27 de janeiro, 2002

abre los ojos




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abre los ojos (1997 - 117min) e Vanilla Sky (2001 - 135min)

Notou-se perfeitamente o sim consentido a Os Outros de Alejandro Amenábar por um público fascinado pela beleza fria de Nicole Kidman e o seu papel quente em Moulin Rouge. O filme Os Outros é Amenábar a trabalhar com uma produção habilidosa e com à vontade financeiro... A conclusão do argumento não espantou quem se lembrasse de O Sexto Sentido... mas sem dúvida que Os Outros são muito mais centrados sobre o macabro gosto pelo medo súbtil que se provoca aos outros... a mim, fez-me ver, também, que Amenábar é um escritor com ideias muito boas e com um estilo que me agrada pelo que tem de presente e de futuro.

abre los ojos mostra-nos um cinema europeu à procura de algo... (mostra-nos a bela Penélope Cruz com mais carne). dá-nos, enfim, a esperança do cinema europeu ter meios para fazer cinema com estruturas que ilustrem e demonstrem melhor o que o realizador e argumentista pretendem ter criado. Penso que abre los ojos é sem dúvida alguma um excelente argumento, e tenho pena de não ter lido o livro, também escrito por Amenábar, que lhe deu origem. O filme é intenso e ter-me-ia surpreendido se eu o não tivesse visto depois de ter assistido ao seu remake: Vanilla Sky.

Penélope Cruz é a ligação mais visível entre a obra original e a sua repetição, interpretando Sofia, a paixão naive de um menino rico (César/David), líder de uma fortuna por morte dos pais. Mas depois de Sofia o que sobra é a linha de pensamento e desenvolvimento da trama, porque a elaboração criativa de Cameron Crowe levou-nos longe! - e aqui fica a ressalva, quão longe do livro de Amenábar eu não sei, porque o não li!

Enquanto em abre los ojos a realidade nem sempre se quer esconder, sendo mais explícito o conceito do argumento através de pistas dadas pelo personagem César, em Vanilla Sky, sempre que o espectador pensa saber o que está a acontecer, Crowe tira-lhe o tapete e demonstra perfeitamente a sua habilidade em jogar às escondidas.

A minha razão diz-me que estes filmes são um filme do argumentista e do realizador, que, enfim, os actores são todos secundários. Gostei muito, sem dúvida, das actuações de Tom Cruise - que me surpreendeu outra vez, a segunda, depois de Magnólia -, de Penélope Cruz - em ambos os filmes e depois de a ter conhecido em Blow com Depp. Relativamente a Diaz, a composição da personagem pareceu-me simples e bem conseguida, penso que Crowe lhe deve ter exigido o seu sorriso de marca durante todas as cenas...

Conviver com dois filmes semelhantes com 4 anos de diferença far-me-á dizer Vanilla Sky ganha a abre los ojos. A questão está em que Vanilla Sky não existiria sem abre los ojos. E que este último é feito de uma forma excelente e sem mácula para o que nos deseja mostrar: quantos dos nossos sonhos não terão sido realidade? Enquanto o primeiro, explica melhor o que se passa e porque se passa, alterando substancialmente elementos do argumento, por exemplo: César é herdeiro de uma empresa de catering e Sofia é actriz e mimo em abre los ojos, sendo David herdeiro de uma editora literária e actualidades e Sofia é bailarina, devolvendo a Penélope Cruz a sua primeira profissão, em Vanilla Sky. Crowe também se empenhou em demonstrar a hi-tech disponível, não existem telefones móveis em abre los ojos, em colocar um Ferrari e um Mustang, ambos pretos, no lugar de um Carocha descapotável branco, esmagando por completo o pequeno orçamento de abre los ojos, com despertadores de rádio analógicos a fingir que contêm gravações...

abre los ojos é um filme de culto! Vanilla Sky faz parte do culto a Crowe!

Crowe atira-nos com uma banda sonora excelente, mostrando que está atento ao mundo... se calhar a um mundo de sonho na realidade dos pesadelos: R.E.M., Radiohead, Sigur Rós, Jeff Buckley, e outros, aparecem no filme em momentos chave que, depois do fim do filme, eram as pistas mais que suficientes para compreender o que se estava a passar. Crowe vai buscar clips de videos de Bjork, the Who e filmes como Jule e Jim e O Acossado. Crowe faz bem... a minha vénia!

Para esta crítica se completar falta ler o livro de Amenábar, e tentei não rivalizar os dois realizadores por esta razão: o livro pode conter os dois filmes...e tenho a certeza que o dinheiro disponível marcou a diferença.

Escrito por jm às 15h35...




Comentários

Gostava de ver Abre los ojos...

Escrito aqui por Ana [Lua] em 21 de outubro, 2004 às 02h04

É fantástica a abordagem em jeito de comparação aqui apresentada.

São dois filmes que, ainda que tendo como base a mesma história e sequência de cenas, nos cativam em pontos diferentes: o 1º na inocência e na originalidade da história; o 2ºpelo factor surpresa a que Sr crowe nos vai habituando...

Parabéns pela crítica, está excelente e com certeza que transpõem em palavras o pensamento de muitos que tem a oportunidade de ver ambos os filmes.

Escrito aqui por Carina em 29 de outubro, 2004 às 05h53

Obrigado, Carina.

Escrito aqui por jm em 29 de outubro, 2004 às 12h10