6 de outubro, 2003

Escrevo...

«Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem, uma harmonia, uma paz que, mais do qua a paz invocada como instrumento de opressão, mais do que a paz dos cemitérios, é a paz, a harmonia das repartições públicas, dos desfiles militares, da concórdia doméstica, da instituições de benemerência. Ao escrever, mato-me e mato.»



parágrafo de Breve Programa para uma Iniciação ao Canto, in Obra Poética de Ruy Belo, vol. 2, p. 11

Escrito por jm às 16h43...




Comentários

fenomenal! :) obrigada por trazeres isto... faz todo o sentido. *

Escrito aqui por claire lunar em 6 de outubro, 2003 às 19h47

A escrita como um processo de auto-destruição, de suicídio até...
ao contrário dos escritores que dizem que vivem na/pela escrita.

A palavra (a palavra poética), ao dar "vida" exterior ao pensamento, "mata" o sujeito e o(s) objecto(s) desse pensamento? A alteração (que a arte sempre é) é uma forma de "morte"?

questões que me ocorreram...


Escrito aqui por margem em 8 de outubro, 2003 às 15h10

A expressão escrita é, para mim, vista como um processo de dádiva de mim... a bem ver, tal não é mais que um julgar da possibilidade da minha escrita ser relevante a algumas almas. Nessa dádiva de mim existe algo que se desprende e me mata, mas também existe a violência incidindo sobre o outro. Penso que essa violência poderá acontecer sobretudo quando o que se lê é espelho de quem lê.

Ruy Belo expressa bem esta harmonia neste parágrafo. Ele foi um sofredor nele mesmo, inda que sorrisse.

A alteração de que falas penso ser a possível transformação eterna das "coisas", e tal não é mais do que a abstracção e metafísica da morte para a maioria dos que sentido leve, não deixam de acreditar no peso da vida.

Cada palavra é um sílex cortando a pele fundo... as veias.

Escrito aqui por jm em 9 de outubro, 2003 às 01h47