
a chuva veio confirmar que é tempo de partir. quando chegar ao destino, enviarei uma nota para aqui.
li-o a semana passada. Contos de amor, loucura e morte, de Horácio Quiroga, é-nos apresentado numa tradução de Ana Santos e ilustrações de Joana Villaverde, para esta edição da Cavalo de Ferro.
Os contos são muito bons e revelam bem um humor entranhado e carregado de ironia. Variando nos três temas do título, o livro joga com os vários sentidos humanos e com a felicidade e infelicidade de gente, tão estranha como comum ao mundo onde estamos. A edição é muito cuidada, da qual saliento a tradução por textos muito claros, na sua maioria, e pelos desenhos sujos e escuros.
Interessante foi encontrar três, exactamente três pecados neste livro... 
o primeiro, irrelevante ou não compreensível, é o nome dum buque ser alterado no conto;
o segundo, desmancha-prazeres, é a posição de um desenho face ao conto que está a representar, esse desenho retrata o fim do conto, e está colocado numa página onde se depreende de modo fácil o que significa, estragando a surpresa;
finalmente, o terceiro é, na minha opinião, um erro grave para uma tão excelente tradução: no livro utilizam-se nomes e palavras indígenas, que não constam do meu dicionário e que me deixaram à toa, sugestão: notas de tradução com a descrição das palavras.
Em quinze contos, estes erros são ultrapassáveis, com uma nova revisão e paginação, a beleza dos textos de Quiroga são imperdíveis.
«Depois, inerte ao lado daquela mulher que já tinha conhecido o amor antes que ele chegasse, subiu do mais recôndito da alma de Nébel o santo orgulho da sua adolescência, de nunca ter tocado, de não ter roubado nem sequer um beijo à criatura que o olhava com radiante candura.», (p.27).
é este tempo! venho apresentar o meu pesar pela morte do alto comissário da ONU Sérgio Vieira de Mello (1948-2003). honra seja feita ao seu trabalho. agradeço-lhe em primeiro lugar o trabalho em Timor, por me ser mais querido.
os erros da forma implicam factos de injustiça humana. as religiões ensinam : olho por olho, dente por dente, o povo agradece e faz!
deixo aqui um artigo da CNN.com.
Sergio Vieira de Mello: 'A rising star'
Tuesday, August 19, 2003 Posted: 2305 GMT
UNITED NATIONS (CNN) -- U.N. envoy Sergio Vieira de Mello was among the 17 people who died in Tuesday's bombing of the organization's headquarters in Iraq.
Salim Lone, Vieira de Mello's spokesman in Iraq, told CNN that he had been with the U.N. diplomat two hours before he died.
"I grieve for him, I grieve for his family," Lone said. "I grieve most of all for people of Iraq."
All the national flags that ring the U.N. headquarters' entrance in New York were removed from their poles. The blue and white U.N. flag was lowered to half-staff.
U.N. staff members gathered in corridors, on the promenade facing the East River and around television sets as they mourned the loss of the man spokesman Fred Eckhard called "a rising star."
Vieira de Mello, 55, was trapped in the rubble after the truck bomb exploded beneath his office window Tuesday afternoon, and was reported gravely injured. He later died of his injuries.
After U.N. Secretary-General Kofi Annan appointed him as his special representative in Iraq, Vieira de Mello vowed to "help the people of Iraq out of what has been a terrible period in their long and noble history."
Annan responded to his death Tuesday: "The loss of Sergio Vieira de Mello is a bitter blow to the United Nations and to me personally. The death of any colleague is hard to bear, but I can think of no one we could less afford to spare than Sergio."
The experienced Brazilian diplomat was appointed in May to a four-month term in Iraq that would have ended August 27.
At least 100 others were wounded when the truck bomb ripped through U.N. headquarters at the Canal Hotel.
Vieira de Mello, who also was U.N. High Commissioner for Human Rights in Geneva, had extensive experience in humanitarian and peacekeeping operations in countries such as Bangladesh, Sudan, Cyprus, Mozambique, Peru and Lebanon.
In Iraq, the United Nations has a role in helping with humanitarian aid, reconstruction, refugee return, economic development, legal and judicial reform and civilian administration.
