a semana passada estive no Porto. uma cidade suja como todas as cidades antigas de Portugal. uma cidade que é bonita como todas as cidades antigas de Portugal. o que me chateia é o cerco duma multidão de gente na baixa portuense pronta a roubar o que é dos outros, para o vício da droga que se lhes entranhou no corpo e na mente.
se fosse umbiguista o melhor que eu faria era ir falar com eles e dar-lhes palmadinhas nas costas e dizer-lhes que se continuam assim a próxima vida vai ser uma merda com os karmas que arranjam. mas não sou e considero que o problema social da droga no Porto é tão visível que obrigará o poder a tomar medidas necessárias e urgentes. considero mesmo que o problema deva ser atacado duma forma semelhante às acções tomadas em Lisboa pelo anterior elenco camarário.
a existência de bairros com tantos problemas sociais no centro da cidade, e a má relação dos moradores pacatos com os visitantes dealers e consumidores, exige da cidade uma recuperação social pensada, mas urgente, da baixa e bairros circundantes.
no dia-a-dia tento ser uma pessoa confortavelmente só! no meu dia-a-dia cruzo-me com muitas pessoas, às quais tendencialmente não recuso colaboração ou ajuda conforme o caso e a gravidade do que se aborda! dou essa ajuda porque a outra pessoa precisa, porque penso que essa pessoa irá ficar melhor.
tenho vindo a descobrir uma nova técnica de umbiguismo que me intriga:
existe quem reflicta sobre os meus problemas de relação com os outros e me diga que devo dar oportunidades e possibilidade aos outros de se justificarem, perante argumentos que eu possa apresentar como irrefutáveis medidas de infortúnio para a continuidade duma relação saudável. essa pessoa, que reflecte sobre a minha atitude de exclusão, dá setenças de esperança e de boa sorte - terá lido nos bolinhos chineses? - e descreve-me como inflexível e seco e amargo e...
enfim, a pessoa reflecte sobre a minha atitude e sobre mim. e parece ficar feliz! temos que ter esperança nos outros! e dar constantes oportunidades! UMBIGUISMO!!! esta pessoa que reflecte sobre mim, não me parece reflectir sobre ela mesmo nem sequer dar a mão a ninguém. parece-me tudo um jogo de auto-satisfação! um jogo de prazer mental em promover o bem do mundo sem o realizar realmente, sem identificar precisamente do que se está a falar!
dizemos que temos um choque com alguém e temos uma resposta imediata, tirada de um livro de sentenças: tens que dar a oportunidade! sem mais... sem saber porquês, sem saber comos, sem saber nada: sem saber que a vida é mais do que um umbigo à procura de um sonho! mais grave, sem ter na mão atitudes reais para provar e mostrar o que diz! factos! factos!!
Umbiguismo! eu sou contra o umbiguismo!
ontem... sem hoje nem amanhã! ontem! e o abraço triste de um dia sem futuro e com o presente ausente.
entre o calor do ar e o calor da terra, vou mergulhando o meu corpo em terrenos sem esperança nem marca de compaixão.
só uma coisa: o que prefiro para mim... na arte... é escritor... faço crítica porque sim!... escritor.. soa bem, não é? poucos acreditam que sim... que sou.. que serei.. hoje não sou... mas quero ser. ou tenho que deixar de fazer crítica para terem noção de que só escrevo ficção e então ser adjectivado jovem escritor.. alguém que quer chegar a... etecetera...???
o teu sonho não existe
desenha no ar uma expressão do teu sonho
mal descrito em palavras
que gaguejas com medo
rebola nas nuvens do fumo
na cidade dos amores o teu sonho
sem nexo e sem razão
esconde-o de mim e
dos outros que te disserem
que te não querem ouvir
esta é a minha canção de embalar
desenha no ar uma expressão do teu sonho
são poucos os silêncios! muitos, os amargos ruídos cerebrais! SILÊNCIO! deixem-me estar.
pouco importa o que tenho escrito ao mundo.
importa a alguns muito
o pouco que escrevo.
e a mim?
levanto-me de manhã e fecho os olhos.
e o dia todo é o mundo
sem mim.

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago
No outro dia, ao preparar-me para as leituras cruzei-me com um livro que ainda não tinha lido. Mirei-o: ainda não li isto!, disse para comigo. Agora, que já o li perco-me um pouco nos desenhos que acompanham o texto: 4 desenhos sem título de Pedro Cabrita Reis, onde se parece mostrar uma caravela. Sinto-me um pouco perdido nesta imagens, e talvez seja essa a intenção... o texto que li ajudou... mas o meu gosto imediato diz-me que eu não gosto dos desenhos.
O texto rola leve durante 28 páginas nesta edição da assírio & alvim de 1997, integrada nos Cadernos do Pavilhão de Portugal - Expo'98.
José Saramago, carinhoso e gentil, coloca-nos frente a uma personagem que pretende encontrar a ilha do título do livro no tempo em que todas as ilhas são já conhecidas. Num misto de viver onírico e real, transporta-nos pelo sentido do cumprir as decisões tomadas e pelo amor que se toma durante esse caminho de edificar o sonho. Da realidade mostra-nos as pessoas: o que elas são e sentem, do sonho mostra-nos as imagens: o que elas revelam e escondem.
