.
sinto-me bem. olho-te e sinto-me bem. olho-te e não és tu. uma imagem de alguém. do vazio. uma sombra. descubro. olho-te no olho enquanto me equilibras com uma mão agarrando o meu sexo. e me pressionas com a língua.
nunca estiveste aqui. lembro-me perfeitamente. nunca te vi. acredito que não me esqueci. as recordações dos baús são lembradas. não me esqueci de ti. tu não existes. não te poderei esquecer. no futuro tenho saudades de ti.
voltaste. obrigado. vai-te embora, se fazes favor. voltaste por ti. não voltes mais aqui. obrigado. adeus. já foste? não respondas se sim.
os meus pequenos mistérios escondem-se nas rugas. quais rugas? sem velhice. o que tens são dores de hipocondríaco. vai ao médico curar-te. ou à senhora das mezinhas. a velha de cabelo branco e barba de jovem moço.
do centro da terra vem um rugido. diz: AIIIIIII! das dores da terra sofrem os animaizinhos.
do breve para o curto em cinco minutos de um desenrolar de um novelo de dez metros. lá escrevia-se a tua vida. uma interrupção enquanto se escrevia a tua vida. e morreste. assassinato? suícidio, não. nunca abandonaste o analfabetismo inato.
se entre um e outro o teu tempo nunca foi comum nem ao um nem ao outro, também nunca expressaste que tinhas o teu próprio lugar. arrumaste-o numa caixa de sapatos, a mesma que continha os cromos da série banner e flappi.
trocamos nomes e falamos cinco minutos. uma vida inteira dispersa.
dos últimos suspiros, dos imensos sem valor - quase todos -, que dei, guardo a lembrança de me ter esquecido do laço azul que atava o embrulho. deixei-o sobre a pedra da pia baptismal. era pequeno e o catolicismo perseguia-me, como um inimigo persegue o seu inimigo para o convencer da sua verdade. tinha uns meses, seria assim? tão triste história dos últimos suspiros.
história melhor poderia contar-te eu. se soubesse os números para além das horas e dos minutos. lembro-me do sol sobre o cume da montanha. naquele amontoado de granitos, a meia encosta, pariu a parva da cabra sem esperar que eu a segurasse. ainda tentei agarrá-la, mas o cabrito rolou pelas rochas. tivesse eu atado a cabra à árvore, como tinha costume. mas esqueci-me da corda sobre o poial do curral.
to be a beautiful woman
quando eu crescer, senhor, deixa-me sorrir, e quando eu crescer deixa-me beijar a barriga da menina do rés-do-chão. ela deixa-me ver o umbigo e disse que se eu crescer, poderei, talvez, dar-lhe um beijo. hoje, enquanto sou uma criança, um menino, deixa-me, senhor, sonhar que o tamanho das ondas do mar é a terra toda onde cabe a minha vida. deixa-me pensar que o mundo pode desaparecer, mas que a minha vida, vai nessa onda, onde viverei o beijo sobre o umbigo da menina do rés-do-chão. se eu crescer e for mulher, quero amá-la como nunca imaginei. ela crescida e eu crescido, mulher e mulher num beijo terno de descoberta sobre a espuma na crista da onda.
deixo, num sorriso, a família eterna à espera que eu cresça. eles que esqueceram de me fazer nascer para o mundo. e o mundo resolveu chamar-me, sem que eles notassem o meu destino. nasci num empurrão. da força rompeu o meu grito. foi a última vez que me fiz presente sem que para tal fosse chamado. escrevinho em letras miúdas, sem desenho nem fácil percepção. o desconhecimento fará de todos a minha ignorância.
for today I am a boy*
*versos de Antony
das entranhas a paz da morte. o fim da vibração do corpo. da reacção da memória ao futuro. entramos pela porta do caminho. um cruzamento à frente mantém-nos na indecisão. os espíritos infinitos são a graça do indefinido. abraçam quando nos cruzamos. na pele a paz da morte.
serve-me a contento a uniformidade da tua morte. cada milímetro teu está morto. sem diferença. frio. indiferentemente.
uni-vos, irmãos, crentes em uma só fé e em um só deus. acreditamos, sem o nomear, no que vemos e pressentimos. nas chuvas de outubro, águas que enchiam albufeiras para sedes de verões perdidos, ficamos na esperança de as ver em dezembro, sob a luz fria do céu nublado, escuro, intenso.
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do teu cabelo recordo o cheiro. da tua pele a tez morena. da tua barriga a serenidade bela. na tua pube a prova.
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uni-vos, irmãos, escanções dos mais preciosos néctares, para mostrar ao mundo que apenas um é o deus em que cremos.
do ar puro que se tenta respirar. enfim respirando. do sopé da serra veio uma notícia. má ou boa pouco interessa. cada um tem o seu ver. e eu até vejo mal ao longe. a notícia veio e o facto manter-se-á pelo tempo que resista a memória.
falei com as irmãs e um dos padres. as irmãs sempre me acharam digno de pertencer ao conjunto destes últimos. e a minha avó também, digo-o já para me não esquecer de vos dizer. mas, sempre considerei que não existe dignidade nem perfeição que me levem ao celibato.
(da partilha de fluídos nasce toda uma realidade orgânica que se expande no conhecimento do que é humano animalmente.)
sei, tenho a certeza, sei, ainda que a dúvida surja sobre a certeza, por haver sempre a relativização da coisa, que um vazio se abateu, em definitivo, sobra o sopé da serra.
mais faltava o balir das ovelhas. morreu um pastor.
um passo entre a luz e a sombra prefiro a sombra porque intui a luz e ainda assim se mantém escura um passo entre a luz e a sombra onde o corpo fecunda polinizando ou é fecundado por pólen
o corpo esquece-se em qualquer lado como uma pedra igual a outra excepto se for uma pedra azul se for uma pedra azul vai para o bolso ou para um recanto protegido do caminho ponho-a lá de propósito sim posso fazer dela uma sopa azul enquanto imagino a sombra no corpo ou a cópula orgânica da sombra com a luz
sei que assim a luz ganha mais poder mas tantas vezes precisamos saber o que os olhos falam choram gritam esmiuçam ao pormenor a dor que lhes vai por dentro
não não me esqueci da pedra azul só não tenho nada a dizer sobre a pedra azul posso adiantar talvez que o que interessa não é precisamente o azul mas sim a cor qualquer cor que se distinga da generalidade cinzenta das pedras com que as nossas plantas dos pés interagem pisando tropeçando
no corpo regista-se o tempo com rugas portanto na pele o cheiro na memória que sim que é menos digna de registo porque se pode apagar involutariamente num clique horrível eu lembro-me que me lembrava mas agora já não
[...]
dançaste então! com os mortos em redor.
não me explicas a existência? o sentir das almas num repositório animado pelos olhos e lágrimas dos vivos? a existência que deixaste para trás ou lá para frente, se a morte for tão só um retroceder ao ponto de partida.
não me dizes do ar que se respira, húmido e fresco, por entre o verde e o azul e as pedras velhas, sobreviventes da história e à história que tantos contam? já mortos tantas vezes, com gemidos insistentes nas dobradiças de portas de madeira centenária.
passa por essa estrada. agora. neste momento como se fosse o nunca. e este é o nunca nos conhecermos e, afinal, é uma mentira toda esta coisa que se escreve e confunde com o sangue que corre nos corpos animais.