Vieira de Mello told the 15-member U.N. Security Council in July, "Iraqis need to know that the current state of affairs will come to an end soon. They need to know that stability will return and that the occupation will end."
In a talk in Baghdad in June, he said: "Iraq has suffered far too much for far too long. War, pervasive human rights abuse, and stringent sanctions. Iraqis deserve better, infinitely better.
"The task is huge. We should all come to it with a keen sense of humility and a strong sense of determination."
One of Vieira de Mello's previous positions was as a representative for the secretary-general in Kosovo.
He also served as transitional U.N. administrator in East Timor after that country voted for independence.
He studied in Brazil and France, and received a doctorate from the University of Paris. He was married with two sons.
Eckhard said Vieira de Mello was not the first top U.N. official to die in the line of duty. He mentioned the assassination of Count Folke Bernadotte, a mediator in the Arab-Jewish conflict in the Middle East, in 1948.
ao telefone ou por sms, a mensagem escrita dos tempos modernos, alguns perguntam-me como estou. presencialmente, escusam essa pergunta, sabem ver, olham, afirmam e acusam: estás mais magro e estás ausente e... a minha resposta duvidosa surge: é o cansaço.
este blogue vai de férias, apesar de eu não ir... as promessas recentes sobre o acto de dar e da poesia, hão-de ser cumpridas... tudo o resto e o mais não têm importância agora. quem souber de mim, há-de cruzar comigo palavras!
parece-me, cada vez mais, que qualquer pessoa que se queira arrogar de poeta, deveria ser calada no momento imediatamente antes de abrir a boca. afinal, se este país é considerado um país de poetas, é porque qualquer um atira umas palavras em verso e diz que ali está poesia.
a ignorância da poesia que o é, que vive realmente, neste país, é tão vasta quanto a maioria que olha a poesia e a nega... existe ainda uma minoria que a encara como uma estrutura díficil de compreender. nas suas diferentes vertentes, a poesia, hoje, faz descontinuar essas metafísicas essenciais ao espírito, partindo para momentos light. não sou um crítico, nem tenho para mim a experiência suficiente e o conhecimento claro da poesia portuguesa, mas sobre o que olhei, vi!
tenciono escrever sobre poesia e poetas, em breve, para já deixo apenas algo que guardo há muito dentro de mim...
compreendo que José Luís Peixoto tenha sido, por agora, arredado do grupo da poesia da sua geração: com dois livros oficiais publicados, o segundo deitou por terra qualquer esperança na sua integração*. na sua vontade de produção, de não querer deixar-se ficar só pela prosa, publicou em conjunto com o seu último romance, um livro de poemas A Casa, a Escuridão.
os poemas neste livro** têm formas demasiado fáceis e chegadas à prosa, dando de bandeja ao leitor o que pretende mostrar. tão simples em discurso e passíveis de corromper o próprio romance associado: existem poemas que revelam curiosidades mais cedo que o romance - tal acontece quando se faz uma acompanhamento das leituras -, como o sexo real duma das personagens do romance ser desvendado antes de o romance o anunciar.
José Luís Peixoto deveria ter guardado para si esta poesia, são momentos inerentes à escrita do romance, aceito tal, mas o seu conjunto é pobre e pouco trabalhado.
hoje, fiz uma ronda complementar de descoberta do território onde estou a viver. noto que finanças, junta de freguesia e esquadra fazem parte dum alinhamento preciso e linear, perto da casa onde estou. fico a saber que uma nova fornada de bolas de pão chega, à padaria, entre as 11h e as 11h20... só vieram 50, mas lá trouxe algumas para guardar, que a preguiça é muita. enquanto esperei pelas bolas, fui ao café ao lado.
pedi um café, um vício gracioso, um café lavado mas não queimado - algo raro hoje em dia -, foi-me servido ao balcão por €0,45. enquanto bebia o café, um cliente habitual veio da esplanada, um espaço mínimo virado para a estrada com mais movimento aqui da terra, e disse:
- Sr. João, são dois refrescos com gelo, se faz favor.
pensei: dois refrescos... e? o sr. João deve saber os gostos deste homem, a ver o que ele vai buscar. O sr. João vai atrás do balcão frigorífico, reclina-se e retira dois copos com um líquido castanho. não me contive e perguntei:
- Desculpe a curiosidade, o que é esse refresco?
a resposta foi:
- Café, água e casca de limão!
