22 de fevereiro, 2004

para uma carta

meu amigo,

envio-te esta missiva do fundo do meu coração adormecendo. espero que ela te encontre bem e disposto a viver com mais notícias da minha sobriedade.

entrego-me ao passar do tempo, num olhar indeterminado para além da janela. deixei o tabaco: o fumo entranhado na tinta plástica das paredes odoriza em suficiência o ar que inspiro e a minha dor não necessita já de nicotina.

ontem, desci, novamente, à rua e caminhei. senti por uma vez, depois do trágico incidente, que alguém me olhou: um transeunte que pedia uma ou duas moedas ou uma sandes e um copo de leite. eu senti que sim, que lhe poderia fornecer aqueles alimentos, mas, apanhado desprevenido, não haviam quaisquer moedas que intermediassem a compra dos produtos. subi a escada e fechei-me, em casa, frustrado e remoendo na culpa, apesar de saber que ela não era real.

tentei recomeçar a escrever notas no meu caderno. falho. os poemas são incompletos e transvazam uma solidão irritada e negativa: não existe sol, diz-me deus. repondo-lhe apenas que não tenho razão para que não haja sol, mas talvez ele possa responder a tal. o gato olha para mim brevemente, mas volta a enrolar-se com os olhos fitando um destino livre, na sua imaginação.

o gato, dir-se-ia, sabe mais de deus, chamando-se assim, do que eu, que lhe dei o nome. feliz, o gato. ébrio de enfermidade, eu.

meu amigo, manda-me notícias em breve.

um forte abraço

Escrito por rainsong às 00h18...




Comentários

Por estes dias percebi (mais uma vez) que os amigos são das melhores coisas que temos...
Será isto um enigma?

Escrito aqui por mago em 22 de fevereiro, 2004 às 02h22

"Alguém", já sentiu que não!

Escrito aqui por eu em 26 de fevereiro, 2004 às 21h44