[...]
se dançares fecha os olhos, esse crisântemo é a imagem do coração adormecendo.
choro. agarro-me ao teu braço e choro. compulsivamente é a palavra. o teu belo braço. choro. molho-o e seco-o. ao teu belo braço. impulsivamente. não quero salgar o doce. que prefiro. ai, que dilúvio é este choro. afasto-me do teu braço. agarro o teu braço. choro. como é bom o teu braço. no guizado com batata nova.
se me reflectires o desejo do passado e do futuro que nunca esqueço tu és o que nunca foste nem serás num presente imundo de barro e água meu amor minha amora silvestre encantada em bagos baguinhos de ácido e cor
trejeitos dos lábios quando estalas a língua no palato e sentes viva ainda a larva de inúteis sons palavras a sair da tua cabeça pesada leve leve pesada quando se repetem qual martelo martelando um prego de 20 centímetros em madeira velha amarga
quão triste o presente esse imaginado mundo em que almejamos mas não alcançamos empurramos a dor para a frente sem que se separe de nós corpos almas espíritos convencidos de qualquer desgraça e graça rimos ao espelho em convenção de saliva acumulada e branca às vezes amarela qual transparecer de raiva ineficaz mordemo-nos a nós mesmos para sacrificar o mundo de micróbios que transportamos por essas ruas e transportes públicos somos em nós doença e salvação públicas
[...]
quando dançares lembra-te dos pés dos levantares dos trazeres até mim depois vamos deitarmo-nos num abraço de paixão
"deus não existe". sabes quantas vezes o disse e o escrevi? que enfado, não é? cada vez que o escrevi dizia, mas nem todas as vezes que o disse o escrevia. baralhamos as contas todas e a ignorância permanece estrutural e aconchegante para o conhecimento necessário. "deus não existe" é uma frase que me sossega. tenho para mim a vontade de acreditar que não existo.
enquanto o frio torna duros os sentires do corpo fumo cigarros numa alusão clara à minha vontade de te chupar os entumescimentos que demonstres ou me queiras explicar por palavras líquidas com sabor a mar e cheiro a deserto de suores sobre suores sem lavagem nem perfumes para além dos da decomposição acelerada das emoções
do frio e da minha erecção não tenho nada a dizer para além de um se impregnar e da outra não existir ainda assim lembro-me de como foi bom amar-te numa noite de verão que se repetiu por outras noites que atravessamos pelo outono e inverno seguintes
estou disponível para o teu abraço estou disponível para o teu beijo estou disponível para a tua palavra de saudação estou disponível para quase tudo isso que pensaste agora o resto nem eu sei se existe
foste o meu alimento durante a nossa vida e quando a tua respiração cessou consolei-me com o mundo à espera e ofereci-lhe os teus ossos
fecharam as portas às 3h fomos para a rua e caminhamos calçada acima uma porta convidou-nos a entrar entramos dentro da porta encontramos uma festa e dançamos adormecemos nas estrias da madeira acordamos com o sol na cara entrava na porta pelas imperfeições da capa de tinta verde quisemos partir mas o tempo passou depressa velhos e cansados ficamos para ver o mundo passar na calçada
no sopé da serra ansioso sento-me no lugar da frente da tua viagem para chegar ao cume duma montanha que nunca existiu a nossa fragilidade é isso mesmo e desaparece em mil bocados como num sonho que alguém teve enquanto se enamorava e suicidou no processo
qual processo vês esta merda é esta merda que eu não gosto que me digam processo não digas isso a realidade é um absurdo simples factual se a viagem correu mal dizemos isso mas não passa de uma semi-elaborada vontade de culpar o azar pela viagem ter sido fodida por uma besta violenta
o menino não se tem perdido por aí. não, não tem. mas sabe, com a certeza de todos os dias, que faz sol quando o brilho no céu é maior e ele semi-cerra os olhos e chove quando se molha no caminho para casa. o menino não se tem perdido, mas gostava de saber as coisas noutros sítios.
é dia. começa o sol a perturbar a minha memória efectiva. e esqueço-me. esqueço e vivo. é dia. começo de novo as tarefas sempre iguais, sempre diferentes. o sol perturba a minha memória efectiva: como uma fotografia que se desvanece.
Maria Júlia era já uma senhora. Casada. Filhos? Talvez, se sim penso que não interessam a esta história. Nos fins da década de 50 do século defunto recente, decorria um ano como outro qualquer debaixo das ordens dos senhores GNR e, finalmente, vinha aí o entrudo. O Alentejo, o baixo, mais se assemelhava a uma só imagem de um quadro naturalista, já com a terra aberta ou ainda com as charruas e os machos passando por ela. Anunciava-se um ou outro raio de sol nos dias enregelados, as manhãs acordavam com geada acumulada nas pontas das poucas ervas na beira dos caminhos ou nas teias das esmeradas aranhas que tapavam os buracos na terra lavrada.
juntos com o espaço à espera de um vazio que se comprometa com a morte do amor. enverga o teu fantasma e deixa o teu corpo para outras núpcias. tu e tu, dois seres, juntos esperando que o espaço se preencha com outro tu qualquer. deixa o corpo para o temor dos outros não presentes.
quero contar-te. o velho surgiu da penumbra e disse quem era. ouvi e guardei para mim esse segredo.
maria júlia viveu no Alentejo. durante muito tempo o entrudo foi festejado de uma forma próxima às pessoas.
uma noite. uma lâmpada. um palhaço. o entrudo.
não encontro a faca. a faca perdeu-se. e o sangue foi-se embora... por aquela porta. o sangue. o meu sangue, do teu ventre. o nosso sangue. perdi a faca. onde meti a faca? perdi a faca. ia a caminho do quintal e perdi a faca. o sangue eu vi, saiu. estamos sós.
aqui nesta praia do norte sinto os pelos eriçados e a pele seca como papel caro amigo quando voltares traz abafos e o teu calor teremos que nos encontrar nas horas da noite tu e eu iremos juntos caminhar pelos serros que aqui se acabam qual moleiro e seu companheiro pelas aldeias recolhendo grãos de vida traz abafos e o teu calor que estas gentes se perderam há muito tempo quando lhes disseram que a vida era deles e acreditaram que a vida era deles como se nós fossemos uns estranhos ao coração dos bichos e os bichos deixassem de ter coração e nós morressemos definhados nesta praia do norte amigo o frio é intenso traz lã e amor
a tua mão Honoré a tua pena na tua mão e a tua mão preenchida com um seio lindo e carregado de amor materno e ansioso por te dar a ti e a quem mais aparecer o outro amor carne e carregado de odor.
o futuro entregue nas tuas mãos. uma ave, uma rola, pousa elegante no cabo dos telefones, lá fora, na estrada. a estrada acaba no portão da nossa casa. temos uma casa com muro e portão. temos um muro a rodear a nossa casa. o muro é baixo, isto é um sonho, o muro é baixo e branco e o portão é verde escuro. os cães ladram a quem chega ao fim da estrada e nos vem visitar. também nos ladram quando chegamos e saúdam-nos como se fossemos os mais queridos amigos deles. e somos. o futuro entregue nas tuas mãos pela rola, que agora pousou arrulhando no cabo dos telefones, como que a dizer que te deseja boa fortuna e tudo depende de ti. tudo? quase tudo e o resto ficará por nossa conta. a rola aguarda a resposta ao chamamento suave. atira-lhe agora milho. vai a rola para o longe de papo cheio.
a câmara desfoca e retoma a focagem, suavemente, com um plano sobre dois cães dormindo aninhados um no outro
eu venho aqui para me apunhalar. sentir no ventre uma dor. e pensar na mulher parindo, como antigamente. depois, o silêncio e a paz a instalar-se nos nervos. começa uma vida num corropio.
um encontro sereno com o findar dos sonhos e um deslindar de histórias mais ou menos infernais guardo um sorriso para cada sorriso que se cruze comigo e se estiver distraído falem-me dos gritos dos corvos e dos pássaros negros que sobrevoam o perigo sem medo com medo de algo se magoar o coração da alma talvez é hoje foi ontem e os senhores amanhã farão igual tenho pouco medo e o que tenho guardo-o numa caixa chinesa onde tenho também os sonhos preciosos que revejo às vezes no trocar de sorrisos não olvidáveis
agarro-me ao escaparate com uma mão e atiro, com a outra, talvez a esquerda, um vaso à cabeça da bibliotecária, minha irmã, para lhe roubar a virtude do sorriso.
falho o alvo, sem surpresa, e ouço um grito abafado para não fazer ruído. pego num caco do vaso e rasgo o pescoço e a aorta ao rapaz mais perto: ele grita e eu grito com ele... ouço um som abafado a mandar-nos calar... eu calo a morte dele enfiando-lhe um lenço na boca.
agarro-me ao escaparate com uma mão e com a outra faço gestos indignos da moral maior, dignos de qualquer amoral mente transeunte.
ninguém: um espaço vazio. tu e eu: presos um ao outro e o outro ao um. tu és um ou outro e eu quero que um e o outro seja uma união. ninguém: somos uma intersecção vazia de sentido e sentimentos únicos para nos separar: sempre.
os carnavais americanos escondem muitas vidas tristes, amigo. um dia hei-de tentar perceber o porquê das criaturas, como as que se revelam neste postal, assumirem outras vidas, cheias de máscaras e frustrações. nesta terra onde só o sonho é ouro, a carne parece valer menos que o vinho.
guardo para mim a certeza destas mulheres serem mais bondosas com a tristeza do outro do que as mais comportadinhas senhoras dessa terra, que apelidamos de nossa para não nos esquecermos da vergonha.
saudações, amigo.

