A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás
das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro
dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do
crepúsculo
Al Berto, O Medo, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997
Gosto muito, mas mesmo da escrita de AL Berto. Especialmente do "Anjo Mudo". É bom saber que alguém que compartilha os nossos gostos
Escrito aqui por Maria da Lua em 18 de outubro, 2003 às 15h42:) que bom rever-te!
por acaso não terás estado presente no concerto dos Wordsong?
Escrito aqui por jm em 18 de outubro, 2003 às 15h45Todos os dias em caminho das aulas desço aquela avenida que tem ao fundo a torre de belém enquadrada pelo mar. Uns dias os céu está cinzento, outros dias a luz da cidade é branca tal qual como a que alguns nós aprendemos a imaginar. Depois, desço a 24 de Julho ao longo do rio e nunca deixo de espantar-me com a pontes que não atravessam o rio mas as ruas. São sempre momentos de eternidade, na maior parte das vezes os únicos ao longo de toda uma semana "e é como se um dardo de sangue alastrasse pelo linho da noite ou as gaivotas pousassem sobre as águas, depois dos dias lentíssimos... sem ninguém."
Recordo numa noite de inverno em Lisboa o sabor do vodka e o al berto, o poeta, ali ao lado. Foi no Frágil. Recordo que lhe perguntei se tinha alguma laranja no bolso. Assim, sem mais nem menos. Recordo que ele sorriu e me ofereceu uma bebida acrescentando, como era suposto, mais um elemento ao engate que eu tinha iniciado. Tudo seguia o guião que ele um dia tinha escrito num livro e eu lido.O jogo começou. Eu pedia-lhe laranjas ele começava a colocar a hipótese de foda. Falamos do que poderia ser o homem e do que poderia ser o poeta. Eu queria um, ele queria o outro.Convidou-me para ir para casa dele. Clarifiquei que não queria foder nem com o poeta nem com o homem. Confesso que hesitei em ficar a falar com o homem ou ir foder com o poeta, mas acabei por retirar mais uma laranja do bolso que lhe lançei e ele agarrou. Depois de alguns arremessos de laranja entre os dois, cansados, e caída a laranja no chão, ficamos frente um ao outro, crispados e novamente desconhecidos. Duas semanas mais tarde deparo com um texto dele que falava de um homem com cabeça de vidro.
Obrigado al berto pelos momento de eternidade.
por muitas paavras que escreva nenhuma consegue descrever aquilo que sinto quando leio Al Berto!sem dúvida alguma,um dos meus favoritos...
Escrito aqui por tânia em 29 de abril, 2004 às 03h28