ter a certeza de que os acontecimentos da minha vida são reais deixou de ser algo com que me preocupo.
agir em conformidade com regras e abrir excepções é uma obrigação profissional apenas.
sonhar ou pressupor uma realidade paralela é algo mais atraente e tentativamente útil ao gozo de imagens... não é sonhar algo para o futuro, como em ter esperança... isso não sou capaz; depois de me conhecer o suficiente e ter noção de que, aqui, a regra é a não realização do sonho, prefiro conspirar e criar ilusões mais imediatas e passageiras... que acabam no exacto momento em que a descrição acaba... tudo o mais fica nas outras mentes que presenciaram essa descrição.
um filme de sonhos é um filme que nos revela pelo menos um sonho, e não uma fantasia inalcançavel... e um sonho não tem que ter uma lógica primária e objectiva de princípo, meio e fim... existe por si só, como uma teia sempre em construção.. ou uma árvore com folhas sempre a nascer...
nos últimos tempos, sonhos em filmes não têm faltado: Amélie Poulain, Mulholland Drive e O Gosto dos Outros, mostram-nos modos diferentes de sonhar uma realidade passível de existir.
todos estes filmes nos remetem para pessoas, para realidades comuns.. para ideias de um hoje paralelo... concerteza, nem sempre teremos uma opinião convergente com o que nos é mostrado.. nem sempre saberemos distinguir o nós dos outros... muitas vezes desejaríamos estar lá em vez de aqui!
dos três filmes que referi, a maior ficção encontra-se em Lynch. ao bom estilo aterrador de Twin Peaks (série), o realizador conta uma história de amor e perdição em Holywood (re)vista do além. e neste sonho morto existe um sonho e uma realidade que se transfiguram de uma forma que nos compromete aqui, nas nossas vidas comuns...
Jeunet é mais realista, mais ligado ao ridículo que cada um de nós é, na nossa maneira de ver e admirar o que nos rodeia em imediato. habituado ao seu humor negro, vi-me desprendendo risos por situações de índole naïve... Jeunet soube bem virar o bico ao prego ;)! num ambiente claro e realista, ele, de certa forma, reinventou o sonho de ser capaz de ajudar os outros. e quem presta ajuda não é alguém conhecedor da vida, é uma personagem ingénua quase sem força para se ajudar a si própria... não deixamos de ter a certeza de que ela poderia ser mais adulta e menos enferma na capacidade de antevisão dos resultados das suas acções, contudo isto que acabei de escrever é realidade... não um sonho.
Agnès Jaoui desembrulhou a realidade para nós, os ignorantes! para nós, que achamos que somos os mais certos(!) esta comédia dramática é o reconhecer de que nem todo o público é capaz de assumir e tentar ultrapassar os seus defeitos... e, assim, o filme passa a ser um sonho para muitos! uma realidade paralela... a ignorância de vidas simples é, afinal, mais complexa do que acreditar na mudança intrínseca ao indivíduo.
... para quem desejar: o filme Intimidade já teve o seu lançamento comercial em DVD através da Atalanta, podem encontrá-lo na FNAC.