© Susan Meiselas / Magnum Photos
meu amigo,
envio-te esta missiva do fundo do meu coração adormecendo. espero que ela te encontre bem e disposto a viver com mais notícias da minha sobriedade.
entrego-me ao passar do tempo, num olhar indeterminado para além da janela. deixei o tabaco: o fumo entranhado na tinta plástica das paredes odoriza em suficiência o ar que inspiro e a minha dor não necessita já de nicotina.
ontem, desci, novamente, à rua e caminhei. senti por uma vez, depois do trágico incidente, que alguém me olhou: um transeunte que pedia uma ou duas moedas ou uma sandes e um copo de leite. eu senti que sim, que lhe poderia fornecer aqueles alimentos, mas, apanhado desprevenido, não haviam quaisquer moedas que intermediassem a compra dos produtos. subi a escada e fechei-me, em casa, frustrado e remoendo na culpa, apesar de saber que ela não era real.
tentei recomeçar a escrever notas no meu caderno. falho. os poemas são incompletos e transvazam uma solidão irritada e negativa: não existe sol, diz-me deus. repondo-lhe apenas que não tenho razão para que não haja sol, mas talvez ele possa responder a tal. o gato olha para mim brevemente, mas volta a enrolar-se com os olhos fitando um destino livre, na sua imaginação.
o gato, dir-se-ia, sabe mais de deus, chamando-se assim, do que eu, que lhe dei o nome. feliz, o gato. ébrio de enfermidade, eu.
meu amigo, manda-me notícias em breve.
um forte abraço
clamo por uma razão para me prender à vida. clamo por um deus que me justifique a razão do teu ódio. e não ouço uma só palavra nem um ruído que seja me chega aos ouvidos.
Foram poucas as venturas com que sonhei. Sempre quis um homem-sol à minha beira e pouco mais do que um brilho na noite era o que me surgia por perto.
Matei-os a todos e felizes esses, que não teriam que sofrer mais às mãos de mulheres interessadas.
Sempre quis um homem de pila erecta sonhando comigo o sexo dos deuses. Ansiando a pele e os pelos em jogos cruzados de dedos e olfacto. Sempre quis... como um desejo de uma vida para concretizar e fosse a minha fortuna essa vontade.
Descrimino no testamento as armas dos crimes e distribuo-as pelos mortos, para os acompanhar nos túmulos das suas cinzas: o mar, o lago, o tanque dos peixes.
Nunca tive nenhum amor amante de mim, porque nunca tive uma pila íntima e erecta num desejo único de vida: sexo e ardor. Num só olhar soube-o ali, esperando algo que nada mais nem menos fosse o seu sexo crescendo dentro da minha boca-vagina... o seu esperma nos meus lábios comprimidos contra os lábios dele, tacteando a língua que lhe conheceu a pele.
Ele, homem-sol, único e intenso, sentado e mirando o universo fechado da sala de espera do otorrinolaringologista, olhou-me e disse-me: obrigado.
falaremos das coisas bonitas no dia bonito. falaremos e seremos confrontados com opinião diferente: dirão de nós que falamos de coisas feias em dia feio e, ainda, acrescentarão: que gente feia esta. sorriremos entusiasmados entre nós e, os outros, dirão de nós: tontos!
o dono da papelaria deseja apelar ao bom gosto e faz chegar até ele, sobre a bancada de madeira, três esferográficas de modelos recentes. estas são as melhores que temos, lembra-se das bic? estas são tão boas e mais bonitas. o óbvio simplista, corredor para objectivos simples, lamentou-se da perda de tempo e disse: foi uma bic que pedi. o dono da papelaria resignou-se atento ao cliente louco, que ainda rondava por ali na rua.
no fundo, à esquerda, o subterrâneo aguarda o atravessamento. os dois sentidos vigiados pelo ódio e pela paixão. atravessai o subterrâneo, ali à esquerda, ao fundo. numa parede uma prece: ama-me, por baixo: odeio-te. na outra parede lê-se: o pai, o filho e o espírito santo são os salvadores, a que lhe foi acrescentado: e comeram-se numa noite de inverno. a antropofagia passa por necessidade quando não temos mais.
na papelaria lia-se a revista rosa do dia. na papelaria, o senhor que é dono dela, tenta medir o pénis da personagem despida na fotografia escandâlo (chamada na primeira página). o senhor da papelaria não percebe efectivamente se se pode assumir como usufruindo de melhores atributos ou não. a fotografia não está clara. entra, novamente, na papelaria, o cliente da notícia atirada à sargeta pela chuva. o senhor da papelaria, colocou-se em defesa... afastado do balcão. o homem aproximou-se e perguntou: o senhor tem um pénis maior do que este? (referindo-se ao pénis de que já escrevemos). o senhor da papelaria respondeu: não sei. (tendo por receio maior não saber qual a resposta certa para os ouvidos do seu interlocutor.) dê-me uma onça de tabaco, se fizer o favor. e papel de arroz. o homem saíu mudo, deixando o troco em cima da revista.
o senhor da papelaria balbuciava ruídos enquanto sacudido pelo cliente atónito, exasperado com a infelicidade de uma notícia tão importante. quando o cliente o largou o senhor da papelaria, inspirando uma golfada de ar, compôs-se e perguntou: mas que dizia a notícia, senhor? o outro, já saindo, repondeu-lhe: e eu sei? a chuva é traiçoeira com as notícias dos céus e escritas nas nuvens! guardou-a para si e agora teremos que esperar por outra oportunidade para tentar ler o destino. entrou, durante esse momento, Júlio, que ainda ouviu a resposta. o outro desapareceu na chuvada e o senhor da papelaria virou-se para o Júlio e disse: é doidinho, coitado! o que deseja? Júlio desejava Janus, mas Janus não estava ali e não lhe serviria de nada responder Janus ao senhor da papelaria, pois ele não iria compreender. quero um bloco de papel de carta, se faz favor. o senhor da papelaria não se mostrou convencido e perguntou-lhe: pretende também envelopes? Júlio não quis envelopes, pagou, despediu-se e ouviu ainda a voz do senhor da papelaria dizer: até logo!
olho em volta do mundo e vejo pouco mais que um silêncio. corto o silêncio com um x-acto. um x-acto é um bom cortador de silêncio. ouve-se um grito ou um borbulhar de sangue (escolham vocês). é risível a idiotice dos termos que se empregam quando vemos alguém de quem não gostamos nem desgostamos: poderia ter chovido menos (não se pode dizer "mais" porque ofende, ainda que seja exactamente "mais" que eu diga), poderia ter feito sol ou vento (isto tudo para dizer que aquela pessoa, ou eu, se for eu "aquela pessoa", é tão importante como o caixote do lixo presente no local de trabalho). um x-acto numa mão, sangue na outra mão. será a outra mão capaz de pegar no x-acto? com certeza, haveremos de verificar. não importa o facto de o grito não minimizar o silêncio, porque o silêncio é absoluto aqui. aqui. onde os mochos são benvindos. o senhor da papelaria ficou intrigado: um x-acto? porque não compra este conjunto de três, saía-lhe mais em conta e tem a mesma qualidade. insisti: um x-acto, se fizer o favor de mo vender. afinal, não lhe ia dizer que três implicaria uma escolha ou então a tentadora utilização de todos. um x-acto, muito bem: qual a cor? saí. o tempo, na rua, estava como manda a natureza.
