16 de janeiro, 2004

vitesse

falaremos das coisas bonitas no dia bonito. falaremos e seremos confrontados com opinião diferente: dirão de nós que falamos de coisas feias em dia feio e, ainda, acrescentarão: que gente feia esta. sorriremos entusiasmados entre nós e, os outros, dirão de nós: tontos!

o dono da papelaria deseja apelar ao bom gosto e faz chegar até ele, sobre a bancada de madeira, três esferográficas de modelos recentes. estas são as melhores que temos, lembra-se das bic? estas são tão boas e mais bonitas. o óbvio simplista, corredor para objectivos simples, lamentou-se da perda de tempo e disse: foi uma bic que pedi. o dono da papelaria resignou-se atento ao cliente louco, que ainda rondava por ali na rua.

no fundo, à esquerda, o subterrâneo aguarda o atravessamento. os dois sentidos vigiados pelo ódio e pela paixão. atravessai o subterrâneo, ali à esquerda, ao fundo. numa parede uma prece: ama-me, por baixo: odeio-te. na outra parede lê-se: o pai, o filho e o espírito santo são os salvadores, a que lhe foi acrescentado: e comeram-se numa noite de inverno. a antropofagia passa por necessidade quando não temos mais.

Escrito por jm às 21h36... | Comentários (4)

para um regresso

a chuva acompanhou o teu enterro
o sol anunciou o teu esquecimento

Escrito por jm às 17h25... | Comentários (2)

13 de janeiro, 2004

por Angola, pela amizade, por um futuro livre

por uma Angola livre e não humilhada. numa Angola que não será liderada por José Eduardo dos Santos e o seu séquito. contra os portugueses que continuam a insistir em partilhar a mesma mesa com homens de Angola; homens que vilependeiam Angola e a destróiem.

José Eduardo Agualusa escreveu na Pública de ontem, a seguinte crónica:

«A POLÍTICA REAL DOS CASAMENTOS
Domingo, 11 de Janeiro de 2004

Na generalidade dos países a classe política divide-se entre o governo, os apoiantes do governo e a oposição. Em Angola não existem apoiantes do governo. Aliás, a bem dizer, nem sequer existe um governo. Todo o mundo está na oposição. A oposição critica os ministros e o Presidente. Os ministros criticam-se uns aos outros publicamente e, em privado, criticam o Presidente. O Presidente critica a oposição, critica os governadores, critica os ministros todos. Também não há aquilo a que noutros países se chama Estado. Num gesto de extraordinária clarividência política José Eduardo dos Santos tratou, ao longo destes últimos anos, de extinguir o Estado. Em lugar das instituições do Estado existem hoje uma série de prósperas empresas privadas, nas áreas da educação, higiene, comunicação, saúde e segurança, ligadas ao Presidente, à família presidencial, designadamente à Primeira Filha, ou a pessoas da sua maior confiança. Não havendo Estado fica o país protegido desse mal tão comum a sul do equador - os Golpes de Estado. Foi, estou em crer, um golpe de génio.

Li atentamente alguns dos artigos que apareceram na imprensa portuguesa criticando, ou apoiando, o primeiro-ministro Durão Barroso por ter aceite abrilhantar, em Luanda, o casamento de uma das filhas de José Eduardo dos Santos. Vários articulistas manifestaram a sua indignação pelo facto de um presidente de esquerda desperdiçar tanto dinheiro numa cerimónia de casamento, quando, em Angola, milhares de pessoas sofrem com fome. Este qualificativo, "de esquerda", há-de ter irritado Eduardo dos Santos mais do que a fome alheia. Caramba!, ele deu-se ao trabalho de organizar aquele faustoso casamento, trazendo de Lisboa todo o jet-set português (seja lá o que isso for) precisamente para se demarcar da esquerda. Erros da juventude. O primeiro-ministro Durão Barroso sabe bem do que falo. É verdade que a bandeira angolana, ainda em vigor, apesar do parlamento ter já aprovado uma outra, exibe símbolos, digamos, comunistas. Mas isso é puramente uma questão de amor à moda, é fashion - soviet chic. Também se diz que se a nova bandeira ainda não tremula ao vento, nos edifícios públicos, é porque se torna cada vez mais difícil distinguir os edifícios públicos dos privados.

