16 de julho, 2002

Não opinar sobre "coisas"

Não opinar sobre "coisas" tem por razão um certo receio de o não saber fazer da melhor forma... vou arriscar uma breve lamúria sobre um exercício teatral que já não está em cena! Assim, protejo-me de quem não viu e como quem viu não me lê - porque eu não existo - estou imune a todos... sou como a peste, imune à cura!

Na passada Quinta-feira, dia 11, desloquei-me, curioso, às caves do Liceu Camões! Gentilmente informado de que ali se executava um exercício de finalistas dos cursos de Formação de Actores/Encenadores e Realização Plástica do Espectáculo da Escola Superior de Teatro e Cinema - a bem dizer, uma chama que arde na minha escrita ficcionada... imagens!

LA RondeA curiosidade residia em ver novos actores actuar! Senti-los como são: novos, perante a minha parcialidade face ao teatro: eu gosto da rudeza da vida real representada pelos Artistas Unidos e, algum, experimentalismo que surge em breves momentos!

parêntesis: não considero que a nudez constante em qualquer peça seja um acto de libertação humana e redentora perante as regras sociais. desde pequeno que a minha mãe me pergunta: porque não andas tu nú por aí? ... ela pergunta isto porque eu abomino roupa e que me chateiem por andar vestido como eu ando... dizem que mal! :fim de parêntesis

Voltando ao cerne! La Ronde de Arthur Schnitzler (do original Reigen, escrito em 1896), foi adaptada pelo grupo de finalistas a partir de traduções já existentes de Eduarda Dionísio e Pedro Penim. Muito bem!! e...?

As caves estavam limpas! Bem arranjadas com vários cenários simples mas bem cuidados e com jogos de luz que os escondiam ou revelavam à medida do tempo da peça! Uma floresta negra de plástico rasgado pendurado do chão do liceu! Quartos: intímo, de marido e mulher, ou lascivo, com cama de acrílico, de artista amada por todos sem amor futuro! Restaurante e casas de alterne! tudo isto num espaço negro e só nosso! O colectivo da peça realizou todo o esforço físico de preparação da peça em todos os pormenores, empenhou-se para empreender o seu teste final na escola! Tivemos música ao vivo durante a peça... iluminando o que houvesse ainda de sombra naquele lugar negro!

A peça!! Dizem-nos na apresentação escrita que o "texto está estruturado dramaticamente em dez sequências entre cinco homens e cinco mulheres, em que cada uma delas termina com um parceiro encontrando-se com um novo, criando uma cadeia bizarra de encontros eróticos". Ora, nós assistimos à actuação de dois actores: Maria Gil e Ricardo Gageiro, que personificaram essas personagens ansiosas por uma amor qualquer vago e sem sentido numa época vaga e sem sentido, como a nossa e todas as outras antes da nossa, porque o amor é o sexo que dele se faz! As paixões grandiosas conquistadas a meninas pobres ou a púberes meninos ansiosos por se medir com leões velhos e/ou acomodados ao ritual do casamento social: sou casado com a minha mulher e fodo a minha amante!...

Neste quarto e penúltimo dia de actuação, o desempenho dos novos actores foi febril, decorreu a uma velocidade entusiasmante e as suas figuras humanas cresciam em nós mais que as diferenças das personagens que foram interpretando. Com um texto bem estruturado e cheio de subjectividades - de acordo com as artes do amor -, apresentaram-nos uma faceta da vida recriminada e recalcada por muitos: a procura do amor verdadeiro em partilha com o sexo e o prazer, que em vez de envergar os trajes do fim do século XIX podia usar os do início do século XXI.

O encadeamento bizarro dos encontros está presente, mas o erotismo ficou muito pela rama! Os actores, ou por serem novos ou por não estarem ainda à vontade com esse tal erotismo, não revelaram o prometido. Não que importe ele não ter existido, porque considero as cenas demasiado rápidas para o erotismo se evidenciar e sequer ser necessário.

Os actores!! Maria Gil e Ricardo Gageiro tiveram um discurso claro e bem re-arranjado nas situações de enganos ou simples engasgos... Mostraram boa forma física e um bom trabalho de percepção um do outro! Partilharam com o público os momentos de riso, não deixando que isso interferisse com o decorrer da peça. As mutações de vestuário e de atitude psicológica das personagens foi bem conseguida, inda que melhor transmitida quando eram mutações para psicologias opostas. Ambos elegantes e gentis de olhar, deixaram no ar a vontade de os ter integrados no mundo do teatro e do cinema e daquilo que eles façam bem e queiram fazer e...

Pronto.. vou ficar por aqui! A gente vê-se na rua!... A gente vê-se nua!...

Escrito por jm às 14h01...




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