senta! cospe para o chão a memória de ontem. não tens no cuspo mais do que o ideal concreto do teu passado. senta! vá! senta! cospe para o chão de terra as tuas entranhas dissimuladas de desejos e vontades inconcretizáveis. agora vai! mais limpo do que antes, talvez saibas olhar e ver. e mesmo que não saibas, que interessa isso. estás tão cansado de lérias. vai. sobe a encosta e a meio senta-te numa pedra confortável e cospe para o chão o teu futuro.
ontem. silêncio. negro. luz. o brilho da pele. negro. luz. a pele. a flor. rosto. a flor. face. nobre. sol. negro. a luz. sol. pele. negra. luz. lua. o brilho do cabelo. luz. brisa. vento. abrigo. corpo. negro. pele. corpo. abrigo. hoje.
love is natural and real
but not for those such as you and I
Morrissey
pretendias sobreviver à chuva? às inundações? ao vento? as intempéries ficarão por muito tempo, erodindo a geografia em volta à falta de piores males. tu não sobreviverás nem às doenças nem às invenções dos teus pares. serás morto não pela chuva nem pelo vento, nem afogado em lama, mas sim pelo companheiro de luta que te tocará no ombro e te negará a vitória sobre o inimigo. esse teu companheiro é pega. o teu ombro é o meio de comunicação fraco. esse teu companheiro é mentiroso e traz uma máscara. não é cego, no entanto, só vê o que pretende... a espuma das tuas palavras arrastada pelas águas é a pretensa imagem que quem olha não vê.
crescem-lhe as banhas ao bode. pobre do animal que sofre uma vez e não o deixam esquecer para todo o sempre que é crestão no corpo e na alma. tantas vezes se julga cavalo, apesar de falta de bom andar, mas o que é é bode maltratado pela santa família que o acode.
é bode em nome do senhor. defende os seus direitos e pensa como o que lhe falta e está enterrado... na alma santa e recalcada. senhor, orai por ele: corno.
lembro-me de poucas coisas de pequeno. não me lembro de momentos de sorrir. lembro-me de chorar. de discutir. mas lembro-me de beijar a menina que partilhava a secretária comigo. de beijar algumas meninas com quem brincava. mas não me lembro de brincar. lembro-me de lamber as feridas de quando caía no recreio. lembro-me de ter boas notas e não estudar nada. eu era pequeno, não cresci muito mais, mas "quando eu era pequeno" é algo que me transmite sentimentos near zero. a juventude trás muito pouco também... e o passado recente é quase todo feito de imaginação. misturo realidade com ficção. quando eu for velho não me vou lembrar de quase nada, é melhor assim.
ouço gaivotas. ouço tormentos de alcatrão e nafta. ouço o medo a entranhar-se pela pele a-dentro. foge daí, foge daí, não morras aí, não morras aí.
e a porra é o mundo inteiro ser tão irrelevante para quem arma e mata e desarma e mata e negoceia a vida como se fosse sua a vida que é de todos os seres.
ouço o mar em pranto. chorando lágrimas negras. pesadas. arrastando consigo para a morte os seus filhos. criaturas do seu mundo sem mundo. devo-lhes a eternidade e morro culpado.
melhores tempos virão, meu amigo. este suicídio lento do cérebro nada mais é do que uma benesse dos deuses para te darem descanso. a felicidade chegou, apesar dos deuses não te permitirem senti-la.
esqueceu o relógio em casa. na rua andou em passo certo calibrado pela memória do tic tac do relógio de parede da casa dos avós. ding dong ding ding ding dong. o barulho da tormenta e pouco mais. na rua passeou com a pressa do relógio e monótono como se em letargia. tic tac tic tac. para atravessar a estrada. o sinal vermelho o peão parado era ding dong ding ding ding dong! ia contando os minutos e os conjuntos de minutos que eram partes de hora. chegaria atrasado? chegaria atrasado? chegaria atrasado? chegaria atrasado? chegaria atrasado? ouviu na sua cabeça o partir de um vidro e areia a escorregar. vinha caminhando pelo tempo de um relógio da imaginação, mas afinal era uma ampulheta. agora não valia a pena a tentativa de saber o tempo gasto. chegaria quando chegasse. ding dong! a porta abriu-se e ouviu: foste o primeiro a chegar!
esperavas que simplesmente me levantasse e te fosse falar, assim, do meio do nada? enganas-te! enganas-te! talvez fosse mais fácil saíres dessa cruz e chegares à rua em tanga.
se me disserem olá não voltem atrás, cantava john. a música era imprópria. a voz era de duche frio. tha entra no nevoeiro e diz: canta outra coisa! não vás, fica! oxalá, fosse assim berrou john. passaram alguns segundos e tha disse: estou aqui.
a simplicidade e a aberração deste momento é light.
enquanto john tomava banho, tha divertia-se a fazer desenhos no espelho. o nevoeiro era forte e a visão limitada. tha escreveu no espelho: a dura luta dos homens reveste-se de sonhos quando anseiam pelo amor de uma mulher e destrói os sonhos quando têm esse amor. conas! conas!, gritava john encharcado em alcóol, mas contente com o gin. tha escreveu: desejo-te. bebesses absinto e amar-te-ia.
a simplicidade e a aberração deste momento é emo-light.
john não toma banho. tha olha para ele. john não a vê: olhos semi-cerrados. estendido no sofá. calças castanhas sobre um fundo preto. tha olha para ele. john balbucia palavras com sabor a absinto. tha sai da sala. john desvia o olhar para o vazio e adormece.
a simplicidade e a aberração deste momento é emo.
pouco dado a compromissos, Grotesco, pergunta: "onde vais?". a resposta: "não vou, venho", foi dada por aquele-que-anda-para-trás. Grotesco, nome gentil atribuído pela ama no momento em que encontrou a criatura e gritou "Grotesco!" e, por preguiça, não pensou em outro nome que se lhe desse. Grotesco, ao contrário de aquele-que-anda-para-trás, não percebeu a resposta e retorquiu: "vais ter com alguém?". não houve resposta.
aquele-que-anda-para-trás, estava ao pé de Grotesco e suspirou: "estás bom? 'tou farto de andar, hoje. Fui ao café do sr. Manel e vi a ama por lá!". "Viste a ama?", inquire Grotesco sorrindo. "Vi! A mulher não envelhece? parece sempre a mesma, a mesma sempre ao longo de todos os anos."
"Pois, parece que não! A ama sempre foi assim, não me lembro dela de outra forma! Mas porque andaste tanto, então?"
"Andei a fazer recados: comprar batatas, comprar café, ir ao marco pôr cartas e antes comprar selos. Apetece-me água!"
aquele-que-anda-para-trás foi até à torneira do quintal e deixou a água escorrer-lhe pela cara e pelo pescoço e bebeu. Grotesco, olhava o amigo e pensou que talvez gostasse de fazer recados. Talvez, faltava-lhe a certeza. E como lhe faltava a certeza não disse a aquele-que-anda-para-trás que talvez gostasse de fazer recados. Preferiu dizer: "Gosto de olhar o céu a esta hora." e perguntou: "Quanta luz têm as estrelas?"
"Sei lá quanta luz têm as estrelas?, eu não vou à escola aprender essas coisas". aquele-que-anda-para-trás ficou incomodado e virou-se de costas e olhou o céu e pensou como seria bom saber quanta luz têm as estrelas.
"Todos os dias morrem estrelas, o céu fica mais escuro" disse Grotesco. "Nunca notei. para mim o céu tem sempre a mesma luz. menos na vila. na vila não há estrelas! o céu fica esquisito sem estrelas", retorquiu aquele-que-anda-para-trás, quase ofendido.