Simples e sem rodeios, o autor deixa a ideia quase certa da ilha desconhecida que cada um de nós é, à procura ensimesmados.
Não opinar sobre "coisas" tem por razão um certo receio de o não saber fazer da melhor forma... vou arriscar uma breve lamúria sobre um exercício teatral que já não está em cena! Assim, protejo-me de quem não viu e como quem viu não me lê - porque eu não existo - estou imune a todos... sou como a peste, imune à cura!
Na passada Quinta-feira, dia 11, desloquei-me, curioso, às caves do Liceu Camões! Gentilmente informado de que ali se executava um exercício de finalistas dos cursos de Formação de Actores/Encenadores e Realização Plástica do Espectáculo da Escola Superior de Teatro e Cinema - a bem dizer, uma chama que arde na minha escrita ficcionada... imagens!
A curiosidade residia em ver novos actores actuar! Senti-los como são: novos, perante a minha parcialidade face ao teatro: eu gosto da rudeza da vida real representada pelos Artistas Unidos e, algum, experimentalismo que surge em breves momentos!
parêntesis: não considero que a nudez constante em qualquer peça seja um acto de libertação humana e redentora perante as regras sociais. desde pequeno que a minha mãe me pergunta: porque não andas tu nú por aí? ... ela pergunta isto porque eu abomino roupa e que me chateiem por andar vestido como eu ando... dizem que mal! :fim de parêntesis
Voltando ao cerne! La Ronde de Arthur Schnitzler (do original Reigen, escrito em 1896), foi adaptada pelo grupo de finalistas a partir de traduções já existentes de Eduarda Dionísio e Pedro Penim. Muito bem!! e...?
As caves estavam limpas! Bem arranjadas com vários cenários simples mas bem cuidados e com jogos de luz que os escondiam ou revelavam à medida do tempo da peça! Uma floresta negra de plástico rasgado pendurado do chão do liceu! Quartos: intímo, de marido e mulher, ou lascivo, com cama de acrílico, de artista amada por todos sem amor futuro! Restaurante e casas de alterne! tudo isto num espaço negro e só nosso! O colectivo da peça realizou todo o esforço físico de preparação da peça em todos os pormenores, empenhou-se para empreender o seu teste final na escola! Tivemos música ao vivo durante a peça... iluminando o que houvesse ainda de sombra naquele lugar negro!
A peça!! Dizem-nos na apresentação escrita que o "texto está estruturado dramaticamente em dez sequências entre cinco homens e cinco mulheres, em que cada uma delas termina com um parceiro encontrando-se com um novo, criando uma cadeia bizarra de encontros eróticos". Ora, nós assistimos à actuação de dois actores: Maria Gil e Ricardo Gageiro, que personificaram essas personagens ansiosas por uma amor qualquer vago e sem sentido numa época vaga e sem sentido, como a nossa e todas as outras antes da nossa, porque o amor é o sexo que dele se faz! As paixões grandiosas conquistadas a meninas pobres ou a púberes meninos ansiosos por se medir com leões velhos e/ou acomodados ao ritual do casamento social: sou casado com a minha mulher e fodo a minha amante!...
Neste quarto e penúltimo dia de actuação, o desempenho dos novos actores foi febril, decorreu a uma velocidade entusiasmante e as suas figuras humanas cresciam em nós mais que as diferenças das personagens que foram interpretando. Com um texto bem estruturado e cheio de subjectividades - de acordo com as artes do amor -, apresentaram-nos uma faceta da vida recriminada e recalcada por muitos: a procura do amor verdadeiro em partilha com o sexo e o prazer, que em vez de envergar os trajes do fim do século XIX podia usar os do início do século XXI.
O encadeamento bizarro dos encontros está presente, mas o erotismo ficou muito pela rama! Os actores, ou por serem novos ou por não estarem ainda à vontade com esse tal erotismo, não revelaram o prometido. Não que importe ele não ter existido, porque considero as cenas demasiado rápidas para o erotismo se evidenciar e sequer ser necessário.
Os actores!! Maria Gil e Ricardo Gageiro tiveram um discurso claro e bem re-arranjado nas situações de enganos ou simples engasgos... Mostraram boa forma física e um bom trabalho de percepção um do outro! Partilharam com o público os momentos de riso, não deixando que isso interferisse com o decorrer da peça. As mutações de vestuário e de atitude psicológica das personagens foi bem conseguida, inda que melhor transmitida quando eram mutações para psicologias opostas. Ambos elegantes e gentis de olhar, deixaram no ar a vontade de os ter integrados no mundo do teatro e do cinema e daquilo que eles façam bem e queiram fazer e...
Pronto.. vou ficar por aqui! A gente vê-se na rua!... A gente vê-se nua!...
um homem
virado ao contrário tem suspirado e morto
em cada suspiro ares infecundos cheios de bichos estéreis.
morre ao contrário
do avesso
de lá para cá ou de cá para lá
conforme o contrário e o avesso sejam
mirados do fundo concâvo ou convexo dos olhos.