Agradeci. Depois de ouvir a resposta, pensei: mais valia não ter perguntado, afinal é o refresco que eu faço e peço com mais regularidade quando está muito calor e preciso de café! Mas o mais engraçado é que onde eu peço esse refresco nunca ninguém percebe o que eu quero. Bem haja, sr. João!
e se nos virmos de branco vestidos, não estamos em consonância com os seres que somos e envergamos no olhar.
I wear Black on the outside
'Cause Black is how I feel on the inside
Morrissey
mais uma polémica sobre a identidade do autor de o meu pipi? vejam aqui.
On line o enterro do Acontece, por Adelino Gomes e Carlos Pinto Coelho, nume entrevista imensa! Que descanse em paz. Logo que tenha tempo, deixarei aqui, para além do link, ficheiros com as cópias dos textos.
mais jornalistas com blogue. roubei esta notícia ao Aviz: dois jornalistas do jornal Público, Maria José Oliveira e João Pedro Henriques, mandam postas de pescada no Glória Fácil. A primeira posta é sobre a TSF... sobre o qual será o interesse da PT nesta rádio... e eu, que não sei de nada, fiquei a saber pouco mais...
no post de dia 8, sobre Ruy Belo... mmm... do Ruy Belo! resolvi disponibilizar em ficheiro a crítica-ensaio de Gastão Cruz sobre o poema que ali apresentei.
miradas convergentes foi o título de uma exposição conjunta de Manuel Alvarez Bravo, Henri Cartier-Bresson e Walker Evans, que teve lugar duas vezes na Cidade do México! A primeira vez, durante duas semanas, em 1935, na galeria Julien Levy. A segunda vez, no Museo del Palacio de Bellas Artes, entre 13 de Novembro de 2002 e 2 de Março último.
A exposição constou de fotografias obtidas entre 1927 e 1935, por estes três fotografos.
Na FNAC surge agora o livro que acompanha a exposição deste século, entitulado Mexico/New York!
dicionário, o fim da saga. Ainda um dia vos falarei do que penso do acto de dar, do seu simbolismo para mim. Uma gentil alma, ofereceu-me o Dicionário da Língua Portuguesa 2004, da Porto Editora. Quando for grand€ comprarei o da Academia. Àqueles que se preocuparam os meus sinceros agradecimentos...
Mil vénias M. :)********
o eterno efémero que os jornais reproduzem, tal como este blogue reproduz... cabe-me tão pouco quanto a partilha e a tentativa do menos efémero. O Público apresentou-nos, hoje, artigos sobre Ruy Belo no 25º aniversário da sua morte. Estes artigos são importantes para a divulgação deste poeta... em cuja ignorância me incluo! E, por isso, agradeço ao Público este trabalho!
Copio, sem medos, o poema inédito ali apresentado e a crítica-ensaio de Gastão Cruz sobre o poema (neste ficheiro).
