11 de março, 2004

para um recado ...

tão belo o estertor
os espasmos
a debilidade da alma
e o abandono do corpo

Escrito por rainsong às 00h08... | Comentários (5)

10 de março, 2004

para uma nota de rodapé

a tua flor na haste
o nosso amor em
fruto madurando

Escrito por rainsong às 10h05... | Comentários (2)

9 de março, 2004

n, como em neblina

amanhã
o melro com a larva no bico
e a negritude no semblante da viúva
com a criança ao colo berrando
no frio da madrugada
e ainda o cheiro a maresia
traçando-lhe o destino que
o tornou orfão e rebelde

amanhã
o melro com o presente no sonho
e o negro manto ao largo
com os homens embalando
o pesadelo da terra e das mães
chorando na beira-mar os filhos
sem pedra sobre o túmulo

Escrito por rainsong às 22h30... | Comentários (0)

8 de março, 2004

para uma carta (incompleta)

um dia.

dois dias e meio.

três dias e quatro horas.

a distância.

a percepção do fim dos sonhos.

um caminho pelas nuvens.

dedos de conversa com a criança.

os cabelos loiros encaracolados.

caracois caminhando pelo trilho.

a alma a ganhar forma e o espírito em remissão.

lembras-te como foste?

não.

Escrito por rainsong às 23h11... | Comentários (3)

this is

the end of the world as we know it!

Escrito por rainsong às 15h32... | Comentários (2)

5 de março, 2004

felicia

a espaços imagino-me contente mais contente digamos. a espaços sorrindo e mais coerente com os desenhos que fiz em criança. do fundo do poço ainda ouço os pássaros e recordo-me que voam.

Escrito por rainsong às 12h01... | Comentários (1)

s, como em seda

num olhar sereno
o olhar efémero da paixão
adivinhada solitária
*
junto à mesa central da cafetaria
passam céleres as gaiatas rindo
umas com as outras de umas e outras
em gargalhadas sucessivas de calores
da véspera dançante e roçagante
dos corpos crescidos de desejo
*
senhor doutor sentado olhando
que me diz deste mundo renovado
destas meninas respirando
digo pouco com a certeza
de o senhor doutorando não ter
reparado nos meninos gargalhando
no canto sobre a véspera do dia
*
outro olhar realiza sonhos
no mesmo assunto e afasta
da mente a vontade mas
linda não sobreviverá ao dia

Escrito por rainsong às 10h55... | Comentários (0)

who are you?

é dia. começa o sol a perturbar a minha memória efectiva. e esqueço-me. esqueço e vivo. é dia. começo de novo as tarefas sempre iguais, sempre diferentes. o sol perturba a minha memória efectiva: como uma fotografia que se desvanece.

Escrito por rainsong às 10h23... | Comentários (0)

4 de março, 2004

drop

Maria Júlia era já uma senhora. Casada. Filhos? Talvez, se sim penso que não interessam a esta história. Nos fins da década de 50 do século defunto recente, decorria um ano como outro qualquer debaixo das ordens dos senhores GNR e, finalmente, vinha aí o entrudo. O Alentejo, o baixo, mais se assemelhava a uma só imagem de um quadro naturalista, já com a terra aberta ou ainda com as charruas e os machos passando por ela. Anunciava-se um ou outro raio de sol nos dias enregelados, as manhãs acordavam com geada acumulada nas pontas das poucas ervas na beira dos caminhos ou nas teias das esmeradas aranhas que tapavam os buracos na terra lavrada.

Escrito por rainsong às 18h56... | Comentários (0)

pia baixinho

abraços cumprimentos (nas cartas) e apertos de mão
o resto escusa-se na sociedade que teme
o preconceito e se protege longe: beijos não

Escrito por rainsong às 13h03... | Comentários (7)

para um recado ..

juntos com o espaço à espera de um vazio que se comprometa com a morte do amor. enverga o teu fantasma e deixa o teu corpo para outras núpcias. tu e tu, dois seres, juntos esperando que o espaço se preencha com outro tu qualquer. deixa o corpo para o temor dos outros não presentes.

Escrito por rainsong às 11h57... | Comentários (0)

2 de março, 2004

notas

quero contar-te. o velho surgiu da penumbra e disse quem era. ouvi e guardei para mim esse segredo.

maria júlia viveu no Alentejo. durante muito tempo o entrudo foi festejado de uma forma próxima às pessoas.

uma noite. uma lâmpada. um palhaço. o entrudo.

Escrito por rainsong às 23h27... | Comentários (0)

humores

clique e viaje até ao site de Ivan Cabral

Escrito por jm às 23h03... | Comentários (0)

para um canto de uma página usada

não encontro a faca. a faca perdeu-se. e o sangue foi-se embora... por aquela porta. o sangue. o meu sangue, do teu ventre. o nosso sangue. perdi a faca. onde meti a faca? perdi a faca. ia a caminho do quintal e perdi a faca. o sangue eu vi, saiu. estamos sós.

Escrito por rainsong às 12h50... | Comentários (1)

para uma carta .

aqui nesta praia do norte sinto os pelos eriçados e a pele seca como papel caro amigo quando voltares traz abafos e o teu calor teremos que nos encontrar nas horas da noite tu e eu iremos juntos caminhar pelos serros que aqui se acabam qual moleiro e seu companheiro pelas aldeias recolhendo grãos de vida traz abafos e o teu calor que estas gentes se perderam há muito tempo quando lhes disseram que a vida era deles e acreditaram que a vida era deles como se nós fossemos uns estranhos ao coração dos bichos e os bichos deixassem de ter coração e nós morressemos definhados nesta praia do norte amigo o frio é intenso traz lã e amor

Escrito por rainsong às 12h27... | Comentários (1)

para um postal .

tens tu na vida um sol
para encantar bela um olhar meu

ai, que tens tu na mão agora
que me ofuscas serena
ai, é um gladíolo amor branco
és tu como em flor serias

canta embala o teu menino mulher
cândida de tez qual neve e ardor
neste prazer nosso tão grande

Escrito por rainsong às 12h03... | Comentários (0)

para um recado .

a tua mão Honoré a tua pena na tua mão e a tua mão preenchida com um seio lindo e carregado de amor materno e ansioso por te dar a ti e a quem mais aparecer o outro amor carne e carregado de odor.

Escrito por rainsong às 11h54... | Comentários (0)

i can't hear you

sinto o abandono do território. estamos a entrar em período seco, para além da secura que sempre se viveu. a chuva é intermitente e irrisória para as necessidades. poderíamos começar a importar chuva. talvez saísse mais barato, desde que não pagassemos IVA na origem: o consumidor final que se lixe.

Escrito por rainsong às 11h46... | Comentários (0)