Já o director do Expresso, José António Saraiva, entendeu apoiar o primeiro-ministro português. Na opinião de Saraiva o importante é que Portugal mantenha boas relações com Angola, país com o qual terá muito a lucrar num futuro próximo, e a forte amizade que liga Durão Barroso a José Eduardo dos Santos é a melhor garantia de que esse futuro de bons negócios está assegurado. O director do Expresso só lamenta que o Presidente angolano não tenha mais filhas em idade de casar - e já agora, acrescento eu, dispostas a unirem-se a cidadãos portugueses. É todo um original projecto político que aqui está desenhado. George Bush, por exemplo, teria feito melhor em casar a sua filha com um dos filhos de Saddam Hussein. Evitava-se o derramamento de sangue, bem como todos os custos políticos e económicos resultantes de uma guerra em larga escala, e assegurava-se na mesma o acesso ao petróleo iraquiano.

Se José António Saraiva lesse o Expresso saberia que existe em Luanda uma aguerrida imprensa independente. Se lesse essa imprensa saberia que o casamento da filha de José Eduardo dos Santos foi muito mal recebido pela generalidade dos angolanos. Acreditará José António Saraiva que é possível a Portugal manter boas relações com Angola, a longo prazo, desrespeitando e humilhando os angolanos?

Mais tarde ou mais cedo haverá eleições em Angola. O partido no poder não tem já forças para contrariar o processo de democratização. Enfrenta, por um lado, o renascimento da sociedade civil. Confronta-se, por outro, com as correntes renovadoras dentro do seu próprio seio, e se é certo que estas ainda se mostram muito frágeis, também me parece óbvio que começam a perder o medo. Até lá - às eleições - muita coisa pode ainda acontecer. Em democracia nada é certo. Os amigos de Durão Barroso, por exemplo, podem perder o poder.

Salvo uma ou outra honrosa excepção os dirigentes políticos portugueses não gozam em Angola de grande respeito. Nunca souberam dar-se ao respeito. A impressão que os angolanos têm, e que artigos como os de José António Saraiva reforçam, é que os dirigentes e empresários portugueses estão apenas interessados em bons negócios. A isso não se chama amizade.»

Escrito por jm às 10h33... | Comentários (25)

bush is to be defeated

Escrito por jm às 10h05... | Comentários (0)

11 de janeiro, 2004

para o regresso

ao som do vento

Escrito por jm às 01h53... | Comentários (4)

compagnons de mauvais jours

hoje, fui conhecer um pouco da obra de Jacques Prévert. comecei vendo a peça de teatro infantil Guignol, no Teatro Taborda, pelos Artistas Unidos. À noite, fui à Abril em Maio ouvir algumas das suas canções.

Escrito por jm às 01h51... | Comentários (0)

9 de janeiro, 2004

anxiety

Element of Surprise, 2001
©Viggo Mortensen

Escrito por jm às 11h24... | Comentários (7)

8 de janeiro, 2004

dos dias presentes

porque chove e faz frio
e o quente não chega

porque o mundo é injusto
e a incerteza é a alteração das coisas

porque a vida parece resvalar
no momento inesperado

porque olhamos em volta
e é negro o espectro

sentamo-nos
crentes em nós
(única força)

Escrito por jm às 19h13... | Comentários (3)

earth and mankind

as entranhas da erva
e o poder da carraça
dois mundos ligados pela vida

Escrito por jm às 11h24... | Comentários (0)

lembras-te?

untitled21.jpg

Angelito Mexicano, ©Graciela Iturbide

Escrito por jm às 11h19... | Comentários (2)

7 de janeiro, 2004

escritores na net (update)

e, de repente, salta-me na net um autor publicado na Quasi

José Rui Teixeira

destaco o segundo post do poeta, 10 de Dezembro, onde está a vida dele toda!