Poema Inédito Sem Título
Um dia alguém numa grande cidade longínqua dirá que morri
di-lo-á decerto com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti
primeiro ao solucionar de vez esse problema de respiração que a vida é
desde a convulsão da criança que a meio do copo deixou ir leite para a traqueia
até a instantânea atrapalhação do mergulhador a quem de súbito falta o ar comprimido
só dispõe da reserva e lhe faltava tanto que ver no fundo sonhador do mar
depois senti alívio porque às vezes a meio por exemplo da aragem na face
eu pensava na morte como problema metafísico a resolver pelo menos com higiene
se não com dignidade com acerto como mais um problema à medida do homem
Eu estava do lado dos vivos estou do lado dos mortos
o grande problema era saber se me doía ou se não me doía
agora nem sei se me doeu ou não ou fui um mero espectáculo de mau gosto
para a única pessoa encarregada de me ajudar nesse momento
Ninguém a princípio terá sabido que eu morrera só minha
mulher avisada de longe virá e me porá a mão sobre a testa
os demais não não disponho do olhar para me defender
o tempo depressa se passa são trâmites legais até me terem deixado
debaixo do chão bem debaixo do chão sem frases lidas
ou gravadas sem sentimento nenhum
Uns dias depois um pequeno grupo junto a uma grande janela
olhará a neblina da manhã de janeiro
e terá mãos que eu tive para os meus problemas de vivos
Onde eu estive sobre uma mesa com uma perna cruzada
suaves começarão a suceder-se e acumular-se os dias
como cartas revistas linguísticas ou livros adormecidos
despertos apenas no momento fugaz da leitura
A vida será indistinta virá até nós como árvores
rodará em volta como um lençol até cobrir-nos os ombros
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter de ser vosso amigo
Estou só e só para sempre e só desde sempre
mas antes por direito de opção. Agora não
Deixaram-me aqui doutor em tantas e tão grandes tristezas portuguesas
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude definitiva
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva
Consolação, 12-30 dia 15/IV/74
Ruy Belo
são motivo de orgulho e notícia! Chaque mini-film sera diffusé en prime time, entre deux pubs ou quand une émission finit un peu à l'avance, pode ler-se no Le Monde. E tudo acontecerá na NBC.
fui à vila, esta noite! dali vê-se o mundo e as gentes novas dos subúrbios. É gente nova... e de peito cheio, feios e bonitos... mas todos com gel look molhado e argolas para pássaros cantantes. Depois fui a uma fonte, ouvir a água e sentir um pouco da ausência humana - bem melhor!
última hora!!! Artistas Unidos assinam contrato! Faço cópia da notícia, para que se não perca nos arquivos Plus do Público
O CONTRATO
Quase um ano depois de terem saído do edifício d'A Capital, no Bairro Alto, os Artistas Unidos assinaram o contrato que lhes permite apresentar a partir de Setembro os seus espectáculos no Teatro Taborda, em Lisboa, onde vão ficar até Julho de 2005. "Fiquei muito contente por ter sido finalmente assinado o contrato e começar finalmente a pensar em peças", comentou ontem à tarde Jorge Silva Melo, director da companhia, depois de celebrado o contrato com a EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da Câmara Municipal de Lisboa responsável pela gestão e conservação dos espaços culturais camarários). Os Artistas Unidos estreiam o espaço a 11 de Setembro com "A Festa", de Spiro Scimone, e "Victoria Station", de Harold Pinter, e com a inauguração de uma exposição de Sofia Areal, um programa que "continua o projecto d'A Capital". Mas há "algumas surpresas": Silva Melo vai encenar em Outubro "T1", peça de José Maria Vieira Mendes, em Dezembro será apresentada a encenação de "Terrorismo", dos Irmãos Presniakov, com Glicínia Quartin e Isabel de Castro e a peça do dramaturgo irlandês Anthony Neilsen, "Agrafes" (título provisório). 2004 começa com um espectáculo inesperado: o realizador Alberto Seixas Santos dirige Sofia Aparício em "O Caracal", da holandesa Judith Herzberg. A cedência do Taborda, segundo o contrato, está dependente da conclusão das obras de reabilitação d'A Capital, efectuadas pela CML, ou da possibilidade de a autarquia encontrar "outro espaço alternativo". Os escritórios da companhia vão continuar a ser em Campo de Ourique, espaço partilhado com a RE.AL, Ilusom, APA, o Meu Joelho, grupos que estavam instalados no Bairro Alto.
Por JOANA GORJÃO HENRIQUES
Quarta-feira, 06 de Agosto de 2003
no Público
... aplaudam! o vazio dos espíritos não faz o verão menos apetecível, porque muito bons são os espíritos que por aqui cavalgam...
escrevia eu... li dois livros: A Senhora dos Açores e Ontem, ambos publicados pela Cavalo de Ferro. este fim de semana quis comprar o primeiro, para oferecer, numa das FNAC lisboetas, mas não o encontrei... comprei o segundo! Afinal, já tinha lido ambos e serviam para os meus propósitos: agradar e dar a conhecer boa leitura. ... a editora Cavalo de Ferro é para mim motivo de colecção. a beleza e o cuidado das suas edições fez-me ter essa vontade, coleccionar as edições da editora até ao possível! sendo tudo menos rico, espero que a editora seja moderada... para que a minha vontade não seja atirada à frase: queres, mas não podes. já me basta o assassinato cultural de Lisboa em particular e do país em geral.
