sou um homem feliz, pensou para ele mesmo. sou um homem contente, determinou o pensamento. a felicidade é um símbolo sem credo, sem rosto... não existe. John entra na sala. Ron, sentado junto da secretária, fuma olhando a janela.
John - bom dia. deixaram-me vir, hoje. esta sala está vazia, como consegues permanecer aqui?
Ron - deixaram-te sair, estou a ver. deixaram-te sair e, quando chegas, questionas a minha permanência numa sala nua. que interessante. e vão deixar-te voltar?
John - que pergunta, Ron! que fizeste às coisas que aqui estavam? os candeeiros de pé, as cadeiras... o aparador?
Ron - estão no teu quarto. não preciso delas. preciso apenas de uma secretária, duas cadeiras e de muito espaço.
John - por momentos pensei... pensei que as tivesses deitado fora...
Ron - que ridículo, John! o futuro é tão incerto. as minhas necessidades podem mudar a qualquer instante. que vieste cá fazer?
John - vim ver-te. vim por tua causa.
Ron - e porque perguntas pelas coisas da sala, e não perguntas por mim?! sabes que as coisas a mim não me importam. as coisas não sofrem mutações.
John - importa-te o quê?
Ron - importam-me as acções. o que cada um faz para podermos ser mais contentes.
John - diz-me então, como estás?
Ron - estou bem. tenho bebido mais do que o suficiente, para me manter ébrio o maior tempo possível. mas sem me exceder, de modo a poder continuar ébrio e a beber... numa letargia física que me dê uma realidade virtual de quase-felicidade.
John - e não poderás ser feliz sóbrio, Ron?
Ron - ninguém é feliz! ninguém chega lá... e os que pensam que chegaram, não fazem mais do que enganar-se. esses deviam vir para aqui e sentarem-se uma tarde nesta sala, a ver o pôr do sol sobre os telhados da cidade. porque vieste?
John - vim para te ver. para estar contigo, queres que vá?
Ron - não, fica. acompanha-me e bebe um copo do que quiseres... água só na torneira. [pausa para acender um cigarro] nõo tenho pensado em ti, John. fazes-me bem quando estás longe. consegui, finalmente, compreender o facto de que a solidão é o meu estar favorito de viver. amei-te. e, ainda te amo. mas isso não me obriga o desejo de ti. nem da proximidade.
John - gosto de ti, sabe-lo. não tivemos vida enquanto estivemos juntos. és demasiado fechado para que qualquer pessoa te entenda... ou, perceba. estás doente e não sabes como lidar com esse estado. estás doente e afastas tudo e todos. foi tão triste assistir à derrocada dos sonhos que edificamos juntos... mais triste, porque não passaram de sonhos... nem a raiz da realidade deixaste crescer. Ron, amei-te! perdeste o momento em que te deixei de amar. não estavas cá. estavas enfiado no buraco onde o teu silêncio cresceu e te aprisionou. a ti, Ron, que sempre ansiaste pela liberdade... podias ter feito mais por ti. poderias ter sido mais contente, Ron. sempre que saímos com outras pessoas... falavas... porque nunca aplicaste a ti o que disseste aos outros para fazerem? com eles funcionava muitas vezes. nunca acreditaste em ti! és, para ti mesmo, o primeiro mentiroso.
Ron aplaude, batendo fortemente com as palmas das mãos, sorrindo com o cigarro na boca.
Ron - muito bem. muito bem. John, por muito perto que estivesses, a solidão sempre foi a minha verdadeira companheira. traí-te com ela. tentei acreditar numa possível normalidade. tentei crer numa vida com elementos tangentes à normalidade social. ter um amor, viver com esse amor. traí-me! eu não sou integrável no socialmente normal. ao criar essa normalidade tornei-me anormalmente estúpido, anormalmente idiota... as minhas tangências resultaram numa anulação... o meu amor por ti, não podia ter sido vivido assim. dentro de padrões definidos. traí-nos...
John - queres que cozinhe?
Ron - era simpático! não sei o que tenho por aí. se conseguires fazer algo.. poderíamos almoçar... se não mando vir qualquer coisa de fora, da tasca.
John vai para a cozinha. Ron segue-o com o copo de Baileys na mão e um cigarro apagado na orelha.
John - pelo menos manténs alguma limpeza! os teus traços mais indeléveis mantêm-se.
Ron - quais traços?
John - sempre gostaste de alguma limpeza... e arrumação.
Ron - sempre precisei de espaço! as coisas acumuladas em determinados pontos enchem-me o espaço. sabes disso! preciso de poder olhar para longe, sem obstáculos.
John - acreditei, um dia, que era assim que sonhavas! depois, percebi que era a tua realidade a impor regras. as regras da casa. nunca admitiste haver regras, pois não? preferiste silenciar o teu desagrado pela minha maneira de estar e fazer as coisas... e enfiaste-te num buraco! tens a certeza de quereres que cozinhe, Ron?
John vai à despensa e traz salsichas e um pacote de batatas fritas.
Ron - sim, por favor. não estou em condições de mexer em nada. tentei escrever, ontem! mas mais uma vez não passou disso. dum brilho nos olhos, ofuscado pela rápida conclusão de que não seria mais do que um brilho solitário! passo mais tempo a rabiscar e a ignorar o papel branco sobre a secretária, do que a pensar ou a ler.
John - deixaste de ler há tanto tempo. deixaste de escrever... não me lembro quando foi... foi...
John abre o frigorífico e tira de lá ovos e bacon.
Ron - ... foi tão triste quando deixei de escrever... quando deixei de acreditar. todos me confundiam com eles mesmos... e entre eles se confundiam... devem continuar a a fazer o mesmo, nas suas reuniões, e acham-se todos iguais nas suas incapacidades... e quando estavam comigo, quem quer que fosse, sempre elogiaram ou denegriram os outros, os ausentes, que faziam e aconteciam... e nunca me disseram nada.
Ron bebe o resto do Baileys de uma só vez e acende o cigarro com um fósforo.
John - é tarde. vou mexer uns ovos e fritar bacon e salsichas. comemos com estas batatas.
Ron - sabes, John, amo-te. no meu silêncio compreendo que te magoei, mas sei que te amo... só que não dependo desse amor para viver. sinto-me bem por te amar.. sinto-me bem por te teres livrado de mim..
John - magoaste-me. mataste-me. mataste a pessoa que eu era. aquela que te reconhecia enquanto pessoa... tu o monstrinho idiota... que falava e fazia história numa conversa... que não era recordada para além daquele presente... e secaste por dentro, por não veres os outros acreditarem em ti. morreste, tu também, por não creres possível acreditares sozinho em ti! és demasiado infantil nas tuas crenças. acreditas no bem e só fazes mal a ti mesmo. como tu disseste, traíste-me e traíste-te. e o pior foi o silêncio em que te enterraste.
Ron olha pela janela da cozinha e sorri.
texto apresentado no Estrela Hall
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