13 de dezembro, 2002

na Culturgest

o encarregado, de Harold Pinter - à esq Américo Silva, à dir. Jorge Silva Melo o encarregado, até 14 de Dezembro na Culturgest
na Culturgest, o sacrifício de levar a vida como se pode.

talvez seja já tarde para vos dizer "vão ver!" mas haveria dúvida? claro, se não souberem quem são os Artistas Unidos ou Harold Pinter. não serei a melhor pessoa para vos prestar esclarecimentos sobre teatro. o que sei é emocional e sensorial, a pele de galinha talvez seja o mais comum nestes tempos conturbados da vida portuguesa.

culturalmente espoliados, os portugueses nunca precisaram de se estender ao sol e ver nascer as couves. culturalmente espoliados, os portugueses cantam lamúrias de desassossego. culturalmente espoliados, os portugueses não são nada.

agora, que definição dar a esta cultura que afirmo espoliada? deixo então a ideia de que esta cultura não é a que faz deste país uma nação nas bocas bem tratadas dos políticos. a cultura de que falo, é erecta no desenvolvimento do pensamento e conhecimento enquanto pessoa ligada a outras pessoas, não só numa estrutura complexa de relações de produção de riqueza material, mas também numa cadeia ainda mais complexa da produção do efémero momento da descoberta do conhecimento e da partilha do mesmo.

este é uma país espartilhado por várias influências culturais: o sr. Arcebispo de Braga não tem ("graças a Deus!", diria ele) a cultura de base de que eu usufruo; o sr. Santana Lopes terá uma qualquer cultura da ignorância e faz questão de exterminar por todos os meios a eventualidade de as outras culturas co-existirem com a sua ignorância, deixando nos anais da política a intenção expressa de criar standards de cultura.

esses standards tendem a ser pagos a peso de ouro - cOltura de elites - ou a serem distribuídos gratuitamente - cOltura popular. nestes últimos incluam-se as marchas populares (tradição com mau cheiro e sarna, herdada do tempo populista do sr. Oliveira Salazar), as festas das TV e os choradinhos pimbas de sorriso nos lábios em todos os palcos políticos.

e no meio desta azáfama na destruição da eventualidade de alguém ter ideias ou imaginação e as querer transmitir, existe gente nas ruas sem saber nem lhe interessar, se soubesse, a merda que estou aqui a escrever: que nunca lhe levará comida à boca nem calor ao corpo. mas, existe outra gente que escreve e revela que gente é essa para outra gente que não sabe...

agora, se tiverem vontade e liberdade, assistam a esta magnífica peça o encarregado e vão perceber tudo o que escrevi ainda melhor.

Escrito por jm às 02h23...




Comentários