"Tens razão. Nas vilas não há estrelas...", Grotesco disse e fez sorrir aquele-que-anda-para-trás.
sr. josé? perguntou d. alzira, na sua cegueira. sr. josé? ouvia-se um arrastar de pés no quarto, mas ninguém respondia. sr. josé?
d. alzira, sou eu.
ah! sr. josé, e não me respondia?
estou cansado, hoje, mais do que ontem, d. alzira. importa-se que abra a janela?
faça favor.
hoje, mal acordei senti-me a morrer.
e não é assim todos os dias, sr. josé?
mas, hoje, foi especial. senti mesmo os nervos a falharem e os músculos sem vida. arrasto-me, d. alzira...
ouvem-se os pássaros. a brisa fresca parece trazer um dia bonito. está bonito, o dia, sr. josé?
está sim, d.alzira. está um dia bonito para morrer.
hoje encontrei o ritmo da história. a história ao ritmo de hoje ter encontrado. hoje ao ritmo da história. um velho homem sentado numa cadeira. a cadeira só isolada de tudo e de todas as outras cadeiras. e o homem sentado nela. em baloiço. sozinho na cadeira. sentado velho. o homem. descobri grave e conscientemente que a cadeira baloiçava pelo impulso de dois pequenos roedores. a cadeira sozinha, afastada das outras cadeiras tinha sentado nela um homem velho. muito velho. muito morto.
ontem celebramos o 99º aniversário do meu avô desta vez não fomos à terra de meu pai celebramos na nossa casa lembrando os 13 anos de ausência da carne suposta em pó lembramos que se tivessemos ido ele teria partido de manhã com as cabras e só voltaria da serra à tardinha quando já tardava a nossa partida a imagem dele na minha memória sempre magro sempre de cara lavada o meu avô não teve importância nenhuma neste mundo construiu o seu e ninguém o aborreceu demasiado ontem celebramos o mundo dele
estás longe para além do mar, para além da terra, para além de mim. longe como só as estrelas estão e, no entanto, não brilhas e sabes-te de negro. concedes o tempo que não tivemos àqueles que têm tempo e não sabem. estás longe para além do universo. e tudo termina perto quando me esqueço de ti e olho em volta na solidão do espaço. acompanho-me num liquído alcoólico. miragem no copo de um gémeo inexistente. saúdo o tempo, saúdo a vida, saúdo o mundo inteiro... e acabo desejando-lhes a morte, gargalhando com euforia e contentamento. contente apenas pelo utopia, pela realidade futura. e mando-a, então, à merda, porque não me ajuda. e encho outro copo para saber quem sou. e o copo cheio diz-me que não sou o copo nem o buraco de ideias ou não-ideias. o copo refere-se a mim como um gémeo inexistente, miragem dum sentido ausente.
já o cego se foi embora há uma hora e o cão não voltou ainda pensou o homem do café encostado à ombreira mais limpa da porta do café o homem do café não é o dono do café o sonho dele é ter um café só dele o patrão é bom mas há que tomar as rédeas da vida em algum tempo o homem do café pensa muitas vezes e adia a decisão primeiro porque ele não é um homem de decisões intempestivas segundo não tem dinheiro do rio recebia o sonho de se ver atrás da secretária com a decisão na mãos com o amor no quarto à espera tal como ele espera todos os dias por esse amor o rafeiro tardava e o homem do café não podia esperar mais atravessou a rua e deixou na esquina um pouco de comida
pertenço ao vento no que ele traz de medo e mudança. pertenço ao vento, meu amor, pela velocidade imposta nas explosões solares. pertenço ao vento que me traz notícias das terras onde não estou nem vou. meu amor, se o vento te despentear o cabelo, se o cabelo te tocar a face... se a vida for na distância, sou eu nesta viagem desmedida que te vejo e te olho. desprendido das árvores. morto no chão. um dia. pó.
estão lá, no banco de madeira. a desgraça e as desgraças. animálias de vanguarda. desgraças de filosofia podre. da boca. da pele. das veias. dos músculos. sob as árvores frondosas a desnudarem-se sobre elas. e ela. a desgraça. rainha do reino da concórdia. desgraças felizes na infelicidade. pedinte.
as temperaturas baixam. os insectos começam a morrer. os pássaros migram. ouço um morto a cantar. penso que o canto dos mortos pode ser mais belo. a chuva afastou-se. pedi a uma andorinha para me levar para longe. esqueço o significado do tempo. o relógio vai no sentido igual. igualmente no sentido da morte. a qualquer momento. a dor é sempre sem esperança de terminar em vida. tenho saudades de não ser adulto. tenho saudades de não ser infantil. tenho saudades de não pensar. terei saudades de não existir? o frio, finalmente. os agasalhos. as luzes de natal. a hipocrisia dos discursos moralistas. a moralidade dos discursos hipócritas a fazer acreditar o povo das mentiras que já tinham ouvido antes. as mentiras de sempre. provadas e saboreadas no infortúnio. os insectos morrem. as moscas. as carraças. só não morrem os homens maus. que me sufocam o espírito e pejam de dor quem luta. quem não luta já anda dormente e nem se apercebe. adeus, se eu me fosse embora. se eu pudesse ir. para norte!
o senhor deus, meu amor, reclama a tua devoção
em pranto e na agonia dos tempos
o senhor deus, sempre te escutou
sereno e
muita porcaria se ensaia na escrita... e, depois, ainda se tem que riscar alguma!
o homem do café chegou-se à porta e olhou a esquina pensou quantas pessoas passaram hoje pela esquina algumas entraram no café umas sentaram-se outras ficaram ao balcão e houve aquelas que ficaram junto à porta onde estava a máquina automática para fornecer maços de tabaco o homem do café talvez fosse feliz a linha que existia entre o lado direito da porta do café e a esquina permitia ao seu olhar ver as águas do rio que lava os pés da cidade o homem do café sorriu e regressou para dentro
chegavamos de manhã ainda a tempo de ver o meu avô partir com as cabras para a serra partíamos tarde pouco depois do regresso dele da serra com as cabras
a nossa ida à charneca foi para mim o recuperar de cheiros que apesar de sentidos antes se tornavam sempre imperceptíveis na cidade a minha avó os meus primos e eu na carroça fomos com a minha avó buscar lenha para o forno onde cozia pão amargo típico daquela região na charneca abundavam pinheiros e eucaliptos e tojo estavamos em Agosto o calor intenso cansava-nos à entrada da charneca uma nuvem de moscardos passou por nós nunca tinha visto aqueles bichos alguns pousaram no burro que se enervou e fez remexer a pele de todo o corpo a cauda as orelhas e a cabeça e estacou fazendo tudo isto lembro-me dum moscardo no meu braço a picar-me saímos da carroça e com ramos de eucalipto aliviamos o burro e a nós dos animais sequiosos de fresco
toc toc tac tac tac toc a esquina iluminada pelo sol da manhã aquece vagarosamente o cego batendo com a vara na calçada e nos interstícios geme uma ladaínha de pobreza e ausência de sorte clinc o som que a espaços se ouve da moeda caindo na caixa de metal que o cego tem dependurado do pescoço e abana muitas vezes ao longo da manhã para sentir o momento em que deve retirar parte do rendimento para o lado para que o som clinc seja vazio e penoso para quem se sente mesmo assim enaltecido pelo acto de caridade tenham pena do ceguinho sem mãe sem pai com três filhos a custas e uma dor nas costas da mulher
do café todos os dias sai um dos empregados em direcção à esquina o cão cheira-o e abana a cauda e abre a boca sedenta numa tina a água noutro recipiente um bocado de comida o cão come e protege-se o homem espera que o cão acabe de comer o cão acaba de comer e agradece como gente que agradece e parte abandonando a esquina ainda de manhã o homem vê-o ir e pensa até logo
ali ao pé das casas o meu tio fazia aveia ou trigo depois da ceifa ia para lá brincar com os meus primos ou sozinho gostava de pisar os finos troncos secos que ainda emergiam da terra seca e dura um dia a minha avó tinha atado o Tu É-lo a uma oliveira desse terreno para ele mascar umas folhas eu e os meus primos pedimos à minha avó e montamos o burro nós três lingrinhas novos aconchegamo-nos no lombo do animal da cabeça para a cauda estava o meu primo a minha prima e eu a minha avó deu a pequena corda ao meu primo e o burro deu três passos e logo se empinou caímos e rimos a bandeiras despregadas o animal calmo e sereno olhou-nos desconfiado abanava as orelhas e a cabeça para sacudir as moscas estava quente e o sol ia pôr-se por trás da serra
