Gonçalo M. Tavares publicou o seu primeiro romance: Um Homem: Klaus Klump, o seu caderno 7, editado pela Caminho.
O meu interesse por este autor partiu de uma peça representada por Manuel Wiborg no espaço d'A Capital, Teatro Paulo Claro: o homem ou é tonto ou é mulher (Campo das Letras), escrita, segundo a lenda, em duas horas no CCB e em forma de verso. O meu interesse cimentou-se com uma conversa com ele na feira do livro de Lisboa em 2002 e com a leitura integral do texto da peça e ainda do livro O Senhor Valéry (Caminho).
A sua poesia, bem cotada entre alguns intelectuais(?) reconhecidos na praça, nunca me fascinou... talvez por não me ter aproximado o suficiente, por pegar nos livros nas livrarias e os seus poemas me serem distantes - penso mea culpa, se tivesse levado para casa talvez gostasse. nunca o fiz... talvez o faça.
No romance Um Homem: Klaus Klump, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos a guerra e com ela parte de uma filosofia interior que resolveu expôr: contraditória, para tal servem as poucas personagens do romance.
«A bandeira de um país é um helicóptero: é necessário gasolina para manter a bandeira no ar; a bandeira não é de pano mas de metal: abana menos ao vento, frente à natureza.»
Desta forma se inicia o romance de 36 capítulos não regulares, constituídos por partes não identificadas: (conjuntos de) parágrafos distanciados por uma linha branca. Assim, o romance avança em passagens de acção e de invenção dos pensamentos sobre os homens, sobre a guerra, sobre o estado.
Esta guerra, num país, existe porque esse país sofre uma ocupação, é estabelecida uma resistência, sofre-se, chega o fim da guerra, chega o amorfo e a desilusão... tudo se mantém, apesar das transformações.
«Ninguém ama um cobarde e isto só significa que enquanto se ama não se consegue ver no outro a cobardia.»
A lógica do homem em guerra é atravessada pela lógica da matemática, da química, da física e até da arquitectura. Uma das vocações do autor é expressa deterministicamente no romance, representado momentos mais obscuros para uma leitura descontraída, mas quase sem abstracção.
«Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O?»
O autor não se confunde em momento algum, a continuidade é feita por quem lê. O texto partido, esses parágrafos isolados, deixa-nos acreditar num futuro... criar, enfim, a nossa história. Contudo, a conclusão não fica por mãos alheias: Gonçalo M. Tavares escreve-a e representa-a muito bem: indelével.
«A democracia instala-se no país como uma borracha que se vai derretendo lentamente até preencher por completo a superfície de um compartimento. (...) Não é um sistema político de material primário. É o fogo que a faz: à democracia.»
O Gonçalo Tavares foi meu professore de epistemologia na faculdade, é um sr como deve ser. Li todos os seus livros e claro que este também vou ler. Não sei se sabes mas o lançamento do livro é no Teatro São Luiz (ao Largo do Chiado), Dia 19 de Dezembro, sexta-feira 18.30.
Beijinhos *lucia*
olá! não sabia! mas estive no último "É cultura..." no S. Luiz, onde o Gonçalo também esteve... já tinha lido o Klump e aproveitei para falar com ele e expôr as minhas ideias e, sobretudo, ouvir as dele! :)
obrigado pela dica :)
Escrito aqui por jm em 13 de dezembro, 2003 às 02h05