20 de novembro, 2003

retro

é fácil perceber que a escrita me não toca nestes dias. gostei de fazer aquelas cenas com letras nos versos das coisas. foi engraçado sentir os versos surgirem.. sem ainda terem título. depois a cabeça muda de direcção e a escrita esvai-se em sangue... sangue que não passa de água.. que a escrita que faço não tem carne.

disseram-me que o meu avô está melhor. não o das visões mas o outro. o das visões está bem, julgo eu. melhor que este, certamente. estar melhor significa aqui, abrir os olhos mais, ouvir melhor e comer melhor a papa que lhe levamos à boca. a minha cabeça está cheia de infernos. que os diabos - que a culpa é sempre dos diabos - fossem fortes e dignos e.. se têm culpa, se calhar até são, fortes e dignos. e o meu avô não está num inferno, mas num céu. se afinal eu sou anjo caído... ele não teve tanta sorte. olho para a frente e imagino-me caído numa cama.. e penso.. sou um anjo caído e ponho-me direito e com uma cara sem expressão: não estou contente nem triste... sou apagável... uma névoa que desaparece com os primeiros raios de sol da manhã.

esta história... uma história na história da vida dum gajo parolo e sem graça... esta história acabaria bem sei eu como... mas continuo vendo os meus pais sem vida e a vida longe deles.. e afinal eles são pagens dum deus irritante que governa um céu de espinhos.

lembro-me sempre daquela outra história... que vi nascer numa igreja de Santarém... com o vento lá fora... um torso humano numa cruz... ladaínhas... e o vento lá fora!

é curioso, também, como deixei cair Janus e Júlio em letargia completa... como eles se encontraram numa manhã citadina, encostados a uma parede sob a luz do sol... como não conseguiam respirar, comprimidos pelo peso da vida... e quase pensei que se poderiam ter amado... no entanto, o café todos os dias continua aparecendo em tantas ideias... mais valia juntá-las e fazer uma novela...... gosto imenso daquele episódio dos homens coloridos: azul, amarelo e castanho... a primeira vez do café... um café mágico pensei na altura....

Escrito por jm às 22h44...




Comentários

São as (...) que nos obrigam a pensar/viajar. Por norma uso (...).
Embora descubra nelas o paradoxo da preguiça...

Escrito aqui por pcordeiro em 20 de novembro, 2003 às 23h02

é no paradoxo que eu penso muitas vezes. penso no que poderia escrever ali.. e não escrevo. às vezes não apetecem as vírgulas :)


mas, também, eu uso as "..." para deixar o leitor descansar e pensar na posição dele. criar a sua própria história.. reinventar o espaço que deixo.

por isso eu sei que não vou ser escritor... por não criar esse espaço...

Escrito aqui por jm em 20 de novembro, 2003 às 23h13

se és escritor?
não sei dizer essas coisas

gosto do que escreves, já te disse

acerca do tempo


és uma pessoa que escreve

gosto de pessoas que escrevem

Escrito aqui por margarete em 21 de novembro, 2003 às 19h27

tb gosto de quem escreve. e ainda de quem lê lendo :)

Escrito aqui por jm em 21 de novembro, 2003 às 20h52

também não sei se és/vais ser escritor.
em todo o caso, parece-me que ser escritor não é "não criar esse espaço". ser escritor, entre outras coisas, é fazer opções estéticas para criar efeitos de sentido ou apelar ao lado co-criador do leitor; não surgem assim as tuas "..."?

Escrito aqui por margem em 23 de novembro, 2003 às 09h27

eu nunca me lembro desses conceitos e não os sei tantas vezes :) mas é bom sabê-lo! :)

Escrito aqui por jm em 23 de novembro, 2003 às 14h40