os dias nunca são serenos com os transeuntes untados de suor a canícula nem sempre terrível mostra efeitos raros nas pessoas e os cheiros irritam o cão da esquina passa um homem de camisa encharcada e é saudado pelo cão com um ladrido estridente e continuado até que desapareça já longe entre as pernas dos passeantes
de manhã levanta-se o cão do seu espaço e nota ao virar da esquina o vazio do tempo o casal partiu hão muitas horas daquela parede encosto de reconhecimento físico o cão alçou a perna e urinou depois de se reconhecer na rocha trabalhada passou por ele Júlio que o olhou com olhos de cão triste com a permanente vontade de o levar para longe do abandono
não vês
nem olhas
cego fosses
encostado à parede fresca iluminada o cão adormece ao voltar da esquina um casal mal se escondendo beija-se e sente com as mãos o desejo entre si ela com a mão aberta sobre o pénis largo e erecto ele com a mão em concha tocando os grandes lábios húmidos beijam-se enternecidos num tempo só
o meu avô disse que quando morresse a sua alma seria levada pelo vento no dia em que morreu subi a um dos montes da serra e fui vê-lo naquele sítio não havia vento os meus gritos não ecoaram e não chorei o meu avô já tinha passado por ali olhei para o pé da serra e voltei para a casa onde estava o seu corpo os vizinhos visitavam-no tocavam-lhe a sua cara atada para segurar o queixo comiam uns biscoitos falavam felizmente não me conheciam naqueles dias é bom não conhecer ninguém o meu avô foi-se embora durante o sono muitas vezes quis bater com a porta mas a violência com que a doença o queria fazer era inútil e ele mantinha-se o meu avô foi pastor subia a serra todos os dias e comia pão com cebolas
a minha avó perguntava-me pela namorada passados anos pela noiva passados anos perguntava-me quem tinha morrido passados anos sorria-me confundida pelo tempo e pela diferença tristonha no sorriso de ambos quando nos abraçavamos e trocavamos olhares sou um monge urbano cheguei a dizer-lhe um monge duma nova era pensei para com os meus botões em todos os momentos poucas mulheres me saboreavam mais negro do que o negro das roupas o meu semblante carregou-se para sempre com a tristeza da vida com os sonhos sem frutos com as nuvens destruídas pelo vento
sentado no meio do bulício citadino deparei-me como de costume com imagens aldeãs o macho puxando a carroça a caminho do posio a porca encaminhada por uma vara de marmeleiro a caminho da cobrição as galinhas picando o chão no meio do caminho na cidade estas imagens têm paralelos intensos de realidades tangíveis a olho nú quando vemos o progenitor empurrando o carrinho de bebé com uma ou duas crianças a caminho do posio da vida a mulher nos vintes com um vestido de algodão curto que lhe acompanha o corpo na alegria e na procura do desejo e os outros muitos deambulando pelas ruas vasculhando o lixo das esquinas e dos contentores sentado no meio do bulício citadino vejo-me pequeno como um pardal de telhado
a minha alegria: respiram por mim, num esforço que reconheço ignorando. reparo agora no tempo imenso que ganho. ganho o tempo suficiente para me inteirar da verdade e fazer dela minha e criar a nova verdade. e afirmar, ignorando, que quem respira por mim só perde e só desiste e não vê o sonho como o sonho me vê a mim: numa invenção pura.
a mim não me interessa o que pensas quando pensas. para mim o mundo é tão lindo quanto a lindeza que encerro em mim. não morro de amores por mim nem por ti nem por ninguém. o vasto lugar onde moro é tão ignóbil quanto o seu verdadeiro dono. e todos os verdadeiros donos dos lugares vastos vizinhos deste, são-lhe parecidos e isso não me admira. para mim o mundo é uma imagem disforme que me magoa os olhos e me fere o cérebro. já pouco dado a sensibilidades destas, o meu espírito apronta-se para um partir permanente... e esse aprontar arruma-se um pouco quando olho a vida e quem depende de mim... ou quem dependerá de mim... de quem tem medo de mim... ou, tão simplesmente, quando miro os olhos tristes do meu corpo ao espelho, afogando-se.
Enquanto olho para dentro e admiro o comportamento do intestino delgado e a importância que, para a minha sobrevivência, ele representa, penso que a vida nas entranhas do tempo é algo de miserável. Eu, pequeno burguês, sem extremos, ordinário e amoral, penso! E este facto, o do pensar, admira-me mais a mim do que a qualquer das entidades que se me dirigem diariamente ou nem por isso. E, contudo, eu penso mal! Ou não sei pensar... se pensasse e agisse em conformidade, poderia estar em casa durante dias e mais dias e só sair à rua quando ninguém se me atropela à frente e olha para mim com um olhar de diferença, que aceito enquanto diferente, mas cujo conhecimento directo dispenso. Ser exposto à convivência forçada não me está nos neurónios que ainda me restam.
Existem pessoas com quem gosto de estar, porque se não intrometem com o meu caminhar nem com a côr do meu pensamento. Existem pessoas que mesmo longe, são sempre as que mais conversam comigo.
Contudo, tenha-se a certeza de que sou um bicho que foi acossado... e prefere a toca solitária às gentes que fazem de qualquer um um amigo.
ri que eu choro. chora para eu rir contigo a fortuna perdida no buraco negro da noite.
olá a ti!
a ti, eu digo, que Lisboa tem amanhecido com o céu limpo e me tem oferecido manhãs quentes e de sol contente. mais contente do que eu. sorridente, enquanto sinto a tua lonjura. tu estás longe. sinto que não te aproximarás. sinto que não serás menos do que uma lembrança ou mais do que sentimentos acumulados numa gaveta à mão, do enorme armário que é a memória.
a ti, pergunto-te, como estás? sinto instantes em que a pulsação cresce e se torna violentamente rápida. como estás, tu? esses lugares estranhos e imundos por onde tens andado, que vidas e experiências te trazem, se não um misto de esquecimento e embriaguez?
a ti, repito um olá! outro olá! mais estou cheio de vontade de o repetir ao Tejo do que ao vento na esperança de que me ouças. parece-me que o Tejo saiba melhor onde encontrarás estas letras agrupadas do que os sopros agitados da estrela solar.
a ti, digo adeus, como se fora um até já. sorrio um pouco e penso que me amarás sempre como eu te amo agora, que me esquecerás todos os dias em que te lembres de nós: presos num só laço de saudade.
a porra desce de vaga em vaga a rua.
nas diferentes vagas de gente diferente que, na rua, desce.
a porra desce.
as vagas separam-se por mílimetros e distinguem-se pelo cheiro.
os perfumes dependem da porra, que, nas diferentes vagas, cheira de maneira diferente.
a porra desce a rua que sobe em sentido contrário.
desce, de vaga em vaga, sem vergonha de quem sobe.
no intervalo das vagas, aproveita, a merda, para subir a rua.
de vaga em vaga, choca com a porra e gritam!
PORRA! MERDA!
e assim existe um povo.
venho anunciar o fim! o fim dos dias em que me possa ter sentido enclausurado a uma vida. percebo, tão só, que a vida é uma clausura permanente, e que, a vivê-la, tenho apenas que encontrar os espaços simples e limpos de cheio.
uma amiga de quatro patas olha para mim, faço-lhe festas. o vento, correndo nos corredores urbanos, parece querer fazer cair o mundo dos mais pequenos. a negrura do céu é mais feliz pelas nuances brilhantes dos dias.
anuncio, portanto, o fim dos dias de clausura irreal. anuncio, contente, a tristeza do incontável. a serenidade abate-se sobre a mente perturbada deste que vos diz: anuncio o fim dos dias de medo!
amanhã comemora-se o 25 de Abril de 1974, alguém se lembra?
