a sombra de Mart, de Stig Dagerman
Esta peça de teatro, a terceira, segundo consta, de Stig Dagerman foi encenada pelo Teatro do Bairro Alto em 1999 e editada pela Cotovia em Julho do mesmo ano, numa edição de 1000 exemplares.
"A sombra de Mart" é uma peça em três actos, cada um com dois quadros, que se desenvolve em torno de Gabriel, um anti-herói. Como sempre, o medo é um dos principais temas abordados por Stig Dagerman, que neste caso nos vem inserir num espaço de pós-guerra. Após a retirada dos alemães de uma cidade sueca, Madame Angélica é uma senhora que ama o seu filho acima de todos as outras pessoas, o seu filho morto Martim, e Gabriel, também seu filho, é permanentemente comparado a Martim, vivendo sobre o jugo da repressão verbal. Teresa é a amante que Madame Angélica não se permite ser.
Uma peça sobre a ascensão e queda do anti-herói, onde nos é revelada a importância da cobardia e da coragem, e de como a coragem pode ser a imagem hipócrita que esconde a pura vontade de matar. De como o feio e fraco será sempre o inverso do forte e belo, na vida e na morte.
Uma história feita de gente real, com a qual Stig Dagerman fez mexer algumas regras da dramaturgia. A peça tem um desenvolvimento claro e rápido ao longo dos primeiros cinco quadros, onde toda a relação entre personagens é facilmente acompanhada pelos planos visuais dados pelo autor, contudo, o último quadro é um monólogo de 28 minutos (segundo as notas finais desta edição), o que veio inflamar os críticos da altura de estreia da peça, que realçaram a impossibilidade de ultrapassar génios dramaturgos que não compunham monólogos superiores a seis minutos.
A leitura deste livro é fácil, leve e perturbante pela sua intensidade. Uma injecção de repúdio pelo mundo miserável, que vemos mais uma vez aproximar-se da guerra por vontade própria, por uma coragem falível num persuposto: a vontade de matar!