tão belo o estertor
os espasmos
a debilidade da alma
e o abandono do corpo
a tua flor na haste
o nosso amor em
fruto madurando
amanhã
o melro com a larva no bico
e a negritude no semblante da viúva
com a criança ao colo berrando
no frio da madrugada
e ainda o cheiro a maresia
traçando-lhe o destino que
o tornou orfão e rebelde
amanhã
o melro com o presente no sonho
e o negro manto ao largo
com os homens embalando
o pesadelo da terra e das mães
chorando na beira-mar os filhos
sem pedra sobre o túmulo
um dia.
dois dias e meio.
três dias e quatro horas.
a distância.
a percepção do fim dos sonhos.
um caminho pelas nuvens.
dedos de conversa com a criança.
os cabelos loiros encaracolados.
caracois caminhando pelo trilho.
a alma a ganhar forma e o espírito em remissão.
lembras-te como foste?
não.
a espaços imagino-me contente mais contente digamos. a espaços sorrindo e mais coerente com os desenhos que fiz em criança. do fundo do poço ainda ouço os pássaros e recordo-me que voam.
num olhar sereno
o olhar efémero da paixão
adivinhada solitária
*
junto à mesa central da cafetaria
passam céleres as gaiatas rindo
umas com as outras de umas e outras
em gargalhadas sucessivas de calores
da véspera dançante e roçagante
dos corpos crescidos de desejo
*
senhor doutor sentado olhando
que me diz deste mundo renovado
destas meninas respirando
digo pouco com a certeza
de o senhor doutorando não ter
reparado nos meninos gargalhando
no canto sobre a véspera do dia
*
outro olhar realiza sonhos
no mesmo assunto e afasta
da mente a vontade mas
linda não sobreviverá ao dia
é dia. começa o sol a perturbar a minha memória efectiva. e esqueço-me. esqueço e vivo. é dia. começo de novo as tarefas sempre iguais, sempre diferentes. o sol perturba a minha memória efectiva: como uma fotografia que se desvanece.
Maria Júlia era já uma senhora. Casada. Filhos? Talvez, se sim penso que não interessam a esta história. Nos fins da década de 50 do século defunto recente, decorria um ano como outro qualquer debaixo das ordens dos senhores GNR e, finalmente, vinha aí o entrudo. O Alentejo, o baixo, mais se assemelhava a uma só imagem de um quadro naturalista, já com a terra aberta ou ainda com as charruas e os machos passando por ela. Anunciava-se um ou outro raio de sol nos dias enregelados, as manhãs acordavam com geada acumulada nas pontas das poucas ervas na beira dos caminhos ou nas teias das esmeradas aranhas que tapavam os buracos na terra lavrada.
abraços cumprimentos (nas cartas) e apertos de mão
o resto escusa-se na sociedade que teme
o preconceito e se protege longe: beijos não
juntos com o espaço à espera de um vazio que se comprometa com a morte do amor. enverga o teu fantasma e deixa o teu corpo para outras núpcias. tu e tu, dois seres, juntos esperando que o espaço se preencha com outro tu qualquer. deixa o corpo para o temor dos outros não presentes.
quero contar-te. o velho surgiu da penumbra e disse quem era. ouvi e guardei para mim esse segredo.
maria júlia viveu no Alentejo. durante muito tempo o entrudo foi festejado de uma forma próxima às pessoas.
uma noite. uma lâmpada. um palhaço. o entrudo.
não encontro a faca. a faca perdeu-se. e o sangue foi-se embora... por aquela porta. o sangue. o meu sangue, do teu ventre. o nosso sangue. perdi a faca. onde meti a faca? perdi a faca. ia a caminho do quintal e perdi a faca. o sangue eu vi, saiu. estamos sós.
aqui nesta praia do norte sinto os pelos eriçados e a pele seca como papel caro amigo quando voltares traz abafos e o teu calor teremos que nos encontrar nas horas da noite tu e eu iremos juntos caminhar pelos serros que aqui se acabam qual moleiro e seu companheiro pelas aldeias recolhendo grãos de vida traz abafos e o teu calor que estas gentes se perderam há muito tempo quando lhes disseram que a vida era deles e acreditaram que a vida era deles como se nós fossemos uns estranhos ao coração dos bichos e os bichos deixassem de ter coração e nós morressemos definhados nesta praia do norte amigo o frio é intenso traz lã e amor
tens tu na vida um sol
para encantar bela um olhar meu
ai, que tens tu na mão agora
que me ofuscas serena
ai, é um gladíolo amor branco
és tu como em flor serias
canta embala o teu menino mulher
cândida de tez qual neve e ardor
neste prazer nosso tão grande
a tua mão Honoré a tua pena na tua mão e a tua mão preenchida com um seio lindo e carregado de amor materno e ansioso por te dar a ti e a quem mais aparecer o outro amor carne e carregado de odor.
sinto o abandono do território. estamos a entrar em período seco, para além da secura que sempre se viveu. a chuva é intermitente e irrisória para as necessidades. poderíamos começar a importar chuva. talvez saísse mais barato, desde que não pagassemos IVA na origem: o consumidor final que se lixe.