é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. não te deixes adormecer. é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! não te deixes enganar... abre os olhos! vê quem te persegue. ZOMBIES! vê quem te atinge o pensamento! líderes duma nova ordem, sem justiça nem verdade. é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! não nos deixaremos adormecer! é preciso uma revolução. uma revolução!
a competição abrupta e violenta dos factos! e os factos que competem entre si... como lebres correndo para uma meta que só elas determinam quando lá chegam... vencedoras, orgulhosas... felizes. nunca mais me preocuparei com isso. o meu destino está traçado. acabou. deixarei de fazer parte da vida de todos aqueles que me prenderam a um ideal... mas continuarei presente, enfermo... engolindo em seco... à vida dos outros que me fizeram ser o que sou.
os factos... a visão das águias assassinando. a visão das águias morrendo. a visão dos carneiros assassinados. a visão dos lobos disfarçados.
afasto-me, triste, por não poder levar comigo um sorriso. estou preso a tão poucos fios... que sempre foram a minha corda... que deixaram de ser a minha certeza em algo menos físico, menos real.
o silêncio que se demonstra e corrompe a felicidade dos que se sentem acomodados à fala, é bonito.
não tenho que dizer mais nada.
convidei-o a entrar e mesmo antes de olhar já dizia: bela casa! excelente antro arranjaste! tens dinheiro para isto? meteu o nariz em todo o lado, sem olhar, deixando uma rasto de água pela casa toda. sentou-se no sofá, ainda com a gabardine vestida, e disse: fode-me!
i am quiet, sleepy and unconscious. there's no recognition of whom i am. no revolution.
guardo em mim a incerteza do momento em que perdi o sentido único de estar viva. talvez num segundo apenas se tenha perdido a certeza pobre de que a morte seria sem susto e sem sobressalto. guardo em mim um sorriso tímido do que vivi. disforme no meu chorar. na forma do meu dispensar o mundo do meu novo mundo. um momento entre o começo duma frase e o fim dela. dela... a vida que escorre por um fio. como todas as outras vidas. como nenhuma delas, por esta ser minha e ser a dor quem me acorda e me diz bom dia. chorarei sempre o sorriso que não mostro, por ter perdido os sonhos e os sonhos se terem perdido de mim, numa escuridão cheia de vazio. tenho medo. medo por não poder alcançar o que vi tão perto... tão disforme o mundo que se afasta do meu. estive viva. estou viva. sorrio num choro contínuo a certeza das palavras que me encerraram nesta nova vida. disforme. moribunda em pensamento. livre e em fuga como no tempo em que ser livre era verdade e mentira. e estou presa ao terreno que o mundo me condena. ao mundo que me condena. terreno. etéreo. livre. pedra em pó.
um beijo sereno adormecendo o mundo e esquecendo que a eternidade pode ser a razão única de uma existência feliz a eternidade num espelho confrontando o real e o ideal com a imaginação e a fraqueza de não saber ver.
embalo ao colo o meu menino. no meu colo dorme o menino que amo. afago-lhe os cabelos, ao meu menino, e sinto na sua pele a calma duma criança que não fui! embalo ao colo o meu menino querido. beijo-o, com amor e paixão, pelo rejuvenescer da alma. ao meu colo, dorme o menino embalado no meu coração. sereno e justo, o meu menino, adormeceu faz muito tempo num quarto que acordava com o amanhecer, em que eu entrava para lhe dizer bom dia e beijá-lo numa eternidade de sonho. o meu menino, adormecido ao meu colo, numa noite sem retorno.
um momento depois de acordar, Júlio estava na rua a caminhar para a distância exacta entre a porta do prédio e a paragem do autocarro, que o levaria ao centro da cidade. no autocarro, Júlio, adormeceu a vontade de acordar e deixou-se levar para o centro do mundo. os seus olhos miravam brilhos de ouro rodeando uma esfera negra.
com a cidade dentro de mim, percorro-lhe as ruas e as conversas de vizinhas. chego a um café e sento-me, sereno e sem pensar em mais nada. as torradas chegam à mesa após as ter pedido a uma senhora gorda de avental, que permanece atrás do balcão de um metro e quarenta de altura e tampo de mármore negro. o galão e as torradas são o meu pequeno almoço favorito nos ínicios de dia cinzentos, quando os cheiros são mais claros devido a uma humidade morna. o rapaz púbere que me trouxe os alimentos olhou para mim e não sorriu, apesar de eu o ter feito. apesar de eu desejar que ele sorrisse. convenço-me claramente menos inteligente do que algumas pessoas por não as fazer sorrir. anoto no meu caderno a minha tristeza proclamada: o sorriso do outro. e lê-se: o sorriso do outro faz-me sorrir a mim, homem do real, que olha e vê a pobreza entranhada nos olhos, ao espelho. a senhora gorda de avental e o rapaz púbere que não sorri são mãe e filho duma só relação! são a criação dum homem que deixou de estar presente logo após a satisfação do prazer dentro da mãe que passou a carregar o filho. sentado no café com a luz suficiente para ver e não magoar os olhos, como agora é uso nos novos cafés e áreas de consumo de semelhante tradição, escrevo que esse homem foi o único homem da vida sexual da senhora gorda de avental. na verdade a vida sexual da mãe do rapaz púbere que não sorri morreu após a sua concepção. no bairro já não mora quem sabe quem foi o amor perdido da senhora gorda de avental e como a cidade traz mais depressa o esquecimento, esta história é um segredo bem guardado nas entranhas ardentes da mãe do filho.
olá! como tens passado? ... pois ............. pois ..................................... sim? ......... quando? ...... mas esse não era aquele que tu dizias ser o .......... não? ... ah! esse era o outro! aquele que tu gostavas que te ......... pois ............................... compreendo! ..... ...................................... ................................................................................. está bem! ......... bom ano! ...... adeus!
se eu te tivesse aqui para te cheirar o cabelo e mergulhar no teu sorriso. se fosse gentil o tempo e me deixasse partir para onde eu nunca fui. fosse eu lá ficar e seria menos assim, como hoje. entre verdade e choro, a mentira raramente sorri, e fica entre a mediana coragem de resistir ao tempo... e o estar muito alerta. se eu te tivesse aqui para eu saber que me podias cheirar o cabelo e mergulhar no meu sorriso. aqui como se fosse o sítio de onde não fosse preciso sair. estou. sentado. miro as vozes tristes que passam no ar junto de mim. se junto de mim fosse noutra condição... se pudessemos cheirar o cabelo de um e de outro, e deixar de o cheirar por vivermos dentro de um e de outro como num só tempo. se fosse assim longe de todos os prantos e agonias do presente instalado na memória de sempre. desejo abrir a porta de um mundo fisicamente impoluto e pequeno e simples e pobre... e lá crescer o meu sorriso e o teu, cheirando contigo os cabelos lavados do acordar... sonhar contigo o minuto a seguir e não mais que o minuto a seguir. e saber-me, enfim, rico de glória e estima. sentado. escrevendo. em silêncio a tortura dos anos antigos. se eu te tivesse aqui para te olhar e sorrir...
hei! tu aí! hei! chega aqui! quero dizer-te que tás queimado. um dias destes vais mais pesado para casa com um carrego de porrada. os dias já não são como antes e tu não me pareces de confiança. por isso, vais apanhar um valente enxerto, como exemplo e para ninguém te tentar assemelhar. estou farto de bardamerdas que pensam em ser diferentes e insistem em ter comportamentos desestabilizadores. e é isso que acho que tu és e fazes! a tua opinião não tem valor nesta conversa. ninguém sai de casa despenteado num sítio onde todos se penteam.
o homem de azul atravessou a rua em direcção ao homem de castanho e perguntou-lhe as horas. são horas da madrugada, retorquiu o homem de castanho. o homem de azul voltou para o outro lado da rua e gritou de lá: o homem de amarelo nunca chega a tempo de nada, que porra. o homem de castanho atravessou a rua e disse ao ouvido do homem de azul que não gritasse, pois a gente estava a dormir.
o homem de azul assistiu ao regresso do homem de castanho ao lugar inicial e pensou que o mundo era injusto e que, quando o homem de amarelo chegasse, se iria aproximar do ouvido dele e gritar-lhe: isto são horas de chegar!? entretanto, o homem de castanho reflectiu sobre a presença de ambos de cada lado da rua e lembrou-se de algo evidente: as horas de madrugada acabariam dentro de momentos e se o homem de amarelo não chegasse o mundo não seria igual ao que eles tinham previsto, isto é, às horas da manhã não estariam os três homens juntos.
o homem de amarelo ouviu-se, ao fundo da rua, gritando aqui estou!, aqui estou!. acordou gente mas fez sorrir o homem de azul e o homem de castanho, porque ainda eram horas da madrugada e as horas da manhã seriam iniciadas com um trio de homens a olhar-se mutuamente com ar cúmplice e sorriso idiota no rosto.