já está na lista dos escritores na net

Escrito por jm às 12h32... | Comentários (3)

aos da vanguarda

sabes, gentil, o cromado
frigorífico dos apliques
nos automóveis está fora da moda
titânio ou azul tunning
na incapacitante ignorância dos ébrios.

gentil, alma tua
que me refresca como sumo de laranja e limão
vindo dessa fonte fresca definida
pela electricidade do mundo moderno.

vens tu de onde?, pergunto
ao gelo ausente do enregelado absinto.
virás de cromados e metalizados frigoríficos
com a internet à distância de um toque tão perto.

prefiro os mamilos do teu corpo,
gentil, tocando-lhe para descobrir o teu calor
dentro sem cromados nem titânios
zumbido-me na cabeça veloz.

Escrito por jm às 11h20... | Comentários (0)

poesia

poesia, Daniel Faria





como um só socorro pode ser ineficaz para ressuscitar uma vida e, no entanto, tão fácil me parece a capacidade de renascer, qual fénix, entre as mentes dos homens.

estou lendo Poesia, de Daniel Faria. foi uma prenda do ano novo.

Escrito por jm às 10h52... | Comentários (7)

6 de janeiro, 2004

Filhos da PUtA - Política de Utilização Aceitável

A TV Cabo, empresa prestadora de serviços exclusivos de má qualidade, remeteu hoje aos seus clientes o seguinte e-mail:

Estimado Cliente, A TV Cabo adoptou uma Política de Utilização Aceitável (PUA) do Serviço NetCabo, que integra regras de boa conduta na utilização da internet, no sentido de promover práticas que não sejam prejudiciais aos subscritores, em geral, e à comunidade de utilizadores dos serviços de internet e, dessa forma, contribuir para a oferta de um serviço cada vez melhor e com mais qualidade. Estas regras entram imediatamente em vigor e são aplicáveis a todos os Clientes NetCabo, pelo que deverá consultar a PUA através do endereço www.netcabo.pt/pua. Com os melhores cumprimentos, TV Cabo Portugal Direcção de Marketing

Existe neste documento uma tentativa deliberada de controlo absoluto das acções dos clientes enquanto indíviduos cidadãos de uma democracia. Existe, com extrema evidência, uma fonte acusatória: a TV Cabo, cuja premissa é não ser responsável por nada que contrarie a sua convenção unilateral.

Temos (utilizadores Netcabo), neste momento, sobre nós a possibilidade de sermos acusados por qualquer entidade ou pessoa de não cumprimento da PUtA e, assim, a TV Cabo, de nos suspender o acesso ao serviço NetCabo.

Escrito por jm às 11h43... | Comentários (8)

4 de janeiro, 2004

o caracal

seria tão simples não acrescentar nada ao vazio da esperança. melhor, seria tão mais simples fazê-lo. esperar que o mundo nos invada num telefonema. que nos toque, qual pérola negra numa sociedade com sonhos mínimos. o caracal está ainda em cena. aproveitem!

Escrito por jm às 21h33... | Comentários (0)

alvarez bravo

dutch encounters, Manuel Alvarez BravoEstava ao pé de outros livros do fotógrafo, sem irmãos gémeos, já um pouco triste mas com valor de aprox 14 euro. Talvez seja barato... numa busca pela net, o valor mais próximo que encontrei foi exactamente 14 dólares... o valor seguinte já era 19.95 dólares... estes valores não incluem portes.

É um livro pequeno, em capa dura, para uma exposição em 2002, na cidade de Roterdão.

Manuel Alvarez Bravo (1902 - 2002)

Do editor:
Alvarez Bravo turns 100 this year, the Kunsthal in Rotterdam celebrates this with an exhibition of selected Mexican photographs and a series he took of Rotterdam life in 1959 and 1960. The catalogue is a neat poetic complement to Alvarez Bravo’s trademark sensitivity. Quotes in large font, an interview and an introduction are placed next to the carefully positioned prints framed by a creamy white border.