Eu raramente leio livros porque me dizem para ir ler os livros, nunca gostei dessa obrigatoriedade... Assim, o que vos direi aqui ou aquilo que escrevi antes é-vos tão útil quanto a vossa vontade o fará. 
A Senhora dos Açores, de Romana Petri, está escrito em forma pessoal, um acompanhar dos dias da escritora durante a sua estadia veraneante nos Açores. Uma estadia que começa com um limite - não estrito - de um mês e se estende ao correr dos dias e da dolência gerada pelos encantos das pessoas. A senhora dos Açores fala-nos de emigrantes e dos seus descendentes, de velhos e de novos, de mortos e de almas que nos podem saudar na estrada.
«"As pessoas têm medo de esquecer; eu, pelo contrário, aconselho que se viva mais o presente, que sejamos até um pouco ignorantes, não acredita?"», p.57.
Ontem, de Agota Kristof, outra mulher, revela-nos um argumento para um filme que só passaria nas salas de cinema de culto de Paulo Branco. A deslocação de pessoas por causa da guerra, por causa da política, por causa da pobreza... sendo este último facto um sinal que vive perto de nós e se afasta na emigração. O índice de emigração para fora de Portugal cresceu... e a culpa não é da imigração estrangeira! Os amores de infância e o sonho permanente, assemelhando-se a uma loucura presente e necessária para o próximo fôlego de vida.
«Vou cada vez com mais frequência ao café. Vou lá quase todas as noites. Travo conhecimento com os meus compatriotas. Estamos sentados a uma longa mesa. Uma rapariga do nosso país serve-nos de beber.», p.38.
Em breve outros comentários sobre livros da editora.
não falei dos fogos. fiquei a olhar para os fogos, para o estranho sentido de comando do combate ao fogo... fiquei estremunhado a tentar perceber se existe prevenção. parece-me ser necessário um debate renovado sobre a gestão florestal e da silvicultura. mas um debate que resulte em conclusões e que estas sejam desenvolvidas na prática e aplicadas no terreno. entretanto, continuo pensando que o fim poderia ser muito melhor
Sarah Adamapoulos tem um blogue: le cume des jours.
a edilidade lisboeta é observada de perto no blogue Lisboa a Arder.
eu não faço comentários sobre algumas sugestões... a sua existência, enquanto sugestões, é suficiente para afirmar que gostei.
sou um homem feliz, pensou para ele mesmo. sou um homem contente, determinou o pensamento. a felicidade é um símbolo sem credo, sem rosto... não existe. John entra na sala. Ron, sentado junto da secretária, fuma olhando a janela.
John - bom dia. deixaram-me vir, hoje. esta sala está vazia, como consegues permanecer aqui?
Ron - deixaram-te sair, estou a ver. deixaram-te sair e, quando chegas, questionas a minha permanência numa sala nua. que interessante. e vão deixar-te voltar?
John - que pergunta, Ron! que fizeste às coisas que aqui estavam? os candeeiros de pé, as cadeiras... o aparador?
Ron - estão no teu quarto. não preciso delas. preciso apenas de uma secretária, duas cadeiras e de muito espaço.
John - por momentos pensei... pensei que as tivesses deitado fora...
Ron - que ridículo, John! o futuro é tão incerto. as minhas necessidades podem mudar a qualquer instante. que vieste cá fazer?
John - vim ver-te. vim por tua causa.
Ron - e porque perguntas pelas coisas da sala, e não perguntas por mim?! sabes que as coisas a mim não me importam. as coisas não sofrem mutações.
John - importa-te o quê?
Ron - importam-me as acções. o que cada um faz para podermos ser mais contentes.
John - diz-me então, como estás?
Ron - estou bem. tenho bebido mais do que o suficiente, para me manter ébrio o maior tempo possível. mas sem me exceder, de modo a poder continuar ébrio e a beber... numa letargia física que me dê uma realidade virtual de quase-felicidade.
John - e não poderás ser feliz sóbrio, Ron?
Ron - ninguém é feliz! ninguém chega lá... e os que pensam que chegaram, não fazem mais do que enganar-se. esses deviam vir para aqui e sentarem-se uma tarde nesta sala, a ver o pôr do sol sobre os telhados da cidade. porque vieste?
John - vim para te ver. para estar contigo, queres que vá?
Ron - não, fica. acompanha-me e bebe um copo do que quiseres... água só na torneira. [pausa para acender um cigarro] nõo tenho pensado em ti, John. fazes-me bem quando estás longe. consegui, finalmente, compreender o facto de que a solidão é o meu estar favorito de viver. amei-te. e, ainda te amo. mas isso não me obriga o desejo de ti. nem da proximidade.
John - gosto de ti, sabe-lo. não tivemos vida enquanto estivemos juntos. és demasiado fechado para que qualquer pessoa te entenda... ou, perceba. estás doente e não sabes como lidar com esse estado. estás doente e afastas tudo e todos. foi tão triste assistir à derrocada dos sonhos que edificamos juntos... mais triste, porque não passaram de sonhos... nem a raiz da realidade deixaste crescer. Ron, amei-te! perdeste o momento em que te deixei de amar. não estavas cá. estavas enfiado no buraco onde o teu silêncio cresceu e te aprisionou. a ti, Ron, que sempre ansiaste pela liberdade... podias ter feito mais por ti. poderias ter sido mais contente, Ron. sempre que saímos com outras pessoas... falavas... porque nunca aplicaste a ti o que disseste aos outros para fazerem? com eles funcionava muitas vezes. nunca acreditaste em ti! és, para ti mesmo, o primeiro mentiroso.
Ron aplaude, batendo fortemente com as palmas das mãos, sorrindo com o cigarro na boca.
Ron - muito bem. muito bem. John, por muito perto que estivesses, a solidão sempre foi a minha verdadeira companheira. traí-te com ela. tentei acreditar numa possível normalidade. tentei crer numa vida com elementos tangentes à normalidade social. ter um amor, viver com esse amor. traí-me! eu não sou integrável no socialmente normal. ao criar essa normalidade tornei-me anormalmente estúpido, anormalmente idiota... as minhas tangências resultaram numa anulação... o meu amor por ti, não podia ter sido vivido assim. dentro de padrões definidos. traí-nos...
John - queres que cozinhe?
Ron - era simpático! não sei o que tenho por aí. se conseguires fazer algo.. poderíamos almoçar... se não mando vir qualquer coisa de fora, da tasca.
John vai para a cozinha. Ron segue-o com o copo de Baileys na mão e um cigarro apagado na orelha.
John - pelo menos manténs alguma limpeza! os teus traços mais indeléveis mantêm-se.
Ron - quais traços?
John - sempre gostaste de alguma limpeza... e arrumação.
Ron - sempre precisei de espaço! as coisas acumuladas em determinados pontos enchem-me o espaço. sabes disso! preciso de poder olhar para longe, sem obstáculos.
John - acreditei, um dia, que era assim que sonhavas! depois, percebi que era a tua realidade a impor regras. as regras da casa. nunca admitiste haver regras, pois não? preferiste silenciar o teu desagrado pela minha maneira de estar e fazer as coisas... e enfiaste-te num buraco! tens a certeza de quereres que cozinhe, Ron?
John vai à despensa e traz salsichas e um pacote de batatas fritas.
Ron - sim, por favor. não estou em condições de mexer em nada. tentei escrever, ontem! mas mais uma vez não passou disso. dum brilho nos olhos, ofuscado pela rápida conclusão de que não seria mais do que um brilho solitário! passo mais tempo a rabiscar e a ignorar o papel branco sobre a secretária, do que a pensar ou a ler.
John - deixaste de ler há tanto tempo. deixaste de escrever... não me lembro quando foi... foi...
John abre o frigorífico e tira de lá ovos e bacon.
Ron - ... foi tão triste quando deixei de escrever... quando deixei de acreditar. todos me confundiam com eles mesmos... e entre eles se confundiam... devem continuar a a fazer o mesmo, nas suas reuniões, e acham-se todos iguais nas suas incapacidades... e quando estavam comigo, quem quer que fosse, sempre elogiaram ou denegriram os outros, os ausentes, que faziam e aconteciam... e nunca me disseram nada.
Ron bebe o resto do Baileys de uma só vez e acende o cigarro com um fósforo.
John - é tarde. vou mexer uns ovos e fritar bacon e salsichas. comemos com estas batatas.
Ron - sabes, John, amo-te. no meu silêncio compreendo que te magoei, mas sei que te amo... só que não dependo desse amor para viver. sinto-me bem por te amar.. sinto-me bem por te teres livrado de mim..
John - magoaste-me. mataste-me. mataste a pessoa que eu era. aquela que te reconhecia enquanto pessoa... tu o monstrinho idiota... que falava e fazia história numa conversa... que não era recordada para além daquele presente... e secaste por dentro, por não veres os outros acreditarem em ti. morreste, tu também, por não creres possível acreditares sozinho em ti! és demasiado infantil nas tuas crenças. acreditas no bem e só fazes mal a ti mesmo. como tu disseste, traíste-me e traíste-te. e o pior foi o silêncio em que te enterraste.
Ron olha pela janela da cozinha e sorri.
texto apresentado no Estrela Hall
este post é partilhado com outro blogue.
não faço esquemas demasiado complicados. os advérbios são interessantes e a poesia chocalha na minha cabeça... quase morta. e não chega a nascer. o súbito tormento do contrabaixista, atira-me para a incerteza. o pianista, sereno, diz-me para reflectir. o percussionista atira-me com água à cara. a música constrói-se em nocturnos.
de manhã, do altifalante da estação ouvia-se: «senhores passageiros, vai dar entrada na linha número 2 o comboio suburbano com destino...». imediatamente, um senhor a passar virou-se para mim e enquanto caminhava disse: «comboio suburbano, palavra desnecessária. basta dizer para onde vai o comboio, as pessoas percebem». qual será a necessidade de informar a circulação de um comboio suburbano numa linha suburbana? entrei no comboio, sentei-me, fresco, com o cheiro característico do ar condicionado da máquina... o meu lugar, à janela, tinha uma embalagem de um medicamento, dobrada e escrita, a enfeitar o parapeito da janela. de tarde, à volta... sentei-me, fresco, com o cheiro característico do ar condicionado da máquina... no mesmo comboio, no mesmo lugar à janela ainda enfeitada.
moral: nada muda.
este homem
matou esta mulher
uma notícia no Le Monde.
os funcionários da embaixada da China levarem dez exemplares do novo Dicionário da Academia a 10 dólares o volume, escreve Francisco José Viegas, que não me avisou da sua viagem e teria trazido de Timor uma encomenda para mim... assim, continuo a chuchar no dedo.
a poesia é aquilo que se lê do que se lê... não tem uma forma concreta.. ainda que muitos queiram crer e fazer crer que a poesia são versos em versos... mas os versos são frases e a poesia é o que se lê das frases... das frases que se encadeiam no espírito e nos fazem crer na poesia... seja prosa a forma.
li neste blogue uma pergunta do tipo sabiam que... em que se afirma que Luís Miguel Nava escrevia 10 poemas por ano... Não me é permitido perceber se à apresentação do facto deverá existir, associada, uma qualquer interpretação: é pouco?, é muito?, tão pouco e tão bom?... fica o desconhecimento.
amar-te pode ser dizer-te: nós não morreremos ou a morte nos não separará
mas, pouco haverá a dizer quando um de nós partir
talvez, quem fique cantar baixinho:
é a ti que eu amo
tu em mim somos nós
eu contigo somos o nosso amor
e quando já não for possível a esse cantar
todos os outros esqueceram
e o nosso amor morreu.
»»» esta é outra resposta... desta feita ao little black spot, que por sua vez já respondeu a outro....