o homem de amarelo dirigiu-se à porta que ficava no fim da rua e tocou-lhe e sem chave ela abriu-se. fez um gesto convidando os dois homens que o aguardavam a passar a entrada do café finalmente aberta. o homem de azul ainda se lembrou de gritar ao homem de amarelo, mas não o fez e apressou-se em entrar no estabelecimento. o homem de castanho sorria com a certeza do universo se não ter modificado e as horas da manhã se iniciarem com os três homens dentro do café, como previsto.
ao contrário do que se possa supor este café não tem nome tricolor, chama-se "todos os dias" porque abre todos os dias.
enquanto estiveres à espera, a chuva pode tocar-te e sentir-te-ás melhor. o sol virá e irá secar de ti as lágrimas do tempo. sem loucura e sem vontade, tudo parece tão perdido e sem sentido nas nossas vidas. um dia, quando te sentares aqui, nesta cadeira, e baloiçares o tempo com o tempo que tiveres, saberás que nem tudo foi vida e tanto foi morte dentro de nós. foram afastando de nós a ventura e em troca deixaram-nos nas proximidades da amargura eterna.
choro o teu sorriso. choro a tua alegria incontida. choro, de negro, a vida que te tiraram. choro o futuro que não teremos.
sorrio na esperança de um novo sorriso. sorrio a volta dos teus risos. sorrio, de negro, a vida que conquistaste para ti. sorrio para o futuro que seremos.
vocês estiveram lá! estiveram naquele lugar ao mesmo tempo que eu. estivemos lá todos a garantir que era aquele o lugar certo. foi ali, naquele lugar, que estivemos sozinhos em vezes anteriores. não nos iremos esquecer nunca do momento em que nos confudimos com as pedras. e deus nos abençoou como uma rês balindo.
o inócuo silêncio das reses faz-me pensar em deus. deus não existe.
um dia, caminhando devagar por entre os transeuntes aflitos com o tempo, encontrei uma pedra azul. uma pedra azul, um azul azul como não se vê nos dias de hoje pela fabricação dos homens. um azul azul como nas manchas das asas numa borboleta esvoaçando com a nossa presença. uma pedra azul, que apanhei e levei comigo, no bolso, para onde eu ia.
por vezes a última razão para estar aqui é a certeza de não estar em mais lado algum - por triste que seja. muitas questões surgem quando pretendemos sentir a invisibilidade absurda da nossa existência; a sociedade olvida-nos por defeito; a partilha de espaços é incómoda quando a pretensão é invasão.
as flores de inverno são bonitas. as flores de inverno são corajosas e resistentes: tantas vezes sozinhas sobre as rochas.
anseio um brilho no olhar de quem gosto e me gosta assim, triste mas contente com esse leve sorriso de primavera: a esperança.
Apontamento:
acabei de tomar o café e perguntei: o seu trabalho...? o seu trabalho é...? respondeu-me: trabalho num escritório numa rua aqui na zona. sinceramente estou um pouco perdido. um pouco perdido? questionei-me. não sabe nada desta cidade é o que é. mas agrada-me a sua vulnerabilidade. eu? eu sou... sou poeta, trabalho no segundo andar esquerdo de um prédio numa paralela a esta rua. ali mais abaixo, junto ao rio, onde as putas sorriem.
imagino um bigode teu. imagino-o enquanto olho de longe a espuma branca de cerveja preta que bebes. receio o teu sorriso adornado de espuma branca. todas as noites em que estamos sós numa mesa sem sonhos para partilhar nem vida para viver. nós, todas as noites em branco. vai começar um ano novo. é outono no meu sentir. inicia-se sempre um novo ano a cada dia de sol que brilha e me incomoda. é outono sempre que choro e a chuva vem molhar as janelas. o vento solta-se nas minhas ideias e antevejo uma vez as vezes todas que nos iremos despedir num até já sentido como um permanente adeus. e o afastamento dos dias de um futuro sonhado já sem esperança: mutilado e enfermo: sem carne.
estou mudo. a visão perturbada pelo outono. o vento que leva os sons para longe. tento tocar-te em sangue. já não cheiro o teu perfume nesta noite branca de silêncios falsos e corrompidos pela astúcia do criador. fora de mim não tenho razão e em mim não sou por estares ausente.
meu amor, esta noite é a noite de todas as noites solitárias e vazias. meu amor, este outono parece ser para sempre como se fora o passado outono da minha vida inteira. meu amor, suspiro ruídos de horror por não saber porque o sol me irá incomodar tanto amanhã quanto hoje. e as minhas janelas deixam escorrer a chuva intensa que se abateu sobre a minha consciência.
confirmo que o outono é perene. e a minha vida quando for finda deixará o tempo assim. as recordações do silêncio serão um reflexo outonal de janelas molhadas. de mim não restará nada para além de letras do imaginário fácil que construí.
imagino o fim do mundo sem significado. o fim do mundo será o mundo que sobrar. e as sobras do mundo inteiro é já o mundo que existe, pois nele não cabe o que somos. e o fim do mundo não será de todo notado pelo mundo.
meu amor, preciso menos do ar que de ti e só por ti me permito respirar as doenças que não transgridem leis algumas e são a verdade dos tantos que nos dizem enfermos. meu amor, só os animais e as flores nos pressentem. meu amor, só as crianças nos devolvem a certeza de contentamentos a esquecer na idade adulta. meu amor, é outono e sinto medo de olhar o sol por dentro e não sentir o fogo matar-me.
um só suspiro. um só olá. fomos belos e fáceis de encantar. amaram-nos, pensavamos. um só abraço e a vida ali ficava prostrada para sempre. uma eternidade prometida. um só adeus e um só sorriso eram promessas de amor. hoje, o vazio da dor e da loucura. um só sentido de esperança.
não acredito em nada. todas as mentiras são a mais pura verdade na boca de muitos: tantos: de mim. silencio o que penso. se dissesse o que penso, niguém ouviria a verdade. tenho receio da loucura e da diligência fácil do suicídio. não leio as palavras todas para ir acertando no que querem dizer, para lhes extrair, em algum momento, o conteúdo real. não acredito que me digam a verdade. a verdade é tão real como deus à sombra de um sobreiro.
o tempo ignora. o movimento uniforme da sua passagem não obedece a uma ordem singular. o tempo não volta para trás. o tempo anda para a frente como se fosse essa a única direcção a tomar. o tempo ignora. o tempo nunca soube. aquela mulher. sim, aquela mulher, ela sabe e não esquece e vê o tempo. em ignorância. esquece-a. sentado, num mocho com as pernas cortadas, o homem vagueia o olhar pela rua e sente na sola dos pés o tempo a passar. os joelhos fracos. a insegurança de não saber se poderá caminhar da próxima vez que se levantar. o tempo ignora. se chover talvez haja esperança de um tempo mais solidário e amigo e justo. arde o tempo. na rua de baixo, às portas da praça, os cães e as cadelas arrefecem à sombra. quando passa um desconhecido fingem dormir sob o jugo do calor do alcatrão em volta. o tempo ignora. os cães e as cadelas não. sentem e relembram a cada cheiro a sua vida. as festas e os pontapés que receberam. a cada cheiro. o tempo ignora. os animais lembram. e a lembrança fá-los velhos. aos poucos, enquanto o tempo passa.
ontem... sem hoje nem amanhã! ontem! e o abraço triste de um dia sem futuro e com o presente ausente.
só uma coisa: o que prefiro para mim... na arte... é escritor... faço crítica porque sim!... escritor.. soa bem, não é? poucos acreditam que sim... que sou.. que serei.. hoje não sou... mas quero ser. ou tenho que deixar de fazer crítica para terem noção de que só escrevo ficção e então ser adjectivado jovem escritor.. alguém que quer chegar a... etecetera...???
as incertezas. as dúvidas. as questões.
a verdade subjacente. a verdade escondida. a verdade calculada.
e depois, continuamos a caminhar o mesmo caminho; ou viramos numa das curvas: para que as sombras desapareçam.