Escrito por jm às 19h54... | Comentários (0)

2 de janeiro, 2004

sombra

recolhe-te comigo
aqui onde a luz se encolhe de segredos
como se as horas todas tardias

abriguemo-nos onde é mais ameno o dia
ou

aquieta-te assim em mim

sob a sombra do meu corpo o arrepio
começa logo que a minha mão
feita vulto se afigura no
teu rosto



Cláudia Caetano


deram-me este poema: tão boa prenda. :)

Escrito por jm às 18h00... | Comentários (1)

reflexos da luz de néon

é estranho o facto de poder reflectir sabendo que essa reflexão é errada (para mim). fazê-lo é um hobby e muitas vezes permite a prática da vulgar expressão: advogado do diabo.

reflectir sobre permissas que me são contrárias permite-me mandar à merda muita gente e muita coisa.

claro... não sou melhor por isso! LOL!

Escrito por jm às 17h53... | Comentários (0)

ininteligível

na papelaria lia-se a revista rosa do dia. na papelaria, o senhor que é dono dela, tenta medir o pénis da personagem despida na fotografia escandâlo (chamada na primeira página). o senhor da papelaria não percebe efectivamente se se pode assumir como usufruindo de melhores atributos ou não. a fotografia não está clara. entra, novamente, na papelaria, o cliente da notícia atirada à sargeta pela chuva. o senhor da papelaria, colocou-se em defesa... afastado do balcão. o homem aproximou-se e perguntou: o senhor tem um pénis maior do que este? (referindo-se ao pénis de que já escrevemos). o senhor da papelaria respondeu: não sei. (tendo por receio maior não saber qual a resposta certa para os ouvidos do seu interlocutor.) dê-me uma onça de tabaco, se fizer o favor. e papel de arroz. o homem saíu mudo, deixando o troco em cima da revista.

Escrito por jm às 17h40... | Comentários (0)

comin'

estou ansioso por lá chegar. vou a caminho. os contemporâneos anulam os cruzamentos. idiotas. evitam o inevitável: dizem eles. crossroads.

nos meus mais ternos desejos encarna a senhora sem face. ela compreenderá. salut, Jules.

Escrito por jm às 17h38... | Comentários (0)

Espadana de volta

expodiaries


Estará patente a partir de dia 7 de Janeiro e até final do mesmo mês, na Taparia Santa Bárbara em Lisboa, a exposição de fotografia "Compact Diaries of Everyday Life" de Bruno Espadana.

Este projecto nasceu como forma de ilustrar o período de um ano e meio no qual o autor trabalhou num projecto internacional na Alemanha, e é composto por uma série de fotografias a cores, agrupadas em conjuntos de 2 ou 3 imagens que tentam contar pequenas histórias sobre as rotinas, preocupações, sentimentos, pensamentos e esperanças da vida diária ao trabalhar fora de casa.

Visita obrigatória ao site do Bruno.

Escrito por jm às 17h18... | Comentários (0)

1 de janeiro, 2004

o bravo

índio americano no cinema... eu gostaria de rever este filme realizado por Johnny Depp. vi-o uma vez na RTP 2.


the brave

Escrito por jm às 23h14... | Comentários (0)

não é comigo

não gosto de balanços. faço-os. não gosto deles. e esta altura irrita-me por não ser uma altura em que os faça, mas em que muita gente o faz... ficam absortos no seu desespero.

li pouco neste ano que passou. tenho livros em atraso e são esses que mais me motivam neste momento.

descobri poesia portuguesa, vários nomes me conquistaram: ana paula inácio, daniel faria, rui pina cabral, josé miguel silva, etc..

e se, entretanto, me fugir o mundo, fica o espólio.

Escrito por jm às 21h12... | Comentários (0)

ring a bell

se realmente valesse a pena pensar o melhor, não faltariam lágrimas para nos lembrar do resto.

crescerá uma vulgar vontade de querer melhor, mas notar-se-á também que a inércia de não fazer nada por isso constitui o erro perene.

a burocracia exige um novo calendário.. tudo o mais se mantém.

Escrito por jm às 20h45... | Comentários (0)