o papão cala a boca de quem exala risos e sorrisos sem segredo nem submissão.
... para quem andar procurando livros para as férias, pode encontrar opiniões no site leituras.
apenas um grande vazio me preenche a euforia de estar cansado de escrever vazio
e quem ler se esvaziar do todo significado das coisas sem nome
perco por momentos a vontade de continuar escrevendo a solidão
que se me assemelha a uma espécie de pulga gigante e pesada
que me salta para o colo e adormece
incomodando-me o fedor de não ter deixado de fumar enquanto era tempo
sonhando imagens brancas sem significado
crendo possíveis linhas negras a darem-lhe sentido no horizonte de destino
quero fechar os olhos e ser como um peixe fora d'água debatendo-se
contra o irremediável
contra a única certeza que me encanta por ser a única que não mente
apenas um grande vazio me preenche o sorriso de lábios entreabertos
segurando o cilindro de gosto acre e esfumando uma nuvem cinzenta
os meus olhos sem brilho olham a distância duma imagem perdida no meio do rio
um rio de gente igual subindo a rua na cidade dos meus amores
seca o rio quando ando por lá... umas gotas fazem dele o silêncio
dum túmulo aberto por estranhos
apenas um grande vazio me preenche a descrição do passado acontecido
e a dúvida que se liberta sobre o futuro permanece vaga
"o dia roubou-me/ levou-me a alma/ raio parta o dia" - Lisboa, Adolfo Lúxuria Canibal
O sr Valéry é um senhor muito bem comportado, pois está bem claro que sim!
O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares
Li o livro duas vezes, e vou lê-lo outra vez: quero ter a certeza de que o entendi. O Senhor Valéry não tem validade associada. O Senhor Valéry foi vendido na banca infanto-juvenil da Caminho, na feira do livro. O Senhor Valéry é para todos.
O livro compreende 25 histórias sobre um tal senhor Valéry, que gosta de desenhar o sentido das suas palavras. Essas histórias ensinam a lógica simples e demonstram o raciocínio absurdo que essa lógica pode causar. Com um texto muito bem estruturado e simples - excepto na parte de alguns confundirem a mulher com o chapéu -, Gonçalo M. Tavares surpreende pela irreverência que caracteriza os discursos do sr. Valéry ao longo das 25 passagens.
As histórias foram desenvolvidas com coerência parcial relativamente à personagem, algumas das histórias têm conteúdos antagónicos, o que não prejudica o objectivo criativo de educar: o livro apresenta-se em 25 passagens que, utilizando a mesmo personagem, abordam 25 situações diferentes da vida comum. Todas estas situações permitem uma reflexão adulta ou uma visão infantil do mundo, o que abre as portas a um público vasto e merecedor da escrita deste novo autor.
Seria uma pena se O Senhor Valéry tivesse apenas 4 leitores - ainda que fossem grandes leitores.
as incertezas. as dúvidas. as questões.
a verdade subjacente. a verdade escondida. a verdade calculada.
e depois, continuamos a caminhar o mesmo caminho; ou viramos numa das curvas: para que as sombras desapareçam.
peço desculpa pelos pop ups que estão a surgir... tive que alterar o servidor base do rain song... e para se manter em domínios pt, de modo a custar menos ao bolso de quem vem ler, e funcionar com o sistema de publicação... os pop ups saltam para minha tristeza.. quando tiver dinheiro suficiente para alugar um servidor... isto mudará... bem hajam.
em 1969, Alberto R. Pidwell Tavares, funda, em Bruxelas, com amigos (artistas plásticos, escritores, fotógrafos, etc.) a associação internacional Montfaucon Research Center.
é dentro do processo criativo da associação que surge PROJETS 69 de Alberto Tavares. Al Berto, desenha projectos de instalações artísticas de pendor surrealista e pop. com a utilização de várias técnicas, os projectos são construídos com um humor característico e incisivo, e fazem-nos imaginar o potencial criativo de Al Berto, no desenho, pintura e imagem, se tivesse seguido por estas áreas com mais regularidade (o autor abandonou a pintura em 1971).
são estes PROJETS 69 que a assírio & alvim nos dá a conhecer no livro agora publicado PROJECTOS 69, com uma apresentação entusiasmante de Alexandre Melo, sobre The House que Al Berto nos abre com estes projectos, que são vida da sua vida.
este livro teve uma primeira edição fac-similada por Montfaucon Research Center e considero-o um fantástico objecto enquanto divulgador de arte e ideias de arte a construir. mas lê-se?, ouvi perguntar. sim, lê-se as descrições dos projectos, que demonstram a originalidade de Al Berto, sobejamente conhecida.
os originais dos desenhos foram oferecidos pelo autor à associação abraço, que conjuntamente com a actual editora do autor, faz acompanhar a edição do livro da exposição PROJECTOS 69.


criar é algo tão complicado como os elementos: se chove, chove. se faz vento, venta! se faz sol, pomos os óculos de sol... etc. etc. etc. etc.