com o regresso do Mil Folhas... o regresso dos amores novos. prendas que me quero dar..
«Poemas de Ruy Belo
apresentação e selecção de Luís Miguel Cintra
Assírio & Alvim
Recolhido num estúdio, em Julho passado, Luís Miguel Cintra gravou 25 poemas de Ruy Belo. O mais breve - "Para a dedicação de um homem", do livro de estreia, "Aquele Grande Rio Eufrates" - tem 44 segundos. O mais longo - "Nem sequer não", de "Toda a Terra" - leva 23 minutos e 58 segundos a dizer, oferecendo em cada verso desafios como estes: "Fel vil para meu mal bole no bule / valha-me folha o tempo da navalha / que isola uma ilha graças a uma agulha / onde uma vida velha nova rebrilha / e uma solidez sagaz sai de quanto se diz / Ó jardim dessa vida para mim perdida / em que o sapato de ourelo foi uma vez vê-lo / e sentir logo nulo todo o esforço de i-lo / dissociar desse pé que era e não é / num mundo que destruiu um mundo que o viu / pisar como ele só a terra que pisou / abaixo de uns olhos alvos e vagos vagamente magos / efémero momento do olhar / rapariga em espiga imponderável".
Luís Miguel Cintra convive com os poemas de Ruy Belo desde há muito, tem-nos como parte da sua vida - era estudante de liceu quando o poeta aparecia, quase diariamente, em visita a seu pai, Luís Filipe Lindley Cintra. Ao longo dos anos, disse alguns destes poemas em público, muitas vezes. Gravou uma antologia para a colecção de áudio-livros da Presença/Casa Fernando Pessoa nos anos 90. Mas não é só por esse registo estar esgotado que se justificava voltar a estúdio, com Ruy Belo. Agora a escolha é inteiramente de Luís Miguel Cintra. Abrange alguns dos poemas mais citados ("O portugal futuro", "Vat 69", "Muriel", "Morte ao meio dia"), mas não se fica por aí. Arrisca a respiração dos mais extensos (se não contarmos com "A Margem da Alegria", um livro-poema).
Ao longo dos 135 minutos de registo, toda a ênfase vem apenas das palavras serem o que são, nesse momento, na frase. A voz plana - rasa, grave. Como se tivesse descido o mais perto de onde o poema nasce e a voz começa.
O volume - a inaugurar a Colecção Sons da Assírio & Alvim - é fácil de manusear: os dois CD vêm numa bolsa que se desdobra no verso da capa.
Nesta colecção segue-se "A Margem da Alegria", que Luís Miguel Cintra gravará com actores da Cornucópia no fim de Novembro. O recital de lançamento será incluído no fecho da programação de Coimbra Capital Nacional da Cultura, a 20 de Dezembro.
A.L.C. »
Sábado, 25 de Outubro de 2003
fonte: Público