o rio vermelho em posição parado imóvel metafísica da imobilidade que nada está imóvel se não de facto o rio vermelho que já não é rio e segundo muitos nunca foi mas agora é apenas um fio de água sem crianças à beira sem a alegria dos namorados nem a vertigem do caminho em direcção ao futuro que é já a seguir
o rio vermelho continua morrendo por este leito de agonia
um passo entre a luz e a sombra prefiro a sombra porque intui a luz e ainda assim se mantém escura um passo entre a luz e a sombra onde o corpo fecunda polinizando ou é fecundado por pólen
o corpo esquece-se em qualquer lado como uma pedra igual a outra excepto se for uma pedra azul se for uma pedra azul vai para o bolso ou para um recanto protegido do caminho ponho-a lá de propósito sim posso fazer dela uma sopa azul enquanto imagino a sombra no corpo ou a cópula orgânica da sombra com a luz
sei que assim a luz ganha mais poder mas tantas vezes precisamos saber o que os olhos falam choram gritam esmiuçam ao pormenor a dor que lhes vai por dentro
não não me esqueci da pedra azul só não tenho nada a dizer sobre a pedra azul posso adiantar talvez que o que interessa não é precisamente o azul mas sim a cor qualquer cor que se distinga da generalidade cinzenta das pedras com que as nossas plantas dos pés interagem pisando tropeçando
no corpo regista-se o tempo com rugas portanto na pele o cheiro na memória que sim que é menos digna de registo porque se pode apagar involutariamente num clique horrível eu lembro-me que me lembrava mas agora já não
[...]
dançaste então! com os mortos em redor.
não me explicas a existência? o sentir das almas num repositório animado pelos olhos e lágrimas dos vivos? a existência que deixaste para trás ou lá para frente, se a morte for tão só um retroceder ao ponto de partida.
não me dizes do ar que se respira, húmido e fresco, por entre o verde e o azul e as pedras velhas, sobreviventes da história e à história que tantos contam? já mortos tantas vezes, com gemidos insistentes nas dobradiças de portas de madeira centenária.
passa por essa estrada. agora. neste momento como se fosse o nunca. e este é o nunca nos conhecermos e, afinal, é uma mentira toda esta coisa que se escreve e confunde com o sangue que corre nos corpos animais.
[...]
se dançares fecha os olhos, esse crisântemo é a imagem do coração adormecendo.
choro. agarro-me ao teu braço e choro. compulsivamente é a palavra. o teu belo braço. choro. molho-o e seco-o. ao teu belo braço. impulsivamente. não quero salgar o doce. que prefiro. ai, que dilúvio é este choro. afasto-me do teu braço. agarro o teu braço. choro. como é bom o teu braço. no guizado com batata nova.
se me reflectires o desejo do passado e do futuro que nunca esqueço tu és o que nunca foste nem serás num presente imundo de barro e água meu amor minha amora silvestre encantada em bagos baguinhos de ácido e cor
trejeitos dos lábios quando estalas a língua no palato e sentes viva ainda a larva de inúteis sons palavras a sair da tua cabeça pesada leve leve pesada quando se repetem qual martelo martelando um prego de 20 centímetros em madeira velha amarga
quão triste o presente esse imaginado mundo em que almejamos mas não alcançamos empurramos a dor para a frente sem que se separe de nós corpos almas espíritos convencidos de qualquer desgraça e graça rimos ao espelho em convenção de saliva acumulada e branca às vezes amarela qual transparecer de raiva ineficaz mordemo-nos a nós mesmos para sacrificar o mundo de micróbios que transportamos por essas ruas e transportes públicos somos em nós doença e salvação públicas
[...]
quando dançares lembra-te dos pés dos levantares dos trazeres até mim depois vamos deitarmo-nos num abraço de paixão
"deus não existe". sabes quantas vezes o disse e o escrevi? que enfado, não é? cada vez que o escrevi dizia, mas nem todas as vezes que o disse o escrevia. baralhamos as contas todas e a ignorância permanece estrutural e aconchegante para o conhecimento necessário. "deus não existe" é uma frase que me sossega. tenho para mim a vontade de acreditar que não existo.
enquanto o frio torna duros os sentires do corpo fumo cigarros numa alusão clara à minha vontade de te chupar os entumescimentos que demonstres ou me queiras explicar por palavras líquidas com sabor a mar e cheiro a deserto de suores sobre suores sem lavagem nem perfumes para além dos da decomposição acelerada das emoções
do frio e da minha erecção não tenho nada a dizer para além de um se impregnar e da outra não existir ainda assim lembro-me de como foi bom amar-te numa noite de verão que se repetiu por outras noites que atravessamos pelo outono e inverno seguintes
estou disponível para o teu abraço estou disponível para o teu beijo estou disponível para a tua palavra de saudação estou disponível para quase tudo isso que pensaste agora o resto nem eu sei se existe
| ontem. um breve momento. hoje. logo cedo. junto ao Tejo. pelas 00h30 ou depois. antony e um johnson (?) e as coco rosie. antony. no começo do dia. obrigado pela voz. pelo calor. obrigado antony. obrigado coco rosie por o trazerem convosco. o antony poderá salvar-me muitas vezes. se calhar tantas quantas já me salvou antes. discretamente. secretamente. talvez por não haver razão. e se a houver nem preciso saber.
vê-lo actuar concretizou muito. para a próxima deixem-no trazer a banda. love be with you |
foste o meu alimento durante a nossa vida e quando a tua respiração cessou consolei-me com o mundo à espera e ofereci-lhe os teus ossos
fecharam as portas às 3h fomos para a rua e caminhamos calçada acima uma porta convidou-nos a entrar entramos dentro da porta encontramos uma festa e dançamos adormecemos nas estrias da madeira acordamos com o sol na cara entrava na porta pelas imperfeições da capa de tinta verde quisemos partir mas o tempo passou depressa velhos e cansados ficamos para ver